{"id":7818,"date":"2023-04-28T06:55:28","date_gmt":"2023-04-28T09:55:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7818"},"modified":"2023-04-28T07:00:30","modified_gmt":"2023-04-28T10:00:30","slug":"nas-entrelinhas-a-nova-onda-iluminista-e-a-regulamentacao-das-big-techs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-nova-onda-iluminista-e-a-regulamentacao-das-big-techs\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A nova onda iluminista e a regulamenta\u00e7\u00e3o das big techs"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Se antes o que gerava riqueza e poder eram os fatores de produ\u00e7\u00e3o tradicionais \u2014 capital, terra e trabalho \u2014, hoje, segundo o Banco Mundial, 64% da riqueza mundial adv\u00e9m do conhecimento<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVII, as ideias, os pensamentos e os experimentos cient\u00edficos que reinventavam o mundo adquiriram grandes propor\u00e7\u00f5es. Desde a publica\u00e7\u00e3o de Dom Quixote de La Mancha, por Miguel de Cervantes, a inven\u00e7\u00e3o do romance, em Madri, no ano de 1605, a cortina de um mundo encoberto por ideias preconcebidas e destinos predeterminados havia sido rasgada, tudo estava sendo questionado por intelectuais e pensadores inconformados com os dogmas religiosos e as estruturas feudais. Denis Diderot e D&#8217;Alembert, dois intelectuais franceses, resolveram organizar uma grande enciclop\u00e9dia, publicada entre 1755 e 1772, que reunisse as principais ideias do movimento iluminista, mais ou menos como a Wikip\u00e9dia hoje, que armazena todo o conhecimento dispon\u00edvel nas redes sociais.<\/p>\n<p>A Enciclop\u00e9dia tinha como elementos norteadores a liberdade individual, comercial, industrial, de pensar, escrever e publicar; oposi\u00e7\u00e3o clara \u00e0s ideias religiosas e ao absolutismo pol\u00edtico, que eram considerados obst\u00e1culos para a liberdade. Buffon (naturalista franc\u00eas), Jacques Necker (economista e pol\u00edtico su\u00ed\u00e7o), Turgot (economista franc\u00eas), Condorcet (fil\u00f3sofo, matem\u00e1tico e pol\u00edtico franc\u00eas), Rousseau, Voltaire e Montesquieu (principais fil\u00f3sofos do Iluminismo) escreveram verbetes sobre filosofia, pol\u00edtica, economia, artes, ci\u00eancias, educa\u00e7\u00e3o e o saber em geral.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o da Enciclop\u00e9dia influenciou a mudan\u00e7a no pensamento pol\u00edtico e social e proporcionou uma nova vis\u00e3o de mundo para o homem moderno, principalmente a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789. Em v\u00e1rios momentos, foi proibida, por causa dos ataques \u00e0 religi\u00e3o e ao absolutismo, al\u00e9m do seu programa de reivindica\u00e7\u00f5es sociais, traduzido na famosa Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o aprovada pelos jacobinos na Assembleia Nacional francesa. N\u00e3o por acaso, em muitos momentos e pa\u00edses, a Enciclop\u00e9dia circulou clandestinamente. N\u00e3o haveria Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, na Inglaterra, sem a grande onda iluminista que varreu a Europa.<\/p>\n<p>Hoje, vivemos uma esp\u00e9cie de novo Iluminismo: a sociedade do conhecimento. &#8220;Os fatores tradicionais de produ\u00e7\u00e3o \u2014 capital, terra e trabalho \u2014 deixaram de ser os principais geradores de riqueza e poder na sociedade atual. Na verdade, daqui para a frente, os grandes ganhos de produtividade vir\u00e3o da gest\u00e3o de um novo fator de produ\u00e7\u00e3o: o conhecimento&#8221;, destaca o professor Marcos Cavalcanti, do Centro de Refer\u00eancia em Intelig\u00eancia Empresarial, da UFRJ.<\/p>\n<p>Segundo Cavalcanti, a economia do conhecimento deslocou o eixo da riqueza e do desenvolvimento de setores industriais tradicionais, intensivos em m\u00e3o de obra, mat\u00e9ria-prima e capital, para setores cujos produtos, processos e servi\u00e7os s\u00e3o intensivos em tecnologia e conhecimento. Mesmo na agricultura e na ind\u00fastria de bens de consumo e de capital, a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais baseada na capacidade de transformar informa\u00e7\u00e3o em conhecimento e conhecimento em decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>Capital social<\/strong><\/p>\n<p>Assim, o valor dos produtos depende, cada vez mais, do percentual de inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e intelig\u00eancia a eles incorporados. Se antes o que gerava riqueza e poder eram os fatores de produ\u00e7\u00e3o tradicionais \u2014 capital, terra e trabalho \u2014, hoje, segundo o Banco Mundial, 64% da riqueza mundial adv\u00e9m do conhecimento. Tais mudan\u00e7as ocasionam um profundo impacto na economia do pa\u00eds e na vida de milh\u00f5es de brasileiros. \u00c9 considerado inova\u00e7\u00e3o tudo aquilo que muda o comportamento do mercado, de produtores e consumidores, e gera renda e arrecada\u00e7\u00e3o de tributos. N\u00e3o somente a tecnologia.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que o PL das Fake News, que regulamenta a atua\u00e7\u00e3o das big techs no Brasil, precisa ser debatido. A evolu\u00e7\u00e3o da internet criou o ambiente adequado ao r\u00e1pido desenvolvimento das redes sociais digitais, que s\u00e3o instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os sociais. Mas trata-se, tamb\u00e9m, de um mecanismo de forma\u00e7\u00e3o de capital social, em escala sem precedentes, decorrente do uso intenso, espont\u00e2neo ou n\u00e3o, das redes digitais pelos cidad\u00e3os. Capital social \u00e9 um conceito desenvolvido pelo soci\u00f3logo Pierre Bourdieu, que se refere ao conjunto de recursos sociais que uma pessoa possui e que lhe permite agir e influenciar outras pessoas e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre as big techs, assim, envolve duas dimens\u00f5es. A primeira \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de conhecimento, que exige um ambiente de liberdade de express\u00e3o, no qual os direitos e garantias individuais estejam assegurados. Essa dimens\u00e3o polariza o debate sobre as fake news e ofusca a segunda, aqui tratada, que \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o desse capital social pelas grandes redes sociais. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, as big techs se apropriam e transformam o capital humano em capital propriamente dito, altamente concentrado, sem controle e sem taxa\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a grande disputa nos bastidores da C\u00e2mara para a regulamenta\u00e7\u00e3o das big techs.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se antes o que gerava riqueza e poder eram os fatores de produ\u00e7\u00e3o tradicionais \u2014 capital, terra e trabalho \u2014, hoje, segundo o Banco Mundial, 64% da riqueza mundial adv\u00e9m do conhecimento No s\u00e9culo XVII, as ideias, os pensamentos e os experimentos cient\u00edficos que reinventavam o mundo adquiriram grandes propor\u00e7\u00f5es. 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