{"id":7604,"date":"2023-02-24T06:20:49","date_gmt":"2023-02-24T09:20:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7604"},"modified":"2023-02-24T06:20:49","modified_gmt":"2023-02-24T09:20:49","slug":"nas-entrelinhas-sucesso-de-lula-dependera-do-seu-acordo-com-o-centrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-sucesso-de-lula-dependera-do-seu-acordo-com-o-centrao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Sucesso de Lula depender\u00e1 do seu acordo com o Centr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cDemonstrando espantosa resili\u00eancia, o PT tem a chance de rever na pr\u00e1tica os seus erros e dar vida ao reformismo social poss\u00edvel, em tempos de pen\u00faria e de ataques ao regime de liberdades\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Professora titular aposentada de ci\u00eancia pol\u00edtica da USP e pesquisadora do Cebrap, a soci\u00f3loga Maria Herm\u00ednia Tavares de Almeida publicou ontem, na Folha de S. Paulo, a prop\u00f3sito dos 43 anos de funda\u00e7\u00e3o do PT, um excelente artigo sobre a trajet\u00f3ria do partido. Destaque para singularidade da sua g\u00eanese: &#8220;N\u00e3o ter surgido do interior do sistema pol\u00edtico, por iniciativa do Estado, nem tampouco de acordos entre pol\u00edticos profissionais&#8221;. E o fato de que, com o tempo e no poder, &#8220;foi se achegando \u00e0s nada republicanas formas de financiamento da vida partid\u00e1ria e das campanhas eleitorais, praticadas pelos partidos brasileiros de todas as colora\u00e7\u00f5es e que, mais tarde, explodiriam nos esc\u00e2ndalos do mensal\u00e3o e do petrol\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Sou velho leitor da professora Maria Herm\u00ednia Tavares de Almeida. Seu artigo &#8220;O Sindicato no Brasil: novos problemas, velhas estruturas&#8221;, publicado em julho de 1975, na revista debate &amp; cr\u00edtica (assim mesmo, com min\u00fasculas), teve muita repercuss\u00e3o na academia e no mundo sindical. Naquele momento, ap\u00f3s o avan\u00e7o da oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es de 1974, a pol\u00edtica de distens\u00e3o do presidente Ernesto Geisel estava sendo substitu\u00edda por uma nova onda de pris\u00f5es e assassinatos, entre as quais as do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog.<\/p>\n<p>Na conclus\u00e3o do artigo, Maria Herm\u00ednia destacava a forma\u00e7\u00e3o de um novo grupo de jovens sindicalistas \u00e0 frente do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo, a partir da interven\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Trabalho em 1969. Segundo ela, era o embri\u00e3o de uma nova corrente do movimento sindical brasileiro, com um projeto organizat\u00f3rio e pol\u00edtico-sindical mais afinado com o setor &#8220;moderno&#8221; dos assalariados fabris. Com base no programa da diretoria eleita em 1972, encabe\u00e7ada por Paulo Vidal, na qual o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva seria primeiro-secret\u00e1rio, surgiu um sindicalismo mais pr\u00f3ximo ao norte-americano: &#8220;Combativo, apol\u00edtico&#8221; e solidamente plantado nas empresas, que viria a se tornar a vanguarda do movimento sindical, \u00e0 margem do velho PCB, a partir das greves do ABC de 1978, lideradas por Lula, que presidia o sindicato desde 1975, e outros sindicalistas, como Osmar Mendon\u00e7a, o Omarzinho, e Enilson Sim\u00f5es de Moura, o Alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O fio da hist\u00f3ria<\/strong><br \/>\nNo artigo de ontem, Maria Herm\u00ednia retoma o fio da hist\u00f3ria ao mostrar que nas elei\u00e7\u00f5es diretas para a Presid\u00eancia, em 1989, era de se supor que a esquerda ganharia for\u00e7a, mas n\u00e3o se sabia quem a representaria: havia o PDT, de Leonel Brizola, que governara o Rio de Janeiro e herdara as bases remanescentes do velho trabalhismo varguista, apoiado pelo l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes; o PSDB, liderado por Mario Covas; o PCB, que emergira para a legalidade enfraquecido devido \u00e0s dissid\u00eancias, a clandestinidade e o fracasso do chamado &#8220;socialismo real&#8221;, lan\u00e7ou Roberto Freire com um discurso de renova\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o colou. Quem roubou a cena foi Lula e seu partido inovador, ancorado em movimentos populares, que venceu Leonel Brizola, at\u00e9 ent\u00e3o, o principal l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, e disputou e perdeu o segundo turno para Collor de Mello, o favorito na disputa.<\/p>\n<p>&#8220;A partir de ent\u00e3o, o PT percorreu a t\u00edpica rota das agremia\u00e7\u00f5es social-democratas europeias, adaptada ao lugar e momento hist\u00f3rico&#8221;, avalia Maria Herm\u00ednia. De fato, conquistou prefeituras e governos estaduais, hegemonizou o movimento sindical, seduziu servidores p\u00fablicos e outros setores das camadas m\u00e9dias assalariadas. P\u00f4s em pr\u00e1tica sua agenda social, na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o e na transfer\u00eancia de renda. Buscou reduzir as desigualdades e implantou as cotas raciais. Na economia, por\u00e9m, deu um passo maior que as pernas, ap\u00f3s a crise financeira internacional de 2008, ao trocar o pragmatismo do primeiro mandato de Lula pela nova matriz econ\u00f4mica, que entrou em colapso no segundo mandato de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>&#8220;Agora, de volta ao poder, demonstrando espantosa resili\u00eancia, o PT tem a chance de rever na pr\u00e1tica os seus erros e dar vida ao reformismo social poss\u00edvel, em tempos de pen\u00faria e de ataques ao regime de liberdades&#8221;, destaca Maria Herm\u00ednia. Quem primeiro me chamou a aten\u00e7\u00e3o para essa resili\u00eancia foi o ex-deputado Jos\u00e9 Dirceu, no primeiro dia de volta \u00e0 C\u00e2mara, pela qual seria cassado, ap\u00f3s ser defenestrado da Casa Civil, por causa do mensal\u00e3o: &#8220;Quem vai salvar o PT s\u00e3o seus militantes&#8221;, vaticinou. Isso explica a gratid\u00e3o de Lula pelo partido que criou e lhe permaneceu fiel quando estava preso e parecia liquidado. Talvez isso explique tamb\u00e9m o &#8220;sinceric\u00eddio&#8221; de seu deselegante coment\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o aos demais partidos, que chamou de &#8220;cooperativa de deputados&#8221;.<\/p>\n<p>Por pura ironia, a governabilidade da gest\u00e3o Lula depender\u00e1 da maior das cooperativas, o Centr\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 a menor chance de Lula realizar um bom governo sem uma alian\u00e7a pragm\u00e1tica com o presidente da C\u00e2mara, Arthur Lira (PP-AL), que durante o governo Bolsonaro transformou o chamado &#8220;presidencialismo de coaliz\u00e3o&#8221; numa &#8220;partidocracia&#8221;. Lira monopolizou a &#8220;pequena pol\u00edtica&#8221; do clientelismo e do fisiologismo, por\u00e9m, na grande pol\u00edtica, ap\u00f3s a derrota de Bolsonaro, n\u00e3o ultrapassou as fronteiras da democracia. Os termos do seu acordo com Lula \u00e9 outra hist\u00f3ria, mais cedo ou mais tarde saberemos. O risco \u00e9 um novo &#8220;transformismo&#8221;, que repita os erros do passado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDemonstrando espantosa resili\u00eancia, o PT tem a chance de rever na pr\u00e1tica os seus erros e dar vida ao reformismo social poss\u00edvel, em tempos de pen\u00faria e de ataques ao regime de liberdades\u201d Professora titular aposentada de ci\u00eancia pol\u00edtica da USP e pesquisadora do Cebrap, a soci\u00f3loga Maria Herm\u00ednia Tavares de Almeida publicou ontem, na Folha de S. 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