{"id":7414,"date":"2022-12-25T07:24:25","date_gmt":"2022-12-25T10:24:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7414"},"modified":"2022-12-25T09:18:49","modified_gmt":"2022-12-25T12:18:49","slug":"nas-entrelinhas-natal-a-vitoria-da-luz-sobre-a-escuridao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-natal-a-vitoria-da-luz-sobre-a-escuridao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Natal, a vit\u00f3ria da luz sobre a escurid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Quantos &#8220;memes&#8221; natalinos recebemos nos \u00faltimos dias? Falam de amor, amizade, coopera\u00e7\u00e3o, paz, bondade, caridade. Ou seja, o Natal consagra o altru\u00edsmo rec\u00edproco dos seres humanos.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No Natal de 1914, durante a 1\u00aa Guerra Mundial, na regi\u00e3o de Ypres, na B\u00e9lgica, houve uma tr\u00e9gua n\u00e3o-declarada de seis dias. Com trincheiras decoradas, soldados alem\u00e3es entoaram antigas cantigas e passaram a comemorar o nascimento de Jesus Cristo. Soldados ingleses e franceses jogaram uma partida de futebol na &#8220;terra de ningu\u00e9m&#8221;, sem que os alem\u00e3es nada fizessem, al\u00e9m de assistir ao jogo. A festa continuou at\u00e9 o ano-novo. A confraterniza\u00e7\u00e3o entre soldados de pa\u00edses em conflito se repetiu em v\u00e1rios momentos, apesar da carnificina provocada por novos armamentos, como bombas de g\u00e1s, lan\u00e7a-chamas, ataques a\u00e9reos e carros blindados. Em 1916, soldados franceses e alem\u00e3es se anteciparam ao Armist\u00edcio em muitas frentes de batalha.<\/p>\n<p>Do ponto de vista dos generais, a coopera\u00e7\u00e3o m\u00fatua era indesej\u00e1vel porque n\u00e3o ajudava a ganhar a guerra. Mas era altamente desej\u00e1vel do ponto de vista individual para os soldados de ambos os lados. Por patriotismo, at\u00e9 queriam ganhar a guerra, mas individualmente prefeririam voltar \u00e0 vida normal. Um coronel brit\u00e2nico, ao visitar as trincheiras, ficou estupefato ao ver soldados alem\u00e3es caminhando ao alcance das armas inglesas: &#8220;Nossos homens pareciam n\u00e3o ter notado isso. Tomei a decis\u00e3o de acabar pessoalmente com esse tipo de coisa t\u00e3o logo assumisse o comando; coisas como essas n\u00e3o poderiam ser permitidas. Evidentemente aquelas pessoas n\u00e3o sabiam o que era uma guerra. Ao que tudo indicava, os dois lados acreditavam na pol\u00edtica viva-e-deixe-viver&#8221;.<\/p>\n<p>Atiradores de ambos os lados exibiam seu virtuosismo mortal ao disparar contra alvos inanimados, pr\u00f3ximo aos soldados, como cantis e panelas. &#8220;\u00c0 noite, sa\u00edamos e nos posicion\u00e1vamos diante das trincheiras\u2026 Os soldados alem\u00e3es tamb\u00e9m est\u00e3o fora, de modo que atirar \u00e9 algo contr\u00e1rio \u00e0 etiqueta.&#8221; Naquela guerra, soldados brit\u00e2nicos e alem\u00e3es ficaram muitos meses frente a frente entrincheirados, sem saber se seriam transferidos para outro front ou n\u00e3o. Sonhavam com o fim da guerra e a volta para casa. Era uma combina\u00e7\u00e3o entre o desejo individual e o &#8220;altru\u00edsmo rec\u00edproco&#8221;, que o Natal sempre desperta. O sistema viva-e-deixe-viver n\u00e3o foi obra de nenhum estrategista, era o mais natural no comportamento humano.<\/p>\n<p>Quantos &#8220;memes&#8221; natalinos recebemos nos \u00faltimos dias? Falam de amor, amizade, coopera\u00e7\u00e3o, paz, bondade, caridade, ou seja, do altru\u00edsmo rec\u00edproco dos seres humanos. O Natal \u00e9 um rito que consagra esses sentimentos e valores. Os neodarwinistas, que estudam a origem e reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, classificaram como &#8220;meme&#8221;, que prov\u00e9m da palavra grega &#8220;mimeme&#8221;, a capacidade de o ser humano replicar e transmitir sua cultura. Hoje, os &#8220;memes&#8221; de Natal reproduzem o caldo de cultura da coopera\u00e7\u00e3o humana. Nas disputas civis, como as que acabamos de ter nas elei\u00e7\u00f5es, existe grande espa\u00e7o para a coopera\u00e7\u00e3o. Aquilo que se parece como uma disputa de soma zero, com um pouco de boa vontade, pode ser transformado num jogo de soma n\u00e3o-zero que beneficia ambos os lados.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7a de clima<\/strong><\/p>\n<p>Por exemplo, um bom casamento \u00e9 um jogo de soma n\u00e3o-zero, no qual os parceiros cooperam intensamente; por\u00e9m, quando isso deixa de ocorrer, os casais se separam. Mesmo quando h\u00e1 o rompimento, existe uma ampla zona de coopera\u00e7\u00e3o e a possibilidade de que n\u00e3o haja um jogo de soma zero. O bem-estar dos filhos, por exemplo, \u00e9 um bom motivo para isso. O custo de uma disputa judicial, na qual cada um tenha que recorrer a um advogado diferente, tamb\u00e9m. S\u00e3o muitos os exemplos de coopera\u00e7\u00e3o num ambiente de disputa e competi\u00e7\u00e3o, como o da sociedade em que vivemos. Certos ritos consagrados, como o Natal, servem para nos lembrar como isso \u00e9 importante.<\/p>\n<p>O recente processo eleitoral nos mostrou uma sociedade muito polarizada, tanto do ponto de vista ideol\u00f3gico quanto em rela\u00e7\u00e3o aos interesses mais objetivos e imediatos. Entretanto, j\u00e1 houve uma mudan\u00e7a de ambiente da \u00e1gua para o vinho \u2014 nada mais b\u00edblico. As pessoas est\u00e3o mais alegres, mais esperan\u00e7osas, mais preocupadas com o outro. O presidente Jair Bolsonaro continua inconformado com o resultado das urnas e n\u00e3o vai \u00e0 posse do presidente eleito Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, refugando o rito democr\u00e1tico de passagem da faixa presidencial. A elite do pa\u00eds e a classe m\u00e9dia que o apoiaram, em sua maioria, por\u00e9m, reconhecem o resultado do pleito e n\u00e3o t\u00eam interesse num pa\u00eds conflagrado permanentemente, num jogo de soma zero, na base do &#8220;quanto pior, melhor&#8221;, no qual todos perdem.<\/p>\n<p>O Hanuk\u00e1 \u00e9 uma festividade judaica que celebra a vit\u00f3ria da luz sobre a escurid\u00e3o e a luta dos judeus contra os seus opressores, durante oito dias. O m\u00eas de Kislev, no calend\u00e1rio judaico, corresponde a dezembro na calend\u00e1rio gregoriano. Do ponto de vista filos\u00f3fico, celebrar o Hanuk\u00e1 significa celebrar a vit\u00f3ria da luz sobre a escurid\u00e3o, a vit\u00f3ria da pureza sobre a degenera\u00e7\u00e3o e da espiritualidade sobre o materialismo. As velas acesas no parapeito da janela fundam uma zona de passagem, entre o familiar e o fora, uma zona de troca entre o diferente e o privado. A palavra i\u00eddiche Hanuk\u00e1 nos remete a fundar, renovar, ensinar, reinventar o novo, apesar dos desejos de persistir no mesmo e no sempre. S\u00e3o desejos natalinos.<\/p>\n<p><em><strong>Feliz Natal!<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quantos &#8220;memes&#8221; natalinos recebemos nos \u00faltimos dias? Falam de amor, amizade, coopera\u00e7\u00e3o, paz, bondade, caridade. Ou seja, o Natal consagra o altru\u00edsmo rec\u00edproco dos seres humanos. No Natal de 1914, durante a 1\u00aa Guerra Mundial, na regi\u00e3o de Ypres, na B\u00e9lgica, houve uma tr\u00e9gua n\u00e3o-declarada de seis dias. 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