{"id":7732,"date":"2023-04-02T07:51:16","date_gmt":"2023-04-02T10:51:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7732"},"modified":"2023-04-02T07:51:16","modified_gmt":"2023-04-02T10:51:16","slug":"lula-precisa-achar-a-passagem-do-meio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-precisa-achar-a-passagem-do-meio\/","title":{"rendered":"Lula precisa achar a passagem do meio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>&#8220;Quem est\u00e1 contra o novo arcabou\u00e7o fiscal defende o corte de despesas do governo, que sempre \u00e9 poss\u00edvel, mas tem alto custo social e pol\u00edtico&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A mais bem-sucedida experi\u00eancia desenvolvimentista p\u00f3s II Guerra Mundial foi a dos chamados Tigres Asi\u00e1ticos: Coreia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan. Governos intervencionistas protagonizaram a transforma\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses de economias estagnadas em pa\u00edses din\u00e2micos e industrializados, cada qual ocupando um papel espec\u00edfico na nova divis\u00e3o internacional do trabalho. Na sequ\u00eancia, vieram Mal\u00e1sia, Tail\u00e2ndia, Indon\u00e9sia, com modelos semelhantes, e a China, que saiu do &#8220;comunismo de guerra&#8221; de Mao Tse Tung para o &#8220;capitalismo de Estado&#8221; de Deng Hsiao Ping. Hoje, \u00e9 o Vietn\u00e3 que envereda com sucesso por esse mesmo caminho.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia, burocracias muito fortes comandaram um processo no qual a iniciativa privada foi preservada, com o Estado investindo fortemente em ramos estrat\u00e9gicos e na inova\u00e7\u00e3o tecnologia. Grandes investimentos na educa\u00e7\u00e3o proporcionaram a m\u00e3o de obra qualificada necess\u00e1ria para os novos setores da economia, na transi\u00e7\u00e3o do agr\u00e1rio para o urbano. Em 1950, o PIB per capita da Coreia do Sul era metade do PIB do Brasil; em 1990 era o dobro, em 2005, tr\u00eas vezes maior. No ano passado, era quatro vezes.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que ocorreu na \u00c1sia, o modelo desenvolvimentista fracassou na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, em meio a crises pol\u00edticas, muita corrup\u00e7\u00e3o e atraso cultural. O tratamento preferencial e protecionista dado \u00e0s empresas e setores, por meio de isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e incentivos econ\u00f4micos, n\u00e3o produziu o mesmo resultado, porque a prote\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o teve como contrapartida o desempenho.<\/p>\n<p>A reprodu\u00e7\u00e3o de modelos pol\u00edticos olig\u00e1rquicos e excludentes no &#8220;capitalismo de compadrio&#8221; p\u00f4s tudo a perder, inclusive no Brasil. Pode-se argumentar que o sucesso na \u00c1sia se deve a governos autorit\u00e1rios, o que em parte \u00e9 verdade, mas n\u00e3o \u00e9 uma lei universal. Aqui tivemos o auge do capitalismo de Estado durante o regime militar e o modelo fracassou. Entrou em colapso porque adensou demais as cadeias de produ\u00e7\u00e3o sem integr\u00e1-las \u00e0s cadeias globais de valor, numa economia aut\u00e1rquica.<\/p>\n<p>A crise financeira asi\u00e1tica, nos anos 1990, parecia ter posto em xeque o modelo desenvolvimentista, mas o crescimento da China acabou alavancando todas as economias asi\u00e1ticas, seja pela associa\u00e7\u00e3o direta, como no caso do Vietn\u00e3, seja pelo seu impacto na economia regional e global, como na Indon\u00e9sia e Tail\u00e2ndia. A China pegou o trem de alta velocidade da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, da economia do conhecimento e da intelig\u00eancia artificial. Est\u00e1 se tornando um pa\u00eds rico, com uma classe m\u00e9dia numerosa. Hoje, as economias de China e Estados Unidos t\u00eam tamanhos parecidos.<\/p>\n<p><strong>A conta<\/strong><\/p>\n<p>O consenso econ\u00f4mico atual atribui ao Estado o papel de regula\u00e7\u00e3o da economia: \u00a0&#8220;s\u00f3 deve intervir para corrigir falhas no sistema que a iniciativa privada sozinha n\u00e3o tem como resolver&#8221;. Basta garantir que os tribunais funcionem, que os contratos sejam respeitados e o direito \u00e0 propriedade protegido. A estabilidade macroecon\u00f4mica deve ser considerada um valor. Ao Estado cabe cuidar da infraestrutura, da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o dos mais pobres, &#8220;pero no mucho&#8221;. O resto o mercado resolve. Na verdade, tudo isso foi levado em conta pelos pa\u00edses asi\u00e1ticos. Onde est\u00e1 o n\u00f3?<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pano de fundo da discuss\u00e3o sobre o novo arcabou\u00e7o fiscal apresentado ao Congresso pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que busca conciliar a urg\u00eancia das demandas sociais com as necessidades de controle da d\u00edvida p\u00fablica. O governo Lula se comprometeu a melhorar, ano a ano, as suas contas, chegando a um superavit prim\u00e1rio de 1% do PIB em 2026, seu \u00faltimo ano de mandato. As despesas subir\u00e3o, no m\u00e1ximo, 2,5% ao ano, descontada a infla\u00e7\u00e3o. As cr\u00edticas ao modelo se concentram no piso de 0,6% para o crescimento das despesas, que Haddad espera compensar com a taxa de crescimento da economia e a reforma tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>O ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o pa\u00eds numa trajet\u00f3ria explosiva de endividamento p\u00fablico, que subiria de 72,9% do PIB, no ano passado, para 95,3%, em 2032. Uma alta de 22,4 pontos em 10 anos. O projeto da equipe econ\u00f4mica do novo governo, no pior cen\u00e1rio, prev\u00ea a estabiliza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida em 85% no mesmo per\u00edodo. Ou seja, 10 pontos a menos. Entretanto, se tudo der certo, a d\u00edvida se estabilizar\u00e1 em 77% do PIB a partir de 2025.<\/p>\n<p>O que preocupa os cr\u00edticos da proposta s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es para que isso d\u00ea certo no cen\u00e1rio positivo, o crescimento e a arrecada\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio negativo \u00e9 o aumento da infla\u00e7\u00e3o, que ningu\u00e9m deseja. Quem est\u00e1 contra o novo arcabou\u00e7o fiscal defende o corte de despesas do governo, que sempre \u00e9 poss\u00edvel, mas tem alto custo social e pol\u00edtico. A necessidade de incluir os mais pobres no Or\u00e7amento \u00e9 uma obviedade, porque foram eles que ganharam a elei\u00e7\u00e3o ao escolher o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Sem infla\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m tem que pagar essa conta. S\u00e3o os setores privilegiados da sociedade, inclusive setores empresariais protegidos pelo Estado, sem a devida contrapartida em termos de metas de qualidade e produtividade. Vem da\u00ed o lobby contra a proposta e pelo corte de gastos. \u00c9 um conflito distributivo da renda nacional, que tende a se acirrar durante o governo Lula, se um novo modelo de desenvolvimento, ajustado \u00e0 nossa realidade, n\u00e3o for posto na mesa para discuss\u00e3o com a sociedade. Um novo consenso econ\u00f4mico s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com mais crescimento, moderniza\u00e7\u00e3o da economia e aumento da renda das fam\u00edlias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quem est\u00e1 contra o novo arcabou\u00e7o fiscal defende o corte de despesas do governo, que sempre \u00e9 poss\u00edvel, mas tem alto custo social e pol\u00edtico&#8221; A mais bem-sucedida experi\u00eancia desenvolvimentista p\u00f3s II Guerra Mundial foi a dos chamados Tigres Asi\u00e1ticos: Coreia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Taiwan. 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