{"id":7645,"date":"2023-03-08T07:11:42","date_gmt":"2023-03-08T10:11:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7645"},"modified":"2023-03-08T07:11:42","modified_gmt":"2023-03-08T10:11:42","slug":"nas-entrelinhas-mulher-nao-e-objeto-de-cama-e-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mulher-nao-e-objeto-de-cama-e-mesa\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mulher n\u00e3o \u00e9 objeto de cama e mesa"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A contrapartida dos avan\u00e7os e das conquistas dos mulheres vem sendo o recrudescimento da viol\u00eancia contra elas, inclusive dos feminic\u00eddios, por parte daqueles que n\u00e3o aceitam as mudan\u00e7as<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Publicado em 1969, o livro Mulher, objeto de cama e mesa, de Heloneida Studart, fez um sucesso fabuloso durante toda a d\u00e9cada de 1970, coroando anos de pesquisas e uma trajet\u00f3ria de mulher e jornalista, numa \u00e9poca em que havia ainda muito machismo nas reda\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o um ambiente predominantemente masculino. No texto, Heloneida denuncia o tratamento dado \u00e0 maioria das mulheres de sua gera\u00e7\u00e3o: dona de casa, dom\u00e9stica, &#8220;um ser desinteligente por natureza&#8221;.<\/p>\n<p>Redatora de uma revista feminina, Heloneida observou que os temas abordados eram sempre os mesmos, do tipo como prender seu marido, real\u00e7ar a pr\u00f3pria beleza, reformar um vestido etc. Para ela, &#8220;a mulher era tratada como retardada mental&#8221;, era educada para ficar em casa, cuidar dos filhos, do lar e do seu macho. At\u00e9 o estudo era visto como uma amea\u00e7a ao matrim\u00f4nio e \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0 mulher moderna caberia mudar seu papel de mulher na sociedade, mas o seu esfor\u00e7o \u00e9 considerado um fracasso. Agradar ao seu amor \u00e9 tudo que interessa&#8221;, desabafava. A igualdade dos sexos firmada em lei n\u00e3o atravessava as paredes dos lares. Heloneida tamb\u00e9m criticava as mulheres que se orgulhavam da sua depend\u00eancia e destacava que a p\u00edlula anticoncepcional as havia livrado do &#8220;papel de galinhas poedeiras&#8221;. Seu livro, em linguagem nua e crua, circulava quase como uma publica\u00e7\u00e3o clandestina, porque era visto como uma transgress\u00e3o por pais, irm\u00e3os, maridos, noivos, namorados. Mesmo assim teve o papel de estimular as mulheres, jovens ou n\u00e3o, a n\u00e3o aceitarem mais aquela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fa\u00e7am o que eu fa\u00e7o, dizia Heloneida, consciente de que sua trajet\u00f3ria existencial era um exemplo de emancipa\u00e7\u00e3o feminina. Ainda estudante do col\u00e9gio de freiras Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Fortaleza, escreveu a sua primeira hist\u00f3ria: &#8220;A menina que fugiu do Rio&#8221;. Aos 16 anos, mudou para o Rio de Janeiro. Em 1953, publicou o seu primeiro romance, intitulado A primeira pedra. Em 1957 foi premiada pela Academia Brasileira de Letras com Diz-me teu nome.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, passou a trabalhar no antigo Correio da Manh\u00e3, um dos mais importantes jornais do pa\u00eds; depois, foi redatora na extinta revista Manchete, que tamb\u00e9m marcou \u00e9poca. Em 1969, foi presa por raz\u00f5es pol\u00edticas; no pres\u00eddio S\u00e3o Judas Tadeu, escreveu Quero meu filho e N\u00e3o roubar\u00e1s. O estandarte da agonia, um de seus \u00faltimos textos, \u00e9 uma biografia da amiga Zuzu Angel, que morreu num acidente de carro quando investigava a morte de seu filho, Stuart Angel, sequestrado e morto pelo regime militar.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Com abertura, Heloneida Studart se elegeu deputada estadual no Rio de Janeiro em 1978, pelo MDB, com 60 mil votos, numa campanha pol\u00edtica memor\u00e1vel, na qual foi a \u00fanica mulher entre os parlamentares e candidatos liderados pelo senador Nelson Carneiro (MDB) a enfrentar c\u00e3es e policiais militares numa passeata de campanha na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Reelegeu-se para a Assembleia Legislativa por mais cinco mandatos, os \u00faltimos pelo PT.<\/p>\n<p>Faleceu em 3 de dezembro de 2007, como uma das parlamentares mais atuantes e l\u00edder feminista de sua gera\u00e7\u00e3o, em consequ\u00eancia de um infarto card\u00edaco. Deixou como legado o Centro da Mulher Brasileira, considerada a primeira entidade feminista do Brasil, da qual foi uma das fundadoras, al\u00e9m do Centro Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), projeto de sua autoria.<\/p>\n<p>Por ironia, em julho do ano passado, Heloneida Studart voltou a ser destaque na imprensa, porque o Hospital da Mulher de S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, que leva o seu nome, fora palco de estupros sistem\u00e1ticos de pacientes pelo anestesista Giovanni Quintella. Ontem, o plen\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados aprovou projeto de lei que garante \u00e0s mulheres o direito de indicar acompanhante durante consultas e exames para os quais haja necessidade de seda\u00e7\u00e3o. O substitutivo da deputada Bia Kicis (PL-DF) para o Projeto de Lei 81\/22, do deputado licenciado Julio Cesar Ribeiro (Republicanos-DF), apensou outros sete projetos e recebeu amplo apoio das deputadas de todas as tend\u00eancias. A proposta ir\u00e1 ao Senado Federal.<\/p>\n<p>A contrapartida dos avan\u00e7os e das conquistas das mulheres vem sendo o recrudescimento da viol\u00eancia contra elas, inclusive dos feminic\u00eddios, por parte daqueles que n\u00e3o aceitam ou n\u00e3o compreendem as mudan\u00e7as de nosso tempo. Ontem, na abertura do evento Correio Debate \u2014 Combate ao Feminic\u00eddio: uma responsabilidade de todos, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, alertou para o fato de mesmo com uma lei que pune a morte de mulheres pelo g\u00eanero esses casos seguem em crescimento ano a ano. &#8220;N\u00e3o \u00e9 mimimi. As mulheres continuam morrendo pelo simples fato de ser mulher&#8221;, ressaltou a governadora do Distrito Federal em exerc\u00edcio, Celina Le\u00e3o, durante o evento. &#8220;Temos, atualmente, 297 \u00f3rf\u00e3os do feminic\u00eddio. \u00c9 um crime continuado, n\u00e3o finaliza com a morte da mulher&#8221;, alertou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A contrapartida dos avan\u00e7os e das conquistas dos mulheres vem sendo o recrudescimento da viol\u00eancia contra elas, inclusive dos feminic\u00eddios, por parte daqueles que n\u00e3o aceitam as mudan\u00e7as Publicado em 1969, o livro Mulher, objeto de cama e mesa, de Heloneida Studart, fez um sucesso fabuloso durante toda a d\u00e9cada de 1970, coroando anos de pesquisas e uma trajet\u00f3ria de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,677,6,28,980,972,9,3,68],"tags":[1358,1359,1356,1357,808,69,334,1360],"class_list":["post-7645","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-brasilia","category-comunicacao","category-congresso","category-cultura","category-eleicoes-2","category-memoria","category-politica-2","category-politica","category-violencia","tag-anielle","tag-celina","tag-feminicidio","tag-heloneida","tag-mulheres","tag-violencia","tag-costumes","tag-kicis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7645"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7645\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7653,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7645\/revisions\/7653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}