{"id":7705,"date":"2023-03-26T07:34:48","date_gmt":"2023-03-26T10:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7705"},"modified":"2023-03-26T07:35:59","modified_gmt":"2023-03-26T10:35:59","slug":"memoria-partido-comunista-no-brasil-conhecido-como-partidao-completaria-101-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/memoria-partido-comunista-no-brasil-conhecido-como-partidao-completaria-101-anos\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria: Partido Comunista no Brasil, conhecido como Partid\u00e3o, completaria 101 anos"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O futuro proposto por Roberto Freire para o que j\u00e1 foi o Partido Comunista Brasileiro \u2014 hoje Cidadania \u2014 \u00e9 uma grande federa\u00e7\u00e3o de centro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O velho Partid\u00e3o completaria, ontem, 101 anos de funda\u00e7\u00e3o. Surgiu em mar\u00e7o de 1922, com o nome de Partido Comunista do Brasil (PCB), alterando o nome para Partido Comunista Brasileiro, sob o comando de Luiz Carlos Prestes, em 1961, e Partido Popular Socialista (PPS), em 1992, sob lideran\u00e7a de Roberto Freire, que promoveu nova metamorfose partid\u00e1ria ao mudar o nome da legenda para Cidadania. Agora, Freire quer conduzir seu partido, hoje federado com o PSDB, para uma federa\u00e7\u00e3o ainda mais ampla, com o Podemos e, talvez, o MDB. Como nas mudan\u00e7as anteriores, a proposta enfrenta resist\u00eancias, mas, dessa vez, da maioria da Executiva e do Diret\u00f3rio Nacional.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio da legenda, Freire convocou uma reuni\u00e3o dos presidentes regionais do Cidadania, ad referendum das inst\u00e2ncias dirigentes, para debater a proposta. &#8220;Aproveito para avisar aos companheiros e companheiras que acabei de convidar os presidentes dos nossos diret\u00f3rios estaduais para conversarmos sobre as perspectivas pol\u00edticas de uma poss\u00edvel Federa\u00e7\u00e3o PSDB\/Cidadania com o Podemos e o MDB. N\u00e3o haver\u00e1 encaminhamento nem decis\u00e3o alguma. Esse comunicado seria desnecess\u00e1rio, mas \u00e9 imprescind\u00edvel, infelizmente, neste momento por n\u00f3s vivido, para evitar ru\u00eddos e mal-entendidos&#8221;, justificou.<\/p>\n<p>A proposta de amplia\u00e7\u00e3o da federa\u00e7\u00f5es com o Podemos havia sido recha\u00e7ada pela maioria da Executiva do Cidadania, mas seu diret\u00f3rio nacional n\u00e3o chegou a se manifestar sobre o assunto, em reuni\u00e3o convocada para definir a posi\u00e7\u00e3o do partido em rela\u00e7\u00e3o ao governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Por 65 votos a 35, a legenda decidiu apoiar o governo sem impor condi\u00e7\u00f5es, uma derrota que Freire assimilou parcialmente, ao comunicar a decis\u00e3o oficialmente ao pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica. A bancada federal, por\u00e9m, em nota divulgada na mesma ocasi\u00e3o, declarou independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao governo.<\/p>\n<p>Com cinco deputados \u2014 Alex Manente (SP), Arnaldo Jardim (SP), Carmem Zanoto (SC), Any Ortiz (RS) e Amom Mandel (AM) \u2014, o Cidadania sobreviveu \u00e0 cl\u00e1usula de barreira, em 2022, por causa da federa\u00e7\u00e3o com o PSDB, aprovada em congresso por apenas um voto de diferen\u00e7a. Mas essa escolha tamb\u00e9m foi traum\u00e1tica. As alternativas eram uma chapa pr\u00f3pria, encabe\u00e7adas pelo senador Alessandro Vieira, que deixou o partido, ou uma federa\u00e7\u00e3o com o PDT, que havia lan\u00e7ado Ciro Gomes. Em consequ\u00eancia da decis\u00e3o, o governador da Para\u00edba, Jo\u00e3o Azevedo, candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, e a senadora Leila Barros, que era candidata ao governo do Distrito Federal, tamb\u00e9m deixaram a legenda.<\/p>\n<p>A federa\u00e7\u00e3o com o PSDB foi uma faca de dois gumes. A deputada Paula Belmonte (DF), que pretendia concorrer ao Senado, ficou sem legenda e se viu obrigada a disputar uma vaga na C\u00e2mara Distrital. O ex-governador Cristovam Buarque desistiu de disputar uma cadeira na C\u00e2mara pelo mesmo motivo. Os deputados Rubens Bueno (PR) e Daniel Coelho (PE), vice-presidentes da legenda, n\u00e3o se reelegeram. O deputado Marcos Marrafon (que era suplente, foi diplomado, mas n\u00e3o conseguiu tomar posse) tamb\u00e9m. O ex-deputado Arnaldo Jordy (PA) n\u00e3o conseguiu voltar \u00e0 C\u00e2mara. Bem-sucedido no empenho de Freire para viabilizar a candidatura de Simone Tebet (MDB) \u00e0 Presid\u00eancia, o partido acabou ensanduichado pela polariza\u00e7\u00e3o entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Lula, na aba do chap\u00e9u do PSDB, que resolveu n\u00e3o ter candidato pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Na verdade, a mudan\u00e7a do nome da legenda de PPS para Cidadania foi feita sob medida para a candidatura do apresentador de televis\u00e3o Luciano Huck, acalentada por Freire como uma alternativa nova para o pa\u00eds, capaz de incorporar \u00e0 legenda os movimentos c\u00edvicos que surgiram durante o governo Dilma Rousseff e ganharam for\u00e7a na campanha do impeachment. A ideia era constituir uma nova forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, organizada em rede, que unisse ex-comunistas, socialistas, social-democratas, liberais progressistas e democratas radicais. Huck renovou seu contrato com a TV Globo, a milit\u00e2ncia dos movimentos c\u00edvicos foi abduzida pelo bolsonarismo e a maioria dos seus quadros, que permaneceram no Cidadania nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, n\u00e3o teve bom desempenho eleitoral. O projeto original do Cidadania de se tornar um partido social-liberal robusto n\u00e3o avan\u00e7ou.<\/p>\n<p>H\u00e1 31 anos na presid\u00eancia do Cidadania, aos 80 anos de idade, Roberto Freire \u00e9 o mais longevo l\u00edder partid\u00e1rio do pa\u00eds, mas ainda n\u00e3o ultrapassou a marca do legend\u00e1rio dirigente comunista Luiz Carlos Prestes, que comandou o PCB de 1945 a 1980. Eleito para o Comit\u00ea Central em 1982, no 7\u00ba Congresso, lidera uma gera\u00e7\u00e3o de dirigentes que hoje discorda da op\u00e7\u00e3o transformista que vem dando \u00e0 legenda.<\/p>\n<p>O caminho proposto por Freire \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de uma grande federa\u00e7\u00e3o de centro, liderada pelo velho MDB, mas o espa\u00e7o para isso est\u00e1 congestionado pela exist\u00eancia do Uni\u00e3o Brasil e do PSD. A maioria dos dirigentes do Cidadania prefere apoiar o governo Lula, administrar os conflitos com o PSDB nas elei\u00e7\u00f5es municipais e, somente depois, decidir o caminho a seguir.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as anteriores no antigo PCB j\u00e1 provocaram rachas hist\u00f3ricos, dos quais surgiram os atuais Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em 1962, encabe\u00e7ado por Jo\u00e3o Amazonas, e o novo Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Ivan Pinheiro, que conseguiu seu registro em 1996. Em 1967, uma das alas que optara pela luta armada, liderada por Apol\u00f4nio de Carvalho e Mario Salves, criou o PCBR (R de revolucion\u00e1rio), mas a organiza\u00e7\u00e3o foi dizimada pelo regime militar.<\/p>\n<p><strong>Legado e personagens do velho PCB<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-content\/uploads\/sites\/20\/2023\/03\/65F64C06-33F9-4CD1-BD9C-8BA6560EE687.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7710 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-content\/uploads\/sites\/20\/2023\/03\/65F64C06-33F9-4CD1-BD9C-8BA6560EE687-300x175.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"175\" \/><\/a><\/p>\n<p>O emblem\u00e1tico PCB n\u00e3o surgiu de uma corrente socialista ou social-democrata, mas de um grupo de sindicalistas e intelectuais anarquistas que se encantou com o marxismo. Por isso, o partido demorou a ser aceito pela III Internacional Socialista. Por causa dessa singularidade, sofreu tamb\u00e9m sucessivas interven\u00e7\u00f5es do Cominter \u2014 \u00f3rg\u00e3o controlado pelo ditador sovi\u00e9tico Joseph St\u00e1lin, que substituiu a III Internacional \u2014 que resultaram no afastamento de alguns dirigentes hist\u00f3ricos, entre os quais o pr\u00f3prio Astrojildo Pereira, Heitor Ferreira Lima e Fernando de Lacerda. Essa tens\u00e3o entre os sovi\u00e9ticos e o PCB foi permanente, mas n\u00e3o impediu seu alinhamento autom\u00e1tico quando houve a invas\u00e3o na antiga Tchecoslov\u00e1quia, em 1968, nem permitiu que a corrente eurocomunista liderada por Arm\u00eanio Guedes, Carlos Nelson Coutinho e Luiz Werneck Viana se mantivesse na legenda, na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>Em 1982, o poeta Ferreira Gullar resumiu num poema o lugar hist\u00f3rico do antigo Partid\u00e3o: \u201cEles eram apenas nove: o jornalista\/ Astrojildo, o contador Cordeiro,\/o gr\u00e1fico Pimenta, o sapateiro Jos\u00e9 Elias, o vassoureiro\/Lu\u00eds Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa\/ o ferrovi\u00e1rio Hermog\u00eanio\/ e ainda o barbeiro Nequete\/ que citava L\u00eanin a tr\u00eas por dois\/ Em todo o pa\u00eds,\/ eles n\u00e3o eram mais de setenta\/ Sabiam pouco de marxismo\/ mas tinham sede de justi\u00e7a\/ e estavam dispostos a lutar por ela&#8230;\u201d Segundo Gullar, \u201co PCB n\u00e3o se tornou o maior partido do Ocidente\/ nem mesmo do Brasil\/ Mas quem contar a hist\u00f3ria de nosso povo e seus her\u00f3is\/ tem que falar dele\/ Ou estar\u00e1 mentindo\u201d.<\/p>\n<p>Desde os debates sobre agrarismo e industrializa\u00e7\u00e3o, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, protagonizados por Astrojildo Pereira, Ot\u00e1vio Brand\u00e3o e Heitor Ferreira Lima, o desenvolvimento nacional esteve no centro das preocupa\u00e7\u00f5es do PCB. O debate sobre a supera\u00e7\u00e3o do atraso econ\u00f4mico por uma via democr\u00e1tica, por\u00e9m, esbarrou nos dogmas comunistas e confrontou o sonho de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Por isso, ao longo dos anos, intelectuais, dirigentes e militantes renovadores deixaram o PCB.<\/p>\n<p><strong>Os erros de Luiz Carlos Prestes<\/strong><\/p>\n<p>Ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, \u00e0 frente da coluna rebelde que levou seu nome, Lu\u00eds Carlos Prestes percorreu o Brasil entre 1925 e 1927, combatendo as tropas dos governos Artur Bernardes e Washington Lu\u00eds. Foram 25 mil quil\u00f4metros de marcha. Procurado por Astrojildo Pereira, o fundador do PCB, na Bol\u00edvia, onde a coluna havia se internado, para evitar a rendi\u00e7\u00e3o, Prestes aderiu ao comunismo.<\/p>\n<p>Em novembro 1935, Prestes liderou um levante militar sem chance de dar certo por falta de apoio popular e militar, que se tornaria o mito fundador da \u201camea\u00e7a comunista\u201d no Brasil. Por causa da chamada \u201cIntentona Comunista\u201d, ficou preso por nove anos; sua esposa Olga Ben\u00e1rio, uma judia alem\u00e3, foi deportada e executada em um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, no qual dera \u00e0 luz a historiadora Anita Prestes, sua filha.<\/p>\n<p>Nada disso impediu que Prestes apoiasse o governo Vargas para que o Brasil entrasse na II Guerra Mundial contra o nazifascismo. Libertado em 1945, foi eleito o senador mais votado do pa\u00eds. Seu mandato, por\u00e9m, foi cassado, juntamente com o registro da legenda, em 1947, em raz\u00e3o da guerra fria. O PCB voltou \u00e0 ilegalidade, da qual somente sairia em 1985.<\/p>\n<p>Em 1964, Prestes e o PCB serviram de pretexto para o golpe militar. Uma declara\u00e7\u00e3o infeliz sobre a participa\u00e7\u00e3o dos comunistas no governo Jo\u00e3o Goulart e o fato de estar articulando a reelei\u00e7\u00e3o de Jango foram explorados pelos generais que tomaram o poder. O PCB estava isolado politicamente, embora fosse hegem\u00f4nico na esquerda brasileira, cuja atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica viria a influenciar at\u00e9 hoje, a partir de uma ideia-for\u00e7a: a da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futuro proposto por Roberto Freire para o que j\u00e1 foi o Partido Comunista Brasileiro \u2014 hoje Cidadania \u2014 \u00e9 uma grande federa\u00e7\u00e3o de centro O velho Partid\u00e3o completaria, ontem, 101 anos de funda\u00e7\u00e3o. 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