{"id":7491,"date":"2023-01-11T06:48:16","date_gmt":"2023-01-11T09:48:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7491"},"modified":"2023-01-11T09:56:45","modified_gmt":"2023-01-11T12:56:45","slug":"__trashed-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/__trashed-4\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: &#8220;Que bobos, n\u00e3o sabem que a arte existe porque a pol\u00edtica n\u00e3o basta&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Os pal\u00e1cios e os interiores na nossa capital est\u00e3o entre o que existe de mais original e valioso na nossa cultura, principalmente na arquitetura, nas artes pl\u00e1sticas e no design. Existe muito simbolismo na pol\u00edtica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Num determinado dia no in\u00edcio dos anos 1960, o jornalista Ant\u00f4nio Maria, que, por si s\u00f3, mereceria uma coluna apenas para contar essa hist\u00f3ria, foi atacado por capangas de algu\u00e9m que n\u00e3o gostava dele por causa de suas colunas. Estavam orientados a pisar seguidamente nas suas m\u00e3os, para que n\u00e3o mais pudesse escrever. Na manh\u00e3 seguinte, Maria denunciava a agress\u00e3o com o humor ferino que encantava seus leitores e enfurecia os desafetos: &#8220;Que bobos! Eles pensam que o jornalista escreve com as m\u00e3os&#8221;. A frase foi imortalizada no jornalismo brasileiro e, obviamente, serve de inspira\u00e7\u00e3o para a coluna de hoje. Ant\u00f4nio Maria morreu em 1964.<\/p>\n<p>O vitral Araguaia, de Marianne Peretti, obra de 1977, n\u00e3o foi destru\u00eddo no domingo pelos v\u00e2ndalos que invadiram o Congresso. A artista pl\u00e1stica Marie Anne Antoinette H\u00e9l\u00e8ne Peretti, filha de m\u00e3e francesa e pai brasileiro, nasceu em 1927, em Paris, e veio para o Brasil em 1953. Marianne foi a \u00fanica artista mulher a integrar a equipe de Oscar Niemeyer na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Morreu em abril do ano passado, no Recife. Entre suas obras mais famosas, est\u00e3o os vitrais da Catedral de Bras\u00edlia, do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), do Pal\u00e1cio do Jaburu e do Memorial JK. Suas obras s\u00e3o reconhecidas internacionalmente, em outros projetos de Oscar Niemeyer, como o Edif\u00edcio Burgo (Turim, It\u00e1lia) e a Maison de la Culture du Havre (Le Havre, Fran\u00e7a).<\/p>\n<p>Araguaia foi feito a partir do projeto de decora\u00e7\u00e3o do Sal\u00e3o Verde, que incluiu obras de arte e mobili\u00e1rio que ajudassem a delimitar os espa\u00e7os e valorizar o ambiente. \u00c9 o espa\u00e7o mais democr\u00e1tico da C\u00e2mara, porque nele circulam parlamentares e cidad\u00e3os comuns, l\u00edderes sindicais e comunit\u00e1rios, lobistas e jornalistas. \u00c9 uma obra que humaniza o Poder Legislativo, como as demais que foram destru\u00eddas pelos v\u00e2ndalos, num misto de ignor\u00e2ncia, brutalidade e \u00f3dio \u00e0 cultura e \u00e0 democracia. N\u00e3o tem nada a ver com a guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p>O vandalismo foi uma burrice pol\u00edtica tamb\u00e9m, porque invas\u00e3o e depreda\u00e7\u00e3o do Congresso transformou o mais importante aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, o presidente da C\u00e2mara, Arthur Lira (PP-AL), num advers\u00e1rio da extrema-direita bolsonarista. Ontem, a C\u00e2mara e o Senado referendaram a interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a p\u00fablica do DF.<\/p>\n<p><strong>Fortalecido<\/strong><\/p>\n<p>Jerzy (Jorge) Zalszupin nasceu em Vars\u00f3via, na Pol\u00f4nia, em 1\u00ba de junho de 1922, em uma fam\u00edlia judia. Em 1939, quando come\u00e7ou a 2\u00aa Guerra Mundial, diante do avan\u00e7o nazista, sua fam\u00edlia atravessou a fronteira da Pol\u00f4nia com a Rom\u00eania e sobreviveu ao Holocausto em Bucareste, como n\u00e3o judeus. Jorge estudou arquitetura, quando conheceu a obra de Oscar Niemeyer, e imigrou para o Brasil em 1949, para trabalhar com o arquiteto Luciano Korngold, at\u00e9 abrir o pr\u00f3prio escrit\u00f3rio de design de m\u00f3veis.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, concebeu e produziu m\u00f3veis para gabinetes e pal\u00e1cios na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Entre suas obras mais conhecidas, est\u00e3o as poltronas utilizadas pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, destru\u00eddas pelos v\u00e2ndalos bolsonaristas. &#8220;Projetei o espaldar bem alto para transmitir sobriedade aos ju\u00edzes que ali sentassem&#8221;, disse, ao explicar o conceito da cadeira Ambassador (Vers\u00e3o 2). A maior parte dos m\u00f3veis do STF \u00e9 de sua autoria.<\/p>\n<p>O ministro do STF Alexandre de Moraes n\u00e3o precisou da cadeira para afastar do cargo o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que se omitiu durante o vandalismo, nem para mandar prender o ex-ministro da Justi\u00e7a e ex-secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Bras\u00edlia Anderson Torres, suspeito de coniv\u00eancia com os atos golpistas. Zalszupin faleceu em 17 de agosto de 2020, aos 98 anos de idade, e, como Peretti, n\u00e3o est\u00e1 vivo para acompanhar a restaura\u00e7\u00e3o de suas obras. Ironicamente, a cadeira foi desenhada para que os ministros do Supremo pudessem suportar de forma mais anat\u00f4mica e serena poss\u00edveis as longas sess\u00f5es da Corte.<\/p>\n<p>O poeta e cr\u00edtico de arte Ferreira Gullar dizia que a arte existe porque a vida n\u00e3o basta. A pol\u00edtica \u00e9 parte da vida. A presen\u00e7a de obras de arte nos pal\u00e1cios da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes e da Esplanada, como os da Justi\u00e7a e do Itamaraty, tem por objetivo humanizar o poder pol\u00edtico, associar a dureza do concreto armado aos sonhos e \u00e0 poesia ensejados pela constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. O que aconteceu no domingo foi uma agress\u00e3o n\u00e3o apenas aos Poderes da Rep\u00fablica, mas, tamb\u00e9m, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n<p>Como se sabe, uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe apenas por causa do seu territ\u00f3rio e sua popula\u00e7\u00e3o, mas em raz\u00e3o de um estado ps\u00edquico comum, cuja express\u00e3o maior \u00e9 a sua cultura. Os pal\u00e1cios e os interiores na nossa capital est\u00e3o entre o que existe de mais original e valioso na nossa arquitetura, nas artes pl\u00e1sticas e no design. Existe muito simbolismo na pol\u00edtica, que \u00e9 mais importante para a preserva\u00e7\u00e3o do poder do que sua estrutura f\u00edsica. Ao contr\u00e1rio do que pretendiam os arruaceiros, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva saiu mais fortalecido da crise, o Congresso e o Supremo, tamb\u00e9m. Nesse epis\u00f3dio, a harmonia entre os Poderes, um dos princ\u00edpios da Constitui\u00e7\u00e3o, ao lado da independ\u00eancia, mostrou porque \u00e9 t\u00e3o importante para preservar a democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pal\u00e1cios e os interiores na nossa capital est\u00e3o entre o que existe de mais original e valioso na nossa cultura, principalmente na arquitetura, nas artes pl\u00e1sticas e no design. 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