{"id":7277,"date":"2022-11-13T06:32:31","date_gmt":"2022-11-13T09:32:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7277"},"modified":"2022-11-13T06:32:31","modified_gmt":"2022-11-13T09:32:31","slug":"nas-entrelinhas-o-legado-de-mitterand-e-o-dilema-de-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-legado-de-mitterand-e-o-dilema-de-lula\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O legado de Mitterand e o dilema de Lula"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A rea\u00e7\u00e3o do mercado ao discurso de Lula e sua indefini\u00e7\u00e3o sobre o futuro ministro da Fazenda n\u00e3o deve ser vista apenas como uma chantagem barata dos grupos econ\u00f4micos ou mera especula\u00e7\u00e3o <\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fran\u00e7ois-Maurice-Marie Mitterrand (1916-1996) nasceu em Jarnac e estudou direito e letras na Universidade de Paris. Durante a II Guerra Mundial, foi integrante da Resist\u00eancia Francesa, movimento de oposi\u00e7\u00e3o ao nazismo. Deputado de 1946 a 1958, no ano seguinte elegeu-se senador. Em 1965, como candidato \u00fanico dos partidos de esquerda, obteve 44,8% dos votos no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, vencida por Charles de Gaulle. Secret\u00e1rio do Partido Socialista desde 1971, disputou novamente a Presid\u00eancia em 1974 e foi derrotado por Val\u00e9ry Giscard d&#8217;Estaing. Entretanto, o derrotou nas elei\u00e7\u00f5es de 1981 e se tornou primeiro socialista a chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mitterrand entusiasmou os eleitores oferecendo a possibilidade de rompimento com o capitalismo. Destacou-se por tomar medidas estatizantes e fazer reformas sociais, mas, em consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica mundial, n\u00e3o conseguiu reduzir o desemprego e controlar a alta dos pre\u00e7os. O mercado reagiu fortemente a sua pol\u00edtica e descobriu-se, ent\u00e3o, que o poderoso Estado nacional franc\u00eas j\u00e1 n\u00e3o controlava a economia. Para evitar a fuga de capitais, Mitterand foi obrigado a recuar, combater a infla\u00e7\u00e3o e priorizar a integra\u00e7\u00e3o com a Comunidade Econ\u00f4mica Europeia, que daria origem \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, sua grande bandeira na pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p>Mesmo assim, dois anos depois de sua elei\u00e7\u00e3o, os conservadores venceram as elei\u00e7\u00f5es legislativas, o que obrigou Mitterrand a governar com o gaullista Jacques Chirac como primeiro-ministro. N\u00e3o obstante, em 1988, foi eleito para um segundo mandato, marcado pela mudan\u00e7a de tr\u00eas primeiros-ministros e pelo crescimento da extrema-direita. Ao final de dois mandatos \u00e0 frente do pa\u00eds, crises econ\u00f4micas sucessivas, medidas de austeridade, o fracasso dos programas de nacionaliza\u00e7\u00e3o e o alinhamento da Fran\u00e7a a uma Europa liberal e de moeda \u00fanica, o eleitorado popular absorveu esses acontecimentos como uma ren\u00fancia e, at\u00e9 mesmo, uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais necessitada.<\/p>\n<p>Mitterrand fora for\u00e7ado a abandonar o programa socialista e se render ao projeto liberal de Helmut Kohl, eleito primeiro-ministro alem\u00e3o em 1982. No processo de moderniza\u00e7\u00e3o que promoveu entre 1980 e 1995, os capitalistas, principalmente quem aplicou seu dinheiro em a\u00e7\u00f5es, se deram muito bem, obrigado. O valor m\u00e9dio das a\u00e7\u00f5es francesas atingiu em 1995 um n\u00edvel sete vezes mais alto do que em 1980. Enquanto isso, o sal\u00e1rio anual do oper\u00e1rio franc\u00eas subiu pouco mais de 5% nesse mesmo per\u00edodo. Houve uma quase estagna\u00e7\u00e3o salarial no meio oper\u00e1rio nos 15 anos de presid\u00eancia de Mitterrand.<\/p>\n<p><strong>Acerto de contas<\/strong><\/p>\n<p>Em contrapartida, o sistema de prote\u00e7\u00e3o social, a educa\u00e7\u00e3o nacional e os transportes geridos pelo setor p\u00fablico franc\u00eas se mantiveram e se modernizaram. Mitterrand conseguiu abolir a pena de morte; nacionalizar cinco grupos industriais e 39 bancos; estabelecer a aposentadoria aos 60 anos; descriminalizar a homossexualidade; promover o fim do monop\u00f3lio estatal da radiodifus\u00e3o; inaugurar o Mus\u00e9e d&#8217;Orsay, o Instituto do Mundo \u00c1rabe, a pir\u00e2mide do Louvre e a pedra fundamental da Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a; refor\u00e7ar a rela\u00e7\u00e3o franco-alem\u00e3; consolidar a Comunidade Europeia; e criar a Uni\u00e3o Europeia com a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1992.<\/p>\n<p>V\u00e1rias medidas sociais foram ratificadas, como a que p\u00f4s fim ao registo de homossexuais e retirou a homossexualidade da lista de perturba\u00e7\u00f5es mentais. O governo tamb\u00e9m introduziu a passagem da maioria sexual para 15 anos para todos, abolindo a distin\u00e7\u00e3o introduzida em 1942 \u2014 e confirmada em 1945 \u2014 na idade do consentimento entre rela\u00e7\u00f5es homossexuais e heterossexuais. O estilo de vida homossexual deixou de ser uma cl\u00e1usula de cancelamento de um arrendamento residencial.<\/p>\n<p>O legado de Mitterand \u00e9 pol\u00eamico. Motiva um acerto de contas entre a esquerda herdeira de Maio de 68, que aposta na sociedade civil, no multiculturalismo e nos mecanismos de mercado (gauche soci\u00e9tale), e a esquerda estatista (gauche \u00e9tatique), baseada nas doutrinas da Frente Popular (1936-1937), na interven\u00e7\u00e3o estatal, no jacobinismo centralista e na alian\u00e7a entre comunistas e socialistas, defendida e praticada por Mitterrand. Enquanto se digladiava, o mundo mudou e a esquerda se tornou culturalmente minorit\u00e1ria. Ao deslocar o debate da quest\u00e3o social para a quest\u00e3o identit\u00e1ria, os intelectuais de esquerda j\u00e1 n\u00e3o conseguem mais mobilizar a sociedade, enquanto os trabalhadores abandonam os sindicatos e buscam ref\u00fagio no populismo de extrema-direita.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica norte-americana e nossos vizinhos sul-americanos \u2014 Argentina, Chile, Venezuela e Col\u00f4mbia \u2014 s\u00e3o pontos de refer\u00eancia para as an\u00e1lises comparativas com a pol\u00edtica brasileira, mas vale a pena um olhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia francesa. O primeiro mandato de Mitterrand serve de par\u00e2metro para compreender o tamanho do dilema do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva nesse terceiro mandato. A rea\u00e7\u00e3o do mercado ao seu discurso de quarta-feira e \u00e0 indefini\u00e7\u00e3o sobre o futuro ministro da Fazenda n\u00e3o deve ser vista apenas como uma chantagem barata dos grandes grupos econ\u00f4micos ou mera especula\u00e7\u00e3o de espertalh\u00f5es que operam na Bovespa. H\u00e1 muito mais coisas envolvidas. Uma delas \u00e9 encontrar um meio termo entre a agenda econ\u00f4mica liberal e o nacional-desenvolvimentismo da esquerda, para que o novo governo enfrente o problema das desigualdades, mas n\u00e3o jogue a crian\u00e7a fora com a \u00e1gua da bacia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rea\u00e7\u00e3o do mercado ao discurso de Lula e sua indefini\u00e7\u00e3o sobre o futuro ministro da Fazenda n\u00e3o deve ser vista apenas como uma chantagem barata dos grupos econ\u00f4micos ou mera especula\u00e7\u00e3o Fran\u00e7ois-Maurice-Marie Mitterrand (1916-1996) nasceu em Jarnac e estudou direito e letras na Universidade de Paris. 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