{"id":719,"date":"2016-08-11T07:22:17","date_gmt":"2016-08-11T10:22:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=719"},"modified":"2016-08-11T07:22:17","modified_gmt":"2016-08-11T10:22:17","slug":"nas-entrelinhas-adeus-presidenta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-adeus-presidenta\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Adeus, presidenta!"},"content":{"rendered":"<p><em>O presidente Temer, apesar do apoio parlamentar, se defrontar\u00e1 com os mesmos problemas que levaram \u00e0 breca o governo Dilma<\/em><\/p>\n<p>O livro Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus, um dos te\u00f3ricos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica mais estudados no Brasil, por causa do seu m\u00e9todo de \u201cplanejamento estrat\u00e9gico situacional\u201d, \u00e9 um ensaio romanceado sobre o exerc\u00edcio do poder na Am\u00e9rica Latina. Ex-ministro de Salvador Allende, Matus n\u00e3o se limitou a denunciar e repudiar o golpe militar de Pinochet, ocorrido em 1973, que transformou o Chile num mar de sangue, procurou tamb\u00e9m entender o que aconteceu e buscar caminhos para que os erros cometidos pela esquerda chilena n\u00e3o se repetissem.<\/p>\n<p>N\u00e3o passa pela cabe\u00e7a de ningu\u00e9m comparar o impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, ao golpe fascista chileno, mesmo entre aqueles que acusam o presidente interino, Michel Temer, de golpista, mas o contexto justifica, ao menos para quem foi apeado do poder, conhecer ou revisitar a obra de Matus. Ele constr\u00f3i um cen\u00e1rio fict\u00edcio, que come\u00e7a com a posse de um presidente que criou grandes expectativas e prometeu muitas mudan\u00e7as e termina com suas reflex\u00f5es, depois de afastado do poder, sobre o desapontamento dos eleitores e as raz\u00f5es pelas quais n\u00e3o cumpriu o que prometeu. Detalhe: seu sucessor tamb\u00e9m \u00e9 malsucedido e desaponta o povo.<\/p>\n<p>Matus trabalha com o cotidiano do governo, a perda de tempo com coisas banais, os erros estrat\u00e9gicos, as intrigas pol\u00edticas e lutas intestinas, num pal\u00e1cio onde pululam sindicalistas, dirigentes partid\u00e1rios, empres\u00e1rios, tecnocratas, intelectuais, jornalistas, parentes e corruptos de todas as categorias. \u00c9 muito semelhante \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de Dilma, que pode at\u00e9 ter lido a obra de Matus, mas parece que n\u00e3o adiantou muito. S\u00e3o favas contadas a sua cassa\u00e7\u00e3o, depois da vota\u00e7\u00e3o da madrugada de ontem no Senado, quando se decidiu, por 59 votos a favor e 21 contr\u00e1rios, dar inicio ao julgamento final do seu impeachment.<\/p>\n<p>O l\u00edder comunista Enrico Berlinguer, falecido em 1984, profundamente marcado pelo fracasso da experi\u00eancia chilena, nela se inspirou para propor o famoso \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d entre os comunistas e democratas-crist\u00e3os na It\u00e1lia, que se digladiavam desde o fim da II Guerra Mundial. \u00c0 \u00e9poca, o l\u00edder democrata-crist\u00e3o Aldo Moro, que viria a ser assassinado em 1978, depois de 55 dias de cativeiro, pelas Brigadas Vermelhas, uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista de extrema-esquerda, sinalizava a possibilidade de concretiza\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a, com sua \u201cabertura \u00e0 esquerda\u201d. Essa estrat\u00e9gia produziu bons resultados eleitorais para o PCI nas elei\u00e7\u00f5es de 1976, nas quais obteve 35,9% dos sufr\u00e1gios, levando-o a apoiar o governo do democrata-crist\u00e3o Giulio Andreotti. Mas a DCI estava em crise por causa do referendo do div\u00f3rcio e o assassinato de Aldo Moro destruiu as boas perspectivas ent\u00e3o desencadeadas para um governo de coaliz\u00e3o dos dois maiores partidos da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Foi uma grande oportunidade perdida por todos os partidos italianos, que prosseguiram numa trajet\u00f3ria meio suicida ao deixar que a corrup\u00e7\u00e3o contaminasse suas entranhas e levasse a It\u00e1lia a uma sucess\u00e3o de crises pol\u00edticas, que acabou com a derrocada de todos, que praticamente desapareceram ap\u00f3s a Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas, inclusive o poderoso PCI. Depois de uma sucess\u00e3o de fus\u00f5es, o PCI se tornou o Partido Democr\u00e1tico, hoje no poder. Esses par\u00eanteses faz sentido porque aqui no Brasil vivemos um fen\u00f4meno pol\u00edtico semelhante, que est\u00e1 sendo desnudado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, cujo impacto no sistema eleitoral e partid\u00e1rio pode ser muito maior do que imaginam os grandes caciques da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o errar<\/p>\n<p>O placar de ontem no Senado mostra que o impeachment \u00e9 mesmo inexor\u00e1vel e que o presidente interino, Michel Temer, tem capacidade de articula\u00e7\u00e3o e for\u00e7a pol\u00edtica para garantir a governabilidade. H\u00e1 expectativa de que a cassa\u00e7\u00e3o da presidente Dilma se d\u00ea em 25 de agosto, ironicamente, o Dia do Soldado. Vale destacar que a presidente afastada, no auge das manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra seu governo, chegou a cogitar da decreta\u00e7\u00e3o de \u201cestado de defesa\u201d (que lhe conferiria poderes especiais para suspender algumas garantias individuais asseguradas pela Constitui\u00e7\u00e3o, a pretexto de restabelecer a ordem em situa\u00e7\u00f5es de crise institucional), mas n\u00e3o obteve apoio dos comandantes militares, nem do ent\u00e3o ministro da Defesa, Aldo Rebelo (PCdoB), que a demoveu dessa ideia. Esse fato \u00e9 o melhor exemplo de que o Brasil atravessa uma crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e \u00e9tica sem precedentes, mas n\u00e3o vive uma crise institucional, gra\u00e7as ao comportamento profissional das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao impeachment. O presidente Michel Temer, apesar do grande apoio pol\u00edtico e parlamentar, se defrontar\u00e1 com os mesmos problemas que levaram \u00e0 breca o governo Dilma: recess\u00e3o, desemprego, infla\u00e7\u00e3o, deficit fiscal, fisiologismo pol\u00edtico e envolvimento dos partidos de sua base no esc\u00e2ndalo da Petrobras. Seu estoque de problemas n\u00e3o pode aumentar, pelo contr\u00e1rio, precisa ser reduzido. Certamente, n\u00e3o cometer\u00e1 os erros de Dilma Rousseff, mas est\u00e1 sujeito a outros e precisar\u00e1 evit\u00e1-los. Para encerrar, a ministra C\u00e1rmem L\u00facia foi eleita ontem para a Presid\u00eancia do Supremo Tribunal Federal. Data v\u00eania, quer ser chamada de presidente e n\u00e3o de presidenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Temer, apesar do apoio parlamentar, se defrontar\u00e1 com os mesmos problemas que levaram \u00e0 breca o governo Dilma O livro Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus, um dos te\u00f3ricos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica mais estudados no Brasil, por causa do seu m\u00e9todo de \u201cplanejamento estrat\u00e9gico situacional\u201d, \u00e9 um ensaio romanceado sobre o exerc\u00edcio do poder na Am\u00e9rica Latina. 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