{"id":7884,"date":"2023-05-18T07:08:13","date_gmt":"2023-05-18T10:08:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7884"},"modified":"2023-05-18T07:08:13","modified_gmt":"2023-05-18T10:08:13","slug":"nas-entrelinhas-cassacao-de-dallagnol-e-a-volta-do-cipo-de-aroeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-cassacao-de-dallagnol-e-a-volta-do-cipo-de-aroeira\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Cassa\u00e7\u00e3o de Dallagnol \u00e9 a volta do cip\u00f3 de aroeira"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Ex-chefe da for\u00e7a-tarefa de Curitiba, algoz do presidente Lula, que ousou estender suas investiga\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o aos tribunais superiores, acabou defenestrado pelo TSE<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Gravado em 1968, o ano da Passeata dos 100 Mil e do Ato Institucional n\u00ba 5, a letra da m\u00fasica Cip\u00f3 de Aroeira, de Geraldo Vandr\u00e9, que empresta seus versos \u00e0 coluna, fez muito sucesso \u00e0 \u00e9poca. Era uma alus\u00e3o \u00e0 Revolta da Chibata (1910) e ao passado escravagista da Col\u00f4nia e do Imp\u00e9rio, cujos castigos f\u00edsicos impostos aos escravos indisciplinados e rebeldes continuaram praticados ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, pela Marinha de Guerra: &#8220;Marinheiro, marinheiro\/ Quero ver voc\u00ea no mar\/ Eu tamb\u00e9m sou marinheiro\/ Eu tamb\u00e9m sei governar\/ Madeira de dar em doido\/ Vai descer at\u00e9 quebrar\/ \u00c9 a volta do cip\u00f3 de aroeira\/ No lombo de quem mandou dar\/ \u00c9 a volta do cip\u00f3 de aroeira\/ No lombo de quem mandou dar&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi uma esp\u00e9cie de pren\u00fancio da op\u00e7\u00e3o pela luta armada que uma parte da oposi\u00e7\u00e3o ao regime militar viria a adotar, sob a lideran\u00e7a principal do comunista Carlos Marighella. Havia um evidente voluntarismo na ideia de que seria poss\u00edvel combater o regime militar recorrendo \u00e0 for\u00e7a das armas, o que resultou no fracasso dos grupos guerrilheiros urbanos e rurais constitu\u00eddos sob a inspira\u00e7\u00e3o, principalmente, da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Nunca houve a volta do cip\u00f3 de aroeira. O regime militar seria derrotado nos marcos de suas pr\u00f3prias regras eleitorais.<\/p>\n<p>Os militares se retiraram do poder em ordem. A transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia foi longa e pactuada, os agentes dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o foram poupados de puni\u00e7\u00f5es por envolvimento em sequestros, torturas e assassinatos. Por meios pac\u00edficos, o Brasil reconquistou a democracia. Agora, 37 anos ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Tancredo Neves no col\u00e9gio eleitoral, os militares novamente se retiraram em ordem do poder, ao frustrar a tentativa de golpe da extrema direita de 8 de janeiro passado. A elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro os trouxera de volta ao governo, em 2018, pela for\u00e7a das urnas, fato in\u00e9dito desde a elei\u00e7\u00e3o do marechal Eurico Gaspar Dutra, em 1945.<\/p>\n<p><strong>Magistratura<\/strong><\/p>\n<p>Os quatro anos de mandato de Bolsonaro foram sombrios. Fora eleito no rastro da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, liderada pelo juiz federal Sergio Moro, de Curitiba, e pelo procurador da Rep\u00fablica Deltan Dallagnol, entre outros. Nesse \u00ednterim, o Brasil flertou com o autoritarismo, sob a lideran\u00e7a de um ex-capit\u00e3o que fez carreira no baixo clero da C\u00e2mara. Bolsonaro militarizou o governo federal, ao destinar cerca de oito mil cargos aos seus antigos companheiros de caserna, entre os quais, os generais amigos que ocupavam posi\u00e7\u00f5es-chave no Pal\u00e1cio do Planalto. Dois fatores contribu\u00edram para sua elei\u00e7\u00e3o: a cassa\u00e7\u00e3o dos direitos pol\u00edticos do l\u00edder petista Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que passou mais de 500 dias preso em Curitiba, e a desmoraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e de seus partidos pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>Bolsonaro operou para cooptar os militares, desmoralizar a magistratura, subjugar os diplomatas e escantear a Igreja Cat\u00f3lica, os redutos tradicionais da elite liberal do pa\u00eds. As ideias de Oliveira Viana, ide\u00f3logo do Estado Novo e autor de Popula\u00e7\u00f5es Meridionais do Brasil, pareciam saltar das p\u00e1ginas empoeiradas de sua obra para o cotidiano da pol\u00edtica atual. No lugar do idealismo constitucional de Rui Barbosa, que inspira nossa Rep\u00fablica, um projeto autorit\u00e1rio nos moldes de Francisco Campos, o jurista da Constitui\u00e7\u00e3o de 1937, mais conhecida como &#8220;Polaca&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, como diria Ant\u00f4nio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o compositor Tom Jobim, o Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes. Que ironia, a onda reacion\u00e1ria que se apropriou da bandeira da \u00e9tica e promoveu um tsunami na pol\u00edtica brasileira esbarrou no Supremo Tribunal Federal (STF), um dos pilares do Estado nacional, enraizado historicamente desde o Imp\u00e9rio, que at\u00e9 recentemente parecia ser o principal instrumento de criminaliza\u00e7\u00e3o da atividade pol\u00edtica no Brasil, com o apoio da m\u00eddia e da opini\u00e3o p\u00fablica. Como ap\u00f3s o Per\u00edodo Regencial (1831-1840), com suas rebeli\u00f5es que colocavam em risco a integridade nacional, a magistratura federal teve um papel decisivo na defesa da ordem, contra uma extrema direita golpista e reacion\u00e1ria, liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>A cassa\u00e7\u00e3o do mandato do deputado Deltan Dallagnol (Podemos-PR), eleito no ano passado, ocorre nesse contexto hist\u00f3rico. O ex-chefe da for\u00e7a-tarefa de Curitiba, algoz do presidente Lula, que ousou estender suas investiga\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o aos tribunais superiores, foi defenestrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na ter\u00e7a-feira, por unanimidade, ap\u00f3s julgamento de pedido de impugna\u00e7\u00e3o de sua candidatura. Eleito com mais de 345 mil votos, o mais votado do Paran\u00e1, &#8220;Dallagnol antecipou sua exonera\u00e7\u00e3o em fraude \u00e0 lei. Ele se utilizou de subterf\u00fagios para se esquivar de PADs ou outros casos envolvendo suposta improbidade administrativa e les\u00e3o aos cofres p\u00fablicos. Tudo isso porque a gravidade dos fatos poderia lev\u00e1-lo \u00e0 demiss\u00e3o&#8221;, resumiu o relator do processo no TSE, ministro Benedito Gon\u00e7alves, ao defender a cassa\u00e7\u00e3o. Quem maneja o cip\u00f3 de aroeira \u00e9 a alta magistratura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-chefe da for\u00e7a-tarefa de Curitiba, algoz do presidente Lula, que ousou estender suas investiga\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o aos tribunais superiores, acabou defenestrado pelo TSE Gravado em 1968, o ano da Passeata dos 100 Mil e do Ato Institucional n\u00ba 5, a letra da m\u00fasica Cip\u00f3 de Aroeira, de Geraldo Vandr\u00e9, que empresta seus versos \u00e0 coluna, fez muito sucesso \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,677,6,980,371,4,7,5,92,972,113,8,3,9,68],"tags":[130,1406,77,328,1405,18,10],"class_list":["post-7884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-brasilia","category-comunicacao","category-congresso","category-eleicoes-2","category-etica","category-governo","category-justica","category-lava-jato","category-literatura","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica","category-politica-2","category-violencia","tag-bolsonaro","tag-cassacao","tag-congresso","tag-dallagnol","tag-magistratura","tag-lava-jato","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7884"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7889,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7884\/revisions\/7889"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}