{"id":7188,"date":"2022-10-16T06:27:06","date_gmt":"2022-10-16T09:27:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7188"},"modified":"2022-10-16T06:27:06","modified_gmt":"2022-10-16T09:27:06","slug":"nas-entrelinhas-a-alma-imoral-das-mulheres-rejeita-o-machismo-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-alma-imoral-das-mulheres-rejeita-o-machismo-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A &#8220;alma imoral&#8221; das mulheres rejeita o machismo de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A moralidade \u00e9 oposta \u00e0s for\u00e7as transgressoras da alma, que vive do que a sociedade reconhece como imoral, diz o rabino. Em todas as fam\u00edlias, a mulher ou a filha votam com a alma, em quem quiser<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Simone Lucie-Ernestine-Marie-Bertrand de Beauvoir (1908-1986), como seu pr\u00f3prio nome sugere, nasceu em ber\u00e7o de ouro, foi educada por professores particulares e estudou filosofia na Sorbonne, onde conheceu o fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), seu companheiro, com quem foi sepultada seis anos ap\u00f3s a morte do &#8220;marido&#8221;. Viveram juntos, mas nunca se casaram. Considerada a &#8220;m\u00e3e do moderno movimento das mulheres&#8221;, quando escreveu O Segundo sexo, sua obra seminal, n\u00e3o se via como feminista. Sua motiva\u00e7\u00e3o foi responder \u00e0 pergunta &#8220;O que \u00e9 uma mulher?&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira onda do feminismo foi a luta pelo sufr\u00e1gio universal, desde o final do s\u00e9culo XIX, porque as mulheres n\u00e3o tinham o direito de votar; a segunda, foi a luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o no lar, no trabalho e os preconceitos, que n\u00e3o podiam ser alterados apenas pela letra da lei. Simone de Beauvoir elevou o movimento feminista, do qual n\u00e3o fazia parte, a um novo patamar na d\u00e9cada de 1960, ao trazer ao debate quest\u00f5es subjetivas que estavam associadas ao existencialismo. Ela diferenciava o ser f\u00eamea do ser mulher.<\/p>\n<p>O papel tradicional de esposa, de dona de casa e de m\u00e3e aprisionava as mulheres numa condi\u00e7\u00e3o em que era afastada de outras mulheres e tinha a vida definida pelo marido. Simone via o &#8220;eterno feminino&#8221; como uma justificativa para essa desigualdade e buscou o &#8220;ser humano na condi\u00e7\u00e3o feminina&#8221;, isto \u00e9, a alteridade das mulheres. Ou seja, no reconhecimento de que s\u00e3o pessoas com culturas singulares e subjetivas que pensam, agem e entendem o mundo de suas pr\u00f3prias maneiras. Reconhecer a alteridade \u00e9 o primeiro passo para a forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa, equilibrada, democr\u00e1tica e tolerante, onde todas e todos possam expressar-se, desde que respeitem tamb\u00e9m a alteridade alheia.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a muralha da rejei\u00e7\u00e3o que separa o presidente Jair Bolsonaro da maioria das mulheres. N\u00e3o reconhece a possibilidade de as mulheres escolherem entre si mesmas, como mulher, fundamentalmente diferente do homem e, ao mesmo tempo, a si mesmas como um membro igual da ra\u00e7a humana. Vem da\u00ed a sua misoginia, e sua dificuldade de conviver, por exemplo, com mulheres parlamentares que pensam diferente e n\u00e3o seguem sua lideran\u00e7a, e com jornalistas que ousam fazer perguntas inc\u00f4modas ou confront\u00e1-lo com suas pr\u00f3prias opini\u00f5es.<\/p>\n<p>O resultado aparece nas pesquisas claramente: Na pesquisa do Instituto Paran\u00e1, o que mais se aproximou do resultado do primeiro turno, divulgada na quinta-feira, o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, aparece com 47,6% de inten\u00e7\u00f5es de votos e o presidente Jair Bolsonaro com 44,1%. Lula perde entre os homens (46,2% contra 47,3%), em empate t\u00e9cnico, mas ganha com uma vantagem de quase oito pontos entre as mulheres (48,9% a 41,1%). Bolsonaro tem feito um enorme esfor\u00e7o para reverter essa diferen\u00e7a, principalmente entre as mulheres evang\u00e9licas, mas s\u00e3o muitos votos que precisam conquistados: Dos 156.454.011 de eleitores aptos, 82.373.164 (52%,65) s\u00e3o mulheres. S\u00e3o aproximadamente 6,4 milh\u00f5es de votos de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Nudez e transgress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um detalhe importante, que n\u00e3o aparece nas pesquisas: nas fam\u00edlias bolsonaristas, muitas esposas e filhas votam em Lula. Quanto maior a press\u00e3o, mais consolidado esse voto, porque \u00e9 o tipo da coisa que refor\u00e7a a imagem machista e mis\u00f3gina de Bolsonaro e, ao mesmo tempo, desperta a alma feminina transgressora dos padr\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o masculina. A prop\u00f3sito dessa contradi\u00e7\u00e3o, a cultura judaica, t\u00e3o perseguida, tem muita coisa a nos ensinar. Para o rabino Nilton Bonder, a &#8220;alma&#8221; seria nada mais que o componente consciente da necessidade de evolu\u00e7\u00e3o, a parcela de n\u00f3s capaz de romper com os padr\u00f5es e com a moral conservadora. Sua natureza seria, portanto, transgressora, por n\u00e3o corroborar os interesses da moral tradicionalista.<\/p>\n<p>Um dos exemplos utilizados pelo rabino para explicar a tese, no livro a Alma Imoral, que serviu de roteiro para o mon\u00f3logo interpretado por Clarice Niskier, de muito sucesso, \u00e9 justamente a rela\u00e7\u00e3o corpo-alma. Ao longo dos anos, a cultura afirmou ser o corpo a fonte do imoral e a alma, do moral. O primeiro ato de Ad\u00e3o e Eva como seres conscientes foi cobrir o corpo nu, dando a no\u00e7\u00e3o de indec\u00eancia e imoralidade do corpo, frente ao despertar da alma supostamente moral. No entanto, \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. A alma \u00e9 imoral e n\u00e3o o corpo.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o tem tr\u00eas eixos: a fam\u00edlia, os contratos sociais e as cren\u00e7as. A primeira foi moldada para atender \u00e0s necessidades reprodutivas; os segundos, para preserva\u00e7\u00e3o da vida humana; as terceiras, para respaldar tudo isso no plano ideol\u00f3gico. O processo civilizat\u00f3rio \u00e9 a transgress\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, ultrapassando-as, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ao mesmo tempo, preserva esses objetivos vitais.<\/p>\n<p>No teatro, Clarice Niskier apresenta o mon\u00f3logo em estado de nudez real e, ao mesmo tempo, simb\u00f3lica. A alma desnuda, em conflito com o corpo vestido, coloca em xeque dogmas religiosos. &#8220;A psicologia evolucionista aponta o corpo como o gerador da moralidade. \u00c9 justamente para dar conta de seus interesses de preserva\u00e7\u00e3o que a moralidade \u00e9 engendrada. Esta moralidade \u00e9 oposta \u00e0s for\u00e7as transgressoras da alma. Assim, a alma vive do que a sociedade reconhece como imoral&#8221;, argumenta o rabino. Traduzindo, como o voto \u00e9 secreto, em todas as fam\u00edlias, a mulher ou a filha votam com a alma, em quem quiser, independentemente das vontades de maridos, namorados e irm\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A moralidade \u00e9 oposta \u00e0s for\u00e7as transgressoras da alma, que vive do que a sociedade reconhece como imoral, diz o rabino. 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