{"id":7166,"date":"2022-10-09T07:58:58","date_gmt":"2022-10-09T10:58:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7166"},"modified":"2022-10-09T09:49:23","modified_gmt":"2022-10-09T12:49:23","slug":"nas-entrelinhas-vamos-falar-de-exclusao-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-vamos-falar-de-exclusao-estrutural\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Vamos falar de exclus\u00e3o estrutural"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>N\u00e3o existe apenas uma via de ascens\u00e3o social, pautada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas inclusivas, de car\u00e1ter social-democrata; tamb\u00e9m h\u00e1 o empreendedorismo e o esfor\u00e7o individual na via iliberal, com outros valores<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8220;Toca para a frente, berrou o cabo. Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusa\u00e7\u00e3o medonha e n\u00e3o se defendeu.<br \/>\n\u2014 Est\u00e1 certo, disse o cabo. Fa\u00e7a lombo, paisano.<br \/>\nFabiano caiu de joelhos, repetidamente uma l\u00e2mina de fac\u00e3o bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safan\u00e3o que o arremessou para as trevas do c\u00e1rcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu- se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando.<br \/>\n\u2014 Hum! hum!<br \/>\nPor que tinham feito aquilo? Era o que n\u00e3o podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzu\u00ea sem motivo. Achava-se t\u00e3o perturbado que nem acreditava naquela desgra\u00e7a. Tinham-lhe ca\u00eddo todos em cima, de supet\u00e3o, como uns condenados. Assim um homem n\u00e3o podia resistir.<br \/>\n\u2014 Bem, bem.<br \/>\nPassou as m\u00e3os nas costas e no peito, sentiu-se mo\u00eddo, os olhos azulados brilharam como olhos de gato. Tinham-no realmente surrado e prendido. Mas era um caso t\u00e3o esquisito que instantes depois balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, duvidando, apesar das machucaduras.<br \/>\nOra, o soldado amarelo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Essa passagem de Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953), publicado em 1938, um cl\u00e1ssico de nossa literatura moderna, retrata a rela\u00e7\u00e3o de poder no sert\u00e3o nordestino, num determinado momento na vida de uma fam\u00edlia de retirantes, que foge de mis\u00e9ria e da seca. Fabiano \u00e9 brutalmente agredido, depois de se retirar de um carteado, para o qual fora intimado pelo soldado amarelo, sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o. Hoje, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o corriqueira nas grandes cidades brasileiras, e n\u00e3o s\u00f3 nas periferias.<\/p>\n<p>Mais do que a fuga da seca causada pela inclem\u00eancia da natureza (Arrastaram-se para l\u00e1, devagar, Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria com o filho mais novo escanchado no quarto e o ba\u00fa de folha na cabe\u00e7a, Fabiano sombrio, cambaio, o ai\u00f3 a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cintur\u00e3o, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atr\u00e1s.), o que oprimia Fabiano e sua fam\u00edlia eram as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o estabelecidas pelos pr\u00f3prios homens, cujas vidas s\u00e3o apresentadas em toda a sua complexidade.<\/p>\n<p>Assim como existe um racismo estrutural na sociedade brasileira, h\u00e1 tamb\u00e9m um processo de explora\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o estrutural da maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira, o que explica o fato de o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva liderar a disputa eleitoral para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica com ampla vantagem entre os eleitores de mais baixa renda (at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos) e de menor escolaridade, principalmente no Nordeste. Lula \u00e9 um ex-retirante que chegou \u00e0 Presid\u00eancia. Ou seja, encarna o sonho de qualquer nordestino ou cidad\u00e3o pobre das periferias dos grandes centros que pretende mudar de vida e a de seus filhos.<\/p>\n<p><strong>Mobilidade e inclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para entender a exclus\u00e3o estrutural, precisamos considerar o regime escravocrata que vigorou no Brasil do in\u00edcio do s\u00e9culo 16 ao final do s\u00e9culo 19, marcado pela explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra africana trazida para o Brasil pelos colonizadores portugueses. A escravid\u00e3o deixou marcas profundas de desigualdade em todas as estruturas de poder.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, em 1888, pessoas negras n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 terra, indeniza\u00e7\u00e3o ou reparo por tanto tempo de trabalho for\u00e7ado. Muitos permaneceram nas fazendas em que trabalhavam em servi\u00e7o pesado e informal. Foi a partir da\u00ed que se instalou o racismo estrutural, a exclus\u00e3o de pessoas negras dentro das institui\u00e7\u00f5es, na pol\u00edtica, e em todos os espa\u00e7os de poder.<\/p>\n<p>Esse conjunto de pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias, institucionais, hist\u00f3ricas, culturais, por\u00e9m, n\u00e3o ficou restrito aos negros, atingiu tamb\u00e9m os ind\u00edgenas (cuja resist\u00eancia \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o foi combatida com o exterm\u00ednio f\u00edsico e cultural) e a popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a e pobre, que viria a migrar para os grandes centros com a urbaniza\u00e7\u00e3o e, principalmente, a industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mapa socioecon\u00f4mico das elei\u00e7\u00f5es mostra claramente que as classes m\u00e9dias e a elite econ\u00f4mica do pa\u00eds, majoritariamente, desejam a continuidade do governo Bolsonaro. Mesmo que eventualmente discordem de suas posi\u00e7\u00f5es mais extremistas, da sua misoginia e autoritarismo. E que a popula\u00e7\u00e3o de mais baixa renda, exclu\u00edda de quase tuto, exceto o direito ao voto secreto, direto e universal, tamb\u00e9m majoritariamente, apoia a oposi\u00e7\u00e3o e deseja a mudan\u00e7a, com a volta de Lula ao poder.<\/p>\n<p>\u00c9 uma divis\u00e3o perigosa, porque revela um conflito estrutural, de natureza de classe. Historicamente, isso tem se resolvido com a for\u00e7a bruta das solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, que buscam a moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds por vias que mant\u00eam a secular exclus\u00e3o da grande massa da popula\u00e7\u00e3o, despreparada cultural e tecnicamente para um novo ciclo de transforma\u00e7\u00f5es, como o que estamos vivendo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 viv\u00edssima a velha segrega\u00e7\u00e3o social, que explica as cidades partidas, a exist\u00eancia de elevadores sociais e de servi\u00e7o em edif\u00edcios residenciais e suas depend\u00eancias de empregadas. Mas n\u00e3o podemos ser manique\u00edstas, n\u00e3o existe apenas uma via de ascens\u00e3o social, pautada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas de car\u00e1ter inclusivo, social-democrata ou social-liberal; a via iliberal tamb\u00e9m tem o empreendedorismo e o esfor\u00e7o exclusivamente individual como fatores de mobilidade social, de forma\u00e7\u00e3o da nova classe m\u00e9dia e de uma nova elite econ\u00f4mica, com outros valores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe apenas uma via de ascens\u00e3o social, pautada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas inclusivas, de car\u00e1ter social-democrata; tamb\u00e9m h\u00e1 o empreendedorismo e o esfor\u00e7o individual na via iliberal, com outros valores &#8220;Toca para a frente, berrou o cabo. Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusa\u00e7\u00e3o medonha e n\u00e3o se defendeu. \u2014 Est\u00e1 certo, disse o cabo. 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