{"id":7803,"date":"2023-04-25T06:22:26","date_gmt":"2023-04-25T09:22:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7803"},"modified":"2023-04-25T06:22:26","modified_gmt":"2023-04-25T09:22:26","slug":"nas-entrelinhas-lula-precisa-rever-suas-prioridades-diplomaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lula-precisa-rever-suas-prioridades-diplomaticas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Lula precisa rever suas prioridades diplom\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Empunhar a bandeira da paz n\u00e3o deve ser um reposicionamento estrat\u00e9gico do Brasil no mundo. Isso mudaria profundamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas internas, principalmente no Congresso.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A compatibilidade entre a pol\u00edtica externa e a pol\u00edtica interna. Por exemplo, a entrega do Pr\u00eamio Cam\u00f5es ao compositor Chico Buarque, ontem, em Lisboa, pelo presidente Luiz In\u00e1cio da Silva, est\u00e1 em sincronia perfeita com o momento da pol\u00edtica cultural brasileira, de valoriza\u00e7\u00e3o dos nossos artistas e da tem\u00e1tica democr\u00e1tica, progressista e popular, que sempre foi uma caracter\u00edstica do nosso cancioneiro.<\/p>\n<p>Chico resumiu o mosaico nacional inspirado nos versos de Paratodos, uma de suas m\u00fasicas: &#8220;O meu pai era paulista, meu av\u00f4 pernambucano, meu bisav\u00f4 mineiro e meu tatarav\u00f4 baiano. Tenho antepassados negros e ind\u00edgenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da hist\u00f3ria familiar. Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias o sangue do a\u00e7oitado e do a\u00e7oitador, o que ajuda a nos explicar um pouco&#8221;. Ao registrar que o Pr\u00eamio Cam\u00f5es levou quatro anos para lhe ser entregue, ironizou a grande mudan\u00e7a pol\u00edtica na vida nacional:<\/p>\n<p>&#8220;Quatro anos com uma pandemia no meio davam, \u00e0s vezes, a impress\u00e3o de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu pa\u00eds, quatro anos de governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para tr\u00e1s. Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a amea\u00e7a fascista persiste, no Brasil e por toda parte. Hoje, por\u00e9m, nessa tarde de celebra\u00e7\u00e3o, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de n\u00e3o sujar o diploma do meu Pr\u00eamio Cam\u00f5es, deixando seu espa\u00e7o em branco para assinatura do nosso presidente Lula&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o se pode dizer que a prioridade diplom\u00e1tica do presidente Lula esteja em sintonia absoluta com a pol\u00edtica interna, a n\u00e3o ser que pretenda dar uma guinada \u00e0 esquerda no seu governo, como j\u00e1 est\u00e3o afirmando seus advers\u00e1rios, da extrema direita \u00e0 centro-esquerda. A forma como Lula se engajou e priorizou a guerra da Ucr\u00e2nia na nossa pol\u00edtica externa est\u00e1 favorecendo a forma\u00e7\u00e3o de uma frente ampla de oposi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que ocorreu no segundo turno da elei\u00e7\u00e3o, quando obteve o apoio das for\u00e7as de centro.<\/p>\n<p>O erro de conceito \u00e9 tratar como iguais a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia. Foi o que revelaram suas declara\u00e7\u00f5es em Pequim, Dubai e, ao receber o chanceler russo Serguei Lavrov, em Bras\u00edlia. O pre\u00e7o pol\u00edtico desse equ\u00edvoco diplom\u00e1tico est\u00e1 sendo muito alto. Por mais que no encontro com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, Lula tenha retoricamente se reposicionado. Talvez o erro seja at\u00e9 estrategicamente mais grave: tratar a guerra da Ucr\u00e2nia como prioridade, e n\u00e3o, como deveria ser, a quest\u00e3o ambiental. Na diplomacia presidencial, Lula perdeu a dimens\u00e3o de que a quest\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u00e9 t\u00e3o importante ou mais at\u00e9 do que a guerra da Ucr\u00e2nia para a sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p>O ex-presidente Jair Bolsonaro se tornou um &#8220;p\u00e1ria internacional&#8221; sobretudo por n\u00e3o compreender que seu apoio ao garimpo ilegal, ao contrabando de madeira e ao genoc\u00eddio de ianom\u00e2mis catalisou a opini\u00e3o p\u00fablica mundial contra a sua gest\u00e3o, vista como uma amea\u00e7a pela maioria dos governos do Ocidente, mais at\u00e9 do que sua aproxima\u00e7\u00e3o com Putin, cujo regime iliberal lhe servia de espelho. A vit\u00f3ria de Lula reabriu todas as portas do Ocidente para o Brasil, porque foi compreendida como uma afirma\u00e7\u00e3o da democracia e o passo inicial para salvar a Amaz\u00f4nia e, com isso, conter drasticamente a velocidade do aquecimento global.<\/p>\n<p><strong>A posi\u00e7\u00e3o do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o natural do Brasil na divis\u00e3o internacional do trabalho \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas e de min\u00e9rios, inclusive semicondutores. Nos dois casos, como provedores de insumos b\u00e1sicos, isso nos insere por gravidade no mundo das novas tecnologias. Ao mesmo tempo, podemos recuperar nossa complexidade industrial com a produ\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos e eletr\u00f4nicos, nos inserindo na reestrutura\u00e7\u00e3o das cadeias globais de valor. Para isso, n\u00e3o podemos nos desconectar do Ocidente, principalmente dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia. A China ser\u00e1 cada vez mais o nosso maior parceiro comercial, mas, ao mesmo tempo, est\u00e1 engolindo o mercado interno e externo das nossas ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>A hegemonia das rela\u00e7\u00f5es comerciais entre Ocidente e Oriente \u00e9 disputada pelos Estados Unidos e a China. Isso nos coloca diante das seguintes perguntas: qual \u00e9 o grau de prioridade das nossas rela\u00e7\u00f5es com o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia? Como administrar a complexidade da nossa participa\u00e7\u00e3o nos Brics (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul), novo eixo das rela\u00e7\u00f5es entre a \u00c1sia, a \u00c1frica e a Am\u00e9rica do Sul? N\u00e3o podemos p\u00f4r tudo a perder por causa da guerra da Ucr\u00e2nia. Empunhar a bandeira da paz n\u00e3o deve ser um reposicionamento estrat\u00e9gico do Brasil no mundo. Isso mudaria profundamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas internas, principalmente no Congresso.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sabemos se a transi\u00e7\u00e3o da bipolaridade para a multipolaridade na pol\u00edtica internacional se processar\u00e1 de maneira pac\u00edfica ou, pelo contr\u00e1rio, violenta, como se apresenta agora na Europa. Essa transi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acirra conflitos de interesses entre as grandes pot\u00eancias e as principais na\u00e7\u00f5es emergentes. Desde a Segunda Grande Guerra, os conflitos armados foram regionais ou \u00e9tnicos, mas a guerra da Ucr\u00e2nia adquire outra dimens\u00e3o, est\u00e1 sendo comparada pelos pa\u00edses da Otan \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o dos Sudetos (cadeia de montanhas situada entre a Pol\u00f4nia, a antiga Tchecoslov\u00e1quia e a Alemanha) pelas tropas de Hitler. Ao assinar o Acordo de Munique, a Fran\u00e7a e o Reino Unido chocaram o ovo da serpente da expans\u00e3o do nazifascismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empunhar a bandeira da paz n\u00e3o deve ser um reposicionamento estrat\u00e9gico do Brasil no mundo. Isso mudaria profundamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas internas, principalmente no Congresso. A compatibilidade entre a pol\u00edtica externa e a pol\u00edtica interna. 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