{"id":7546,"date":"2023-01-29T07:30:42","date_gmt":"2023-01-29T10:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7546"},"modified":"2023-01-29T14:48:44","modified_gmt":"2023-01-29T17:48:44","slug":"lula-volta-ao-poder-com-a-cabeca-de-jano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-volta-ao-poder-com-a-cabeca-de-jano\/","title":{"rendered":"Lula volta ao poder com a cabe\u00e7a de Jano"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Enquanto a esquerda brasileira pautou sua atua\u00e7\u00e3o na centralidade do trabalho e nos projetos identit\u00e1rios, a direita mais reacion\u00e1ria apropriou-se das redes sociais e das frustra\u00e7\u00f5es individuais<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Jano (do latim Janus ou Ianus) era um ser mitol\u00f3gico romano com duas cabe\u00e7as. Simbolizava o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. No seu templo, as portas ficavam abertas em tempos de guerra e eram fechadas durante a paz. Era o deus tutelar de todos os come\u00e7os, patrono de todos os finais. O busto Ianus Geminus est\u00e1 no Museu do Vaticano, em Roma. Jano foi escolhido para representar o primeiro m\u00eas do ano do calend\u00e1rio romano (janeiro, do latim januarius), pelo rei de Roma] Numa Pomp\u00edlio (715-672 a.C.). Estamos no final do m\u00eas de Jano.<\/p>\n<p>O fato de suas faces estarem viradas para lados opostos contribui para a dualidade desse deus, uma representa o novo e a outra, o velho; as transi\u00e7\u00f5es, o espa\u00e7o entre dois pontos e o caminho entre os extremos. O fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o J\u00fcrgen Habermas, expoente da famosa Escola de Frankfurt, em novembro de 1984, numa palestra no Parlamento espanhol, invocou a imagem de Jano para falar sobre o car\u00e1ter inacabado da modernidade.<\/p>\n<p>Habermas dedicou a vida ao estudo da democracia, desenvolveu as teorias do agir comunicativo, da pol\u00edtica deliberativa e da esfera p\u00fablica. \u00c0quela \u00e9poca, estudava a crise do Estado de bem-estar social e o esgotamento das energias ut\u00f3picas, tema que abordou no seu discurso, intitulado A Nova Obscuridade (Editora Unesp, 2011). Muitas de suas previs\u00f5es se confirmaram. Houve uma mudan\u00e7a de paradigma da sociedade do trabalho para a sociedade da comunica\u00e7\u00e3o, o que explica muito do que est\u00e1 acontecendo no mundo e no Brasil.<\/p>\n<p>Para ele, a raz\u00e3o instrumental desencadeada pelas for\u00e7as produtivas e a raz\u00e3o funcionalista traduzida nas capacidades de organiza\u00e7\u00e3o e planejamento &#8220;deveriam abrir caminho para a vida humana digna, igualit\u00e1ria e ao mesmo tempo libert\u00e1ria&#8221;. Essa fora a ilus\u00e3o da sociedade do trabalho, que hoje se reproduz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s novas tecnologias, 40 anos depois. \u00c9 falsa ideia de que a desregulamenta\u00e7\u00e3o da internet e dos meios digitais, controlados pelo oligop\u00f3lio das big techs, seria a reden\u00e7\u00e3o humana, a conquista definitiva da liberdade e da democracia.<\/p>\n<p>Enquanto a esquerda brasileira pautou sua atua\u00e7\u00e3o na centralidade do trabalho e nos projetos identit\u00e1rios, a direita mais reacion\u00e1ria apropriou-se das redes sociais de comunica\u00e7\u00e3o pela internet e das frustra\u00e7\u00f5es individuais. Quando o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o PT chegaram ao poder, em 2002, a centralidade do trabalho j\u00e1 estava ultrapassada pela sociedade da comunica\u00e7\u00e3o e pela economia do conhecimento. Agora, mais ainda.<\/p>\n<p>Com raz\u00e3o, a fil\u00f3sofa Hannah Arendt, na segunda metade do s\u00e9culo passado, dizia que as ideias centradas no trabalho levaram aos totalitarismos. Segundo ela, a condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 relacionada ao &#8220;labor&#8221; (o processo biol\u00f3gico do corpo humano), ao &#8220;trabalho&#8221; (a cria\u00e7\u00e3o de objetos e transforma\u00e7\u00e3o da natureza) e, sobretudo, \u00e0 &#8220;a\u00e7\u00e3o&#8221; (a \u00fanica atividade que independe da medi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e se correlaciona com a condi\u00e7\u00e3o humana da pluralidade). O que determina a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 o agir e o pensar politicamente, da\u00ed a necessidade vital do espa\u00e7o p\u00fablico e das liberdades.<\/p>\n<p><strong>Novas conting\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, Lula volta ao poder com a cabe\u00e7a de Jano. Disp\u00f5e de diagn\u00f3sticos das mudan\u00e7as em curso, aqui e no mundo, mas ainda n\u00e3o se livrou completamente de dogmas da antiga sociedade industrial, do valor-trabalho na gera\u00e7\u00e3o de riquezas e do velho nacional-desenvolvimentismo. No seu governo, jovens gestores p\u00fablicos e velhos militantes pol\u00edticos tamb\u00e9m representam as faces de Jano.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim e o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que marcaram o colapso do chamado &#8220;socialismo real&#8221; europeu, Habermas comparou a Europa do fim da Guerra Fria a uma fotografia &#8220;descongelada&#8221; \u2014 aquela de Roosevelt, Stalin e Churchill, em fevereiro de 1945, na Crimeia, quando dividiram o mundo \u2014, como se a hist\u00f3ria anterior \u00e0 guerra fosse retomada de onde foi interrompida, na B\u00f3snia, na S\u00e9rvia e, agora, dir\u00edamos, na Ucr\u00e2nia. Lula se comporta como mocinho de um filme cujas imagens estiveram congeladas.<\/p>\n<p>A conjuntura tamb\u00e9m mostra as faces de Jano. O que \u00e9 determinante para o nosso futuro? A retomada do programa de governo de Lula de 20 anos atr\u00e1s, que cumpriu seu papel em conting\u00eancias favor\u00e1veis? N\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. Lula ganhou as elei\u00e7\u00f5es gra\u00e7as \u00e0 mem\u00f3ria popular da bonan\u00e7a de seu governo anterior, mas enfrenta a onda reacion\u00e1ria que hoje varre o mundo e o risco de uma recess\u00e3o mundial. Logo na primeira semana de mandato, foi surpreendido por uma tentativa de golpe e uma crise militar.<\/p>\n<p>A onda reacion\u00e1ria ainda passa pelo Brasil, como ficou demonstrado em 8 de janeiro. O horizonte econ\u00f4mico \u00e9 de incertezas, a &#8220;contabilidade criativa&#8221; da Americanas pode ser a ponta de um iceberg.<\/p>\n<p>O carisma pessoal e as alian\u00e7as ao centro possibilitaram a vit\u00f3ria eleitoral dram\u00e1tica de Lula no segundo turno. O sucesso do seu novo mandato depende de um programa social-liberal exequ\u00edvel e da preserva\u00e7\u00e3o da ampla coaliz\u00e3o democr\u00e1tica que se formou, n\u00e3o de um &#8220;governo popular&#8221; com uma agenda sindical classista.<\/p>\n<p>A centralidade de seu governo est\u00e1 na defesa da democracia, no compromisso com a sustentabilidade e no combate \u00e0s desigualdades, sem uma vis\u00e3o exclusivista, sect\u00e1ria e revanchista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a esquerda brasileira pautou sua atua\u00e7\u00e3o na centralidade do trabalho e nos projetos identit\u00e1rios, a direita mais reacion\u00e1ria apropriou-se das redes sociais e das frustra\u00e7\u00f5es individuais Jano (do latim Janus ou Ianus) era um ser mitol\u00f3gico romano com duas cabe\u00e7as. Simbolizava o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. 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