{"id":736,"date":"2016-08-17T08:59:25","date_gmt":"2016-08-17T11:59:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=736"},"modified":"2016-08-17T08:59:25","modified_gmt":"2016-08-17T11:59:25","slug":"nas-entrelinhas-alo-alo-marcianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-alo-alo-marcianos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Al\u00f4, al\u00f4, marcianos!"},"content":{"rendered":"<p><em>At\u00e9 onde vai a marcha da insensatez do Congresso? Qual \u00e9 o real compromisso dos partidos com a responsabilidade fiscal?<\/em><\/p>\n<p>O t\u00edtulo, tomei emprestado da m\u00fasica de Diego Moraes, de quem quase ningu\u00e9m ouviu falar, com duas grava\u00e7\u00f5es magistrais que todo mundo conhece, uma de Elis Regina e outra de Rita Lee: \u201cAl\u00f4, al\u00f4, marciano\/ A crise t\u00e1 virando zona\/ Cada um por si, todo mundo na lona\/ E l\u00e1 se foi a mordomia\/ Tem muito rei a\u00ed pedindo alforria porque\/ T\u00e1 cada vez mais down o high society\u201d. Tem tudo a ver com a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas a motiva\u00e7\u00e3o da coluna foi o lan\u00e7amento ontem, em Bras\u00edlia, do livro organizado pelos economistas Felipe Salto e Mansueto Almeida (atual secret\u00e1rio de Acompanhamento Econ\u00f4mico do Minist\u00e9rio da Fazenda), intitulado Finan\u00e7as P\u00fablicas: da contabilidade criativa ao resgate da credibilidade.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio, o professor Edmar Bacha dispara: \u201cSe um marciano pousar em Bras\u00edlia, ficar\u00e1 pasmo ao saber que o Brasil paga taxas de juros alt\u00edssimas no mercado internacional, apesar de dispor de US$ 370 bilh\u00f5es em reservas internacionais (US$ 20 bilh\u00f5es a mais que o total da d\u00edvida externa do pa\u00eds) e de seu balan\u00e7o de pagamentos em conta-corrente estar a caminho do equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>A surpresa do marciano ser\u00e1 maior ao verificar que, descontada a infla\u00e7\u00e3o, a taxa de juros interna do pa\u00eds \u00e9 uma das mais altas do mundo, apesar de o deficit prim\u00e1rio do setor p\u00fablico ser relativamente pequeno, podendo ser facilmente coberto com o caixa de quase um trilh\u00e3o de reais do Tesouro Nacional no Banco Central \u2014 como, ali\u00e1s, ocorreu com o pagamento das \u201cpedaladas fiscais de 2014 no fim de 2015.\u201d<\/p>\n<p>Bacha resume a tem\u00e1tica do livro num suposto di\u00e1logo entre o marciano e um economista local, que tenta explicar a situa\u00e7\u00e3o ao extraterrestre, o que \u00e9 muito dif\u00edcil sem se aprofundar na sua hist\u00f3ria econ\u00f4mica. D\u00edvida bruta do governo central de 65% do PIB, metade da qual associada aos deficits do governo; a outra metade, ativos adquiridos pelo governo, como reservas internacionais e cr\u00e9dito para o setor privado. Deficit p\u00fablico total da ordem de 9% do PIB. Desemprego de 9% e recess\u00e3o de 4% do PIB. \u201cN\u00e3o basta pousar o disco voador em Bras\u00edlia e dar uma olhada superficial nos n\u00fameros. Al\u00e9m de uma boa forma\u00e7\u00e3o em economia, \u00e9 preciso conhecer a hist\u00f3ria do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Calotes na d\u00edvida foram dados por Delfim Neto, em 1981; Sarney, em 1986; e Collor, em 1990. Mas o grande calote foi a infla\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o Plano Real. Entre dezembro de 1979 e julho de 1994, a infla\u00e7\u00e3o acumulada foi superior a treze trilh\u00f5es por cento, uma das maiores da hist\u00f3ria mundial. Apesar desse hist\u00f3rico, ao contr\u00e1rio de outros serial defaulters, o Brasil n\u00e3o dolarizou a economia, destaca Bacha. \u201cO governo conseguiu que os brasileiros continuassem a usar a moeda nacional em vez do d\u00f3lar em suas transa\u00e7\u00f5es financeiras. Para isso, entretanto, teve que pagar uma das mais altas taxas reais de juros de mundo em sua d\u00edvida interna. Como o \u00f4nus da d\u00edvida \u00e9 pesado, os brasileiros continuam a antecipar que mais dia menos dia o governo optar\u00e1 por provocar um novo surto inflacion\u00e1rio para tentar se desvencilhar de sua custosa d\u00edvida interna, como o fez tantas vezes antes do Plano Real.\u201d Este \u00e9 o grande alerta do livro: a expectativa de um calote futuro.<\/p>\n<p><strong>Insensatez<\/strong><br \/>\nA emerg\u00eancia da China, a descoberta das reservas de petr\u00f3leo da camada pr\u00e9-sal e, depois, a crise de 2008-2009 tiveram como resposta, nos governos Lula e Dilma, a chamada \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d, que se caracterizou por uma pol\u00edtica monet\u00e1ria frouxa, que deixou de perseguir o centro da meta; por uma expans\u00e3o de gastos sem cobertura de impostos, disfar\u00e7ada por manobras cont\u00e1beis e pedaladas fiscais; por uma deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade da d\u00edvida do Tesouro, camuflada pela amplia\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es compromissadas do Banco Central; por controles arbitr\u00e1rios dos pre\u00e7os de insumos essenciais (como petr\u00f3leo, eletricidade e servi\u00e7os p\u00fablicos); e pela oferta exagerada de swaps cambiais para tentar evitar a desvaloriza\u00e7\u00e3o do real sem o uso das reservas internacionais. O resultado foi a trag\u00e9dia econ\u00f4mica que o pa\u00eds vive.<\/p>\n<p>Salto e Consueto buscam alternativas para superar a crise econ\u00f4mica, mas a\u00ed \u00e9 que entra a pol\u00edtica. At\u00e9 onde vai a marcha da insensatez do Congresso? Qual \u00e9 o real compromisso dos partidos pol\u00edticos com a responsabilidade fiscal? As corpora\u00e7\u00f5es que formam a alta burocracia estatal est\u00e3o dispostas abrir m\u00e3o de privil\u00e9gios para salvar o pa\u00eds? Quando \u00e9 que os sindicatos v\u00e3o cair na real de que os sal\u00e1rios do setor p\u00fablico n\u00e3o podem ser t\u00e3o discrepantes do setor privado e que a Previd\u00eancia precisa de reforma para que n\u00e3o entre em colapso? Esse \u00e9 o grande debate.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 onde vai a marcha da insensatez do Congresso? Qual \u00e9 o real compromisso dos partidos com a responsabilidade fiscal? 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