{"id":7861,"date":"2023-05-11T07:17:49","date_gmt":"2023-05-11T10:17:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7861"},"modified":"2023-05-11T07:17:49","modified_gmt":"2023-05-11T10:17:49","slug":"nas-entrelinhas-lula-precisa-de-um-governo-para-chamar-de-nosso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lula-precisa-de-um-governo-para-chamar-de-nosso\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Lula precisa de um governo para chamar de nosso"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O presidente da Rep\u00fablica depende n\u00e3o somente do pr\u00f3prio carisma, mas das regras do jogo democr\u00e1tico e do exerc\u00edcio competente da pol\u00edtica institucional. Gra\u00e7as a isso, p\u00f4de tomar posse<\/strong><\/em><\/p>\n<p>De modo geral, governos populistas s\u00e3o &#8220;fulanizados&#8221;, ou seja, organizam sua sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em torno de um l\u00edder carism\u00e1tico. Quem primeiro caracterizou esse tipo de lideran\u00e7a foi o soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber, autor de uma palestra c\u00e9lebre, intitulada &#8220;A pol\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o&#8221;, ao separar poder e domina\u00e7\u00e3o. Para ele, o poder \u00e9 o exerc\u00edcio da vontade sobre os indiv\u00edduos; a domina\u00e7\u00e3o, a aceita\u00e7\u00e3o e a subordina\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos ao poder exercido por algu\u00e9m. H\u00e1 tr\u00eas formas leg\u00edtimas de domina\u00e7\u00e3o, uma delas \u00e9 a carism\u00e1tica. As outras duas s\u00e3o a legal (um pacto entre os cidad\u00e3os para que eles tenham garantidos os seus direitos) e a tradicional (com base na moral e na religi\u00e3o, caracter\u00edstica das sociedades patriarcais).<\/p>\n<p>O que nos interessa mais \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica, que depende de a capacidade individual mobilizar a sociedade e comand\u00e1-la. Segundo Weber, o l\u00edder carism\u00e1tico \u00e9 uma esp\u00e9cie de for\u00e7a da natureza, exerce uma m\u00edstica sobre seus seguidores, essencial para que seus liderados nele depositem a esperan\u00e7a de mudan\u00e7a e acreditem nas suas a\u00e7\u00f5es. Nesse tipo de domina\u00e7\u00e3o, a compet\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 em primeiro plano. Por isso, a instabilidade desse tipo de domina\u00e7\u00e3o decorre diretamente da capacidade de persuas\u00e3o do l\u00edder. Quando ela falha, o poder entra em crise.<\/p>\n<p>No Brasil, o l\u00edder pol\u00edtico mais carism\u00e1tico de nossa hist\u00f3ria republicana foi Get\u00falio Vargas, que liderou a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e se manteve no poder como ditador at\u00e9 1945. Voltou ao poder pela vontade popular, nas elei\u00e7\u00f5es de 1950, com 46,36% dos votos, como candidato \u00e0 Presid\u00eancia do PTB, partido que fundou. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia segundo turno. Essa vota\u00e7\u00e3o traduziu seu prest\u00edgio junto aos trabalhadores assalariados do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m revelou forte a rejei\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e das elites do pa\u00eds. Vargas se matou para n\u00e3o ser deposto, em 24 de agosto de 1954, em meio a uma crise pol\u00edtica provocada por um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, seu mais figadal advers\u00e1rio pol\u00edtico, perpetrado pelo chefe de sua guarda pessoal, Greg\u00f3rio Fortunato.<\/p>\n<p>Depois de Vargas, sem d\u00favida, a lideran\u00e7a mais carism\u00e1tica \u00e9 o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o ex-l\u00edder metal\u00fargico, que chegou ao poder em 2002, foi reeleito em 2006 e elegeu sua sucessora em 2010, a ex-presidente Dilma Rousseff. Construiu uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica com base no sindicalismo, desbancando o herdeiro natural do velho trabalhismo varguista, o ex-governador fluminense Leonel Brizola (PDT), nas elei\u00e7\u00f5es de 1989, quando disputou o segundo turno com Fernando Collor de Melo, que foi eleito.<\/p>\n<p><strong>Carisma e poder<\/strong><\/p>\n<p>Vargas n\u00e3o tinha advers\u00e1rio eleitoral \u00e0 altura, seu principal desafeto, Carlos Lacerda, no auge de sua popularidade, era uma lideran\u00e7a confinada \u00e0 antiga Guanabara. Nem de perto tinha o carisma de J\u00e2nio Quadros, que se elegeu presidente da Rep\u00fablica em 1960, por\u00e9m renunciou ao mandato, no segundo ano de governo, numa crise palaciana provocada pelo seu rompimento com Lacerda. J\u00e1 o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva tem um advers\u00e1rio com forte lideran\u00e7a carism\u00e1tica, Jair Bolsonaro. O ex-presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o se reelegeu por uma diferen\u00e7a de apenas 1,8% dos votos v\u00e1lidos. Sua base eleitoral \u00e9 forte e atuante, com uma extrema direita ideol\u00f3gica que defende abertamente a volta ao regime militar.<\/p>\n<p>Bolsonaro exerce sua lideran\u00e7a com um p\u00e9 no pr\u00f3prio carisma e o outro na tradi\u00e7\u00e3o moral e religiosa, ou seja, no velho patriarcado. Para se manter no poder, Lula depende n\u00e3o somente do pr\u00f3prio carisma, mas das regras do jogo democr\u00e1tico e do exerc\u00edcio competente da pol\u00edtica institucional. Gra\u00e7as a isso, p\u00f4de disputar as elei\u00e7\u00f5es e tomar posse, apesar da conspira\u00e7\u00e3o golpista que viria a se expressar em 8 de janeiro e est\u00e1 sendo desnudada. Ou seja, Lula depende da domina\u00e7\u00e3o racional-legal, que \u00e9 compartilhada com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p>No momento, a rela\u00e7\u00e3o do governo Lula com o Congresso \u00e9 muito vol\u00e1til. Uma parte dos ministros atua na l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica, na aba do chap\u00e9u do l\u00edder, em busca de um programa de a\u00e7\u00e3o focado nas pol\u00edticas sociais, por\u00e9m com vi\u00e9s estrat\u00e9gico de velhas concep\u00e7\u00f5es da esquerda latino-americana. Outra, de centro e centro-direita, luta por espa\u00e7os no pr\u00f3prio governo e defende um programa de reformas liberais. Para complicar, a maioria do Congresso \u00e9 conservadora, fisiol\u00f3gica e patrimonialista.<\/p>\n<p>Egressos do governo Bolsonaro, os l\u00edderes do chamado Centr\u00e3o tamb\u00e9m querem um governo para chamar de seu, como foi o de Bolsonaro. Falta foco ao governo Lula para enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o e viabilizar suas prioridades imediatas, no caso, a aprova\u00e7\u00e3o do chamado &#8220;arcabou\u00e7o fiscal&#8221; e da reforma tribut\u00e1ria. Para isso, \u00e9 preciso pactuar programaticamente as rela\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as que participam da coaliz\u00e3o de governo (uma agenda liberal-social pode ser o caminho) e negociar a implementa\u00e7\u00e3o dessa agenda com o Congresso (um acordo com o Centr\u00e3o ser\u00e1 inevit\u00e1vel). O carisma de Lula, apenas, n\u00e3o d\u00e1 conta do recado, seus parceiros pol\u00edticos querem um governo para chamar de nosso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente da Rep\u00fablica depende n\u00e3o somente do pr\u00f3prio carisma, mas das regras do jogo democr\u00e1tico e do exerc\u00edcio competente da pol\u00edtica institucional. Gra\u00e7as a isso, p\u00f4de tomar posse De modo geral, governos populistas s\u00e3o &#8220;fulanizados&#8221;, ou seja, organizam sua sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em torno de um l\u00edder carism\u00e1tico. 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