{"id":7527,"date":"2023-01-22T07:46:14","date_gmt":"2023-01-22T10:46:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7527"},"modified":"2023-01-22T08:57:27","modified_gmt":"2023-01-22T11:57:27","slug":"a-tragedia-ianomami-envergonha-a-nacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-tragedia-ianomami-envergonha-a-nacao\/","title":{"rendered":"A trag\u00e9dia Ianom\u00e2mi envergonha a na\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Estima-se que 570 crian\u00e7as foram mortas pela contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, desnutri\u00e7\u00e3o e fome. Al\u00e9m disso, em 2022 foram confirmados 11.530 casos de mal\u00e1ria entre os Ianom\u00e2mis<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2014, o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado realizou uma expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Ind\u00edgena Ianom\u00e2mi. Em seus registros est\u00e3o a tradicional festa f\u00fanebre Reahu, realizada na aldeia Demini, morada do l\u00edder Davi Kopenawa, e a subida ao Pico da Neblina com um grupo de xam\u00e3s Ianom\u00e2mi, fotos publicadas na edi\u00e7\u00e3o digital do Washington Post, naquela ocasi\u00e3o. Em preto e branco, s\u00e3o imagens fortes e fascinantes, como s\u00e3o todas que o consagraram o fot\u00f3grafo brasileiro. Como na exposi\u00e7\u00e3o \u201cGenesis\u201d, aquele ensaio passa o mesmo sentimento de um lugar num tempo diferente do nosso. Salgado j\u00e1 havia percorrido a regi\u00e3o nos anos 70 e 90 do s\u00e9culo passado. Um poster dos Ianom\u00e2mi olhando para o Yaripo, o cume do Pico da Neblina, no site do Instituto Terra, custa R$ 250. S\u00e3o ind\u00edgenas alegres, bonitos, robustos e saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ontem, quando me preparava para escrever mais uma coluna sobre as rela\u00e7\u00f5es do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva com as For\u00e7as Armadas, o assunto da semana, cujo desfecho foi a troca de comando do Ex\u00e9rcito, recebi do meu amigo Jorge Ven\u00e2ncio, m\u00e9dico sanitarista que conhe\u00e7o desde os nossos tempos de estudante, uma s\u00e9rie de 16 fotos coloridas de crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos Ianom\u00e2mi que parecem cenas de um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista. Foram distribu\u00eddas pelos l\u00edderes Ianom\u00e2mi e s\u00e3o a realidade nua e crua de uma aldeia da Reserva Ianom\u00e2mi em Roraima, ap\u00f3s a chegada dos garimpeiros \u00e0 regi\u00e3o. Situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave que levou o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva a visitar o local, apesar da crise militar. A situa\u00e7\u00e3o envergonha a na\u00e7\u00e3o e corrobora o acerto da cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Somente neste ano, 99 crian\u00e7as do povo Ianom\u00e2mi morreram devido ao avan\u00e7o do garimpo ilegal na regi\u00e3o. As v\u00edtimas foram crian\u00e7as entre um e 4 anos. As causas da morte s\u00e3o, na maioria, por desnutri\u00e7\u00e3o, pneumonia e diarreia. Estima-se que 570 crian\u00e7as foram mortas pela contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, desnutri\u00e7\u00e3o e fome. Al\u00e9m disso, em 2022 foram confirmados 11.530 casos de mal\u00e1ria no Distrito Sanit\u00e1rio Especial Ind\u00edgena Ianom\u00e2mi, distribu\u00eddos entre 37 Polos Base. As faixas et\u00e1rias mais afetadas s\u00e3o as maiores de 50 anos, seguidas pela faixa et\u00e1ria de 18 a 49 e 5 a 11 anos. Devido ao caos sanit\u00e1rio, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade decretou emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O ex-presidente Jair Bolsonaro \u00e9 o grande respons\u00e1vel pelo que ocorreu. N\u00e3o s\u00f3 sufocou os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela assist\u00eancia aos ind\u00edgenas como liberou o garimpo ilegal no pa\u00eds. O que lhe falta de empatia em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios, sobra de apoio aos garimpeiros, talvez porque tenha sido um deles nos tempos em que serviu o Ex\u00e9rcito em Goi\u00e1s. Bolsonaro n\u00e3o tem nenhum la\u00e7o de ancestralidade com os ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n<p>Como se sabe, esse \u00e9 o fio da vida, da sabedoria, da identidade, do pertencimento e da criatividade, que tece o passado, o presente e o futuro, formando uma teia de rela\u00e7\u00f5es que conecta a humanidade. \u00c9 tamb\u00e9m a mem\u00f3ria que transcende o espa\u00e7o e o tempo para recriar futuros poss\u00edveis e saud\u00e1veis. Pensar em todas as pessoas que vieram antes de voc\u00ea \u00e9 entender que h\u00e1 algo muito maior dentro de n\u00f3s, um caminho que vem sendo tra\u00e7ado de v\u00e1rias formas, inclusive culturalmente. Os negros brasileiros buscam essa ancestralidade para combater o racismo estrutural; para preservar suas terras e sobreviver, os ind\u00edgenas brasileiros tamb\u00e9m, principalmente depois Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p><strong>A terra-floresta<\/strong><\/p>\n<p>Falamos muito da riqueza e da biodiversidade da Amaz\u00f4nia, mas pouco do tesouro cultural que ela abriga. A antropologia estrutural de Claude L\u00e9vi-Strauss (1908-2009), grande intelectual belgo-franc\u00eas, n\u00e3o existiria sem nossos ind\u00edgenas, nem ele seria um dos maiores pensadores do s\u00e9culo passado. Convidado a lecionar na rec\u00e9m-criada Universidade de S\u00e3o Paulo, atrav\u00e9s de uma miss\u00e3o universit\u00e1ria francesa, de 1935 a 1939, L\u00e9vi-Strauss fez diversas expedi\u00e7\u00f5es pelo interior brasileiro, onde estudou comunidades ind\u00edgenas e teve a sua grande voca\u00e7\u00e3o para a etnologia desperta. O registro dessas viagens est\u00e1 presente em Tristes Tr\u00f3picos (1955), um cl\u00e1ssico da antropologia, que tamb\u00e9m fez dele um dos grandes int\u00e9rpretes do Brasil.<\/p>\n<p>Contr\u00e1rio \u00e0 ideia de superioridade e privil\u00e9gio da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, L\u00e9vi-Strauss acreditava e enfatizava que a mente selvagem e tribal \u00e9 igual \u00e0 mente civilizada. Seus estudos baseados na linguagem e lingu\u00edstica possibilitaram novas perspectivas tamb\u00e9m para a psicologia entender como a mente humana trabalha. \u201cMeu \u00fanico desejo \u00e9 um pouco mais de respeito para o mundo, que come\u00e7ou sem o ser humano e vai terminar sem ele \u2014 isso \u00e9 algo que sempre dever\u00edamos ter presente\u201d, disse em 2005. N\u00e3o \u00e0 toa, o imagin\u00e1rio Ianom\u00e2mi quer salvar o mundo.<\/p>\n<p>Para eles, urihi, a terra-floresta, n\u00e3o \u00e9 um mero espa\u00e7o inerte de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Trata-se de uma entidade viva, inserida numa complexa din\u00e2mica cosmol\u00f3gica de interc\u00e2mbios entre humanos e n\u00e3o-humanos, que hoje est\u00e1 amea\u00e7ada pela a\u00e7\u00e3o dos garimpeiros e outros predadores. O l\u00edder Ianom\u00e2mi Davi Kopenawa explica: \u201cA terra-floresta s\u00f3 pode morrer se for destru\u00edda pelos brancos. Ent\u00e3o, os riachos sumir\u00e3o, a terra ficar\u00e1 fri\u00e1vel, as \u00e1rvores secar\u00e3o e as pedras das montanhas rachar\u00e3o com o calor. Os esp\u00edritos xapirip\u00eb, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabar\u00e3o fugindo. Seus pais, os xam\u00e3s, n\u00e3o poder\u00e3o mais cham\u00e1-los para nos proteger. A terra-floresta se tornar\u00e1 seca e vazia. Os xam\u00e3s n\u00e3o poder\u00e3o mais deter as fuma\u00e7as-epidemias e os seres mal\u00e9ficos que nos adoecem. Assim, todos morrer\u00e3o.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estima-se que 570 crian\u00e7as foram mortas pela contamina\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, desnutri\u00e7\u00e3o e fome. Al\u00e9m disso, em 2022 foram confirmados 11.530 casos de mal\u00e1ria entre os Ianom\u00e2mis Em mar\u00e7o de 2014, o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado realizou uma expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Ind\u00edgena Ianom\u00e2mi. 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