{"id":7891,"date":"2023-05-21T07:51:02","date_gmt":"2023-05-21T10:51:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7891"},"modified":"2023-05-21T08:19:35","modified_gmt":"2023-05-21T11:19:35","slug":"nas-entrelinhas-entre-a-guerra-e-a-paz-lula-e-pressionado-pelos-eua-a-apoiar-a-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-entre-a-guerra-e-a-paz-lula-e-pressionado-pelos-eua-a-apoiar-a-ucrania\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Entre a guerra e a paz, Lula \u00e9 pressionado pelos EUA a apoiar a Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, disputa entre os Estados Unidos e a China amea\u00e7a transformar a guerra comercial entre os dois pa\u00edses numa nova &#8220;guerra fria&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O romance Guerra e Paz (Companhia das Letras), de Liev Tolst\u00f3i, foi publicado inicialmente como folhetim, na revista Russkii Vestnik, entre 1865 e 1869. A novela retrata a R\u00fassia no come\u00e7o do s\u00e9culo 19, particularmente no per\u00edodo da invas\u00e3o de Napole\u00e3o Bonaparte, que chegou a ocupar Moscou por um m\u00eas e meio. O realismo social e a complexidade psicol\u00f3gica fizeram da obra uma das mais importantes da literatura universal. A maior cr\u00edtica a Tolst\u00f3i \u00e9 ao seu fatalismo hist\u00f3rico, que norteia a trajet\u00f3ria de seus protagonistas, como se n\u00e3o houvesse livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, al\u00e9m de quebrar todas as regras liter\u00e1rias, que Tolst\u00f3i havia respeitado em Anna Karenina (1878), o romance tamb\u00e9m foi mal-recebido por parte dos veteranos da Guerra de 1812, contra Napole\u00e3o Bonaparte, porque desconstr\u00f3i a narrativa her\u00f3ica tradicional ao descrever o dia a dia dos soldados. Com o tempo, por\u00e9m, o romance passou a ser reconhecido por sua qualidade liter\u00e1ria e tamb\u00e9m hist\u00f3rica. \u00c9 considerado a melhor reconstitui\u00e7\u00e3o daquele conflito, no qual Napole\u00e3o acabou derrotado pelo velho e ardiloso marechal Mikhail Kutuzov.<\/p>\n<p>Vem dessa derrota de Napole\u00e3o o mito da invencibilidade do Ex\u00e9rcito russo, gra\u00e7as ao &#8220;general inverno&#8221;, consolidado com a vit\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Vermelho contra a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Mas o mito n\u00e3o \u00e9 verdadeiro. Mesmo na Batalha de Borodino, decisiva para a derrota da campanha napole\u00f4nica, os russos foram derrotados, perdendo metade dos seus soldados. O problema de Napole\u00e3o foi que n\u00e3o houve rendi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que ocorrera em outras campanhas, al\u00e9m do fato de que perdera um ter\u00e7o de seus soldados no confronto. Al\u00e9m de salvar o Ex\u00e9rcito, ao evacuar Moscou, Kutuzov evitou outro confronto com Napole\u00e3o, preferiu adotar a t\u00e1tica de guerrilhas e fustigar a retaguarda do Ex\u00e9rcito franc\u00eas, na sua retirada dram\u00e1tica pela neve.<\/p>\n<p>Entretanto, mais tarde, a R\u00fassia perderia a guerra com o Jap\u00e3o, entre 1904 e 1905, ao disputar os territ\u00f3rios da Manchuria, principalmente Port Arthur, na pen\u00ednsula de Liaodong. Na Batalha de Tsushima, a frota russa foi arrasada pela Marinha japonesa, perdendo 24 navios. O epis\u00f3dio obrigou o czar Nicolau II a negociar a paz. Sua derrota foi uma das causas das revolu\u00e7\u00f5es de 1905 e 1917. Foi t\u00e3o traum\u00e1tica que, na Segunda Guerra Mundial, o l\u00edder sovi\u00e9tico Youssef St\u00e1lin temia muito mais uma invas\u00e3o japonesa do que o ataque alem\u00e3o. Por isso, expurgou veteranos generais e acabou foi surpreendido por Hittler, com quem havia feito um acordo de paz, apesar das advert\u00eancias dos servi\u00e7os de espionagem.<\/p>\n<p><strong>Guerra da Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>Os russos n\u00e3o s\u00e3o os mesmos soldados fora de seu territ\u00f3rio, isso ficou comprovado na Guerra de Inverno, contra a Finl\u00e2ndia (1937-1940), quando n\u00e3o conseguiram ocupar completamente o pa\u00eds, e na invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o, que durou 10 anos e acabou perdida de forma humilhante para os mujajidin, os rebeldes do Talib\u00e3. Na Ucr\u00e2nia, a vida nunca foi f\u00e1cil para os russos. Conquistada por Pedro o Grande, que derrotou Carlos XII da Su\u00e9cia na batalha de Poltava, em 1709, a Ucr\u00e2nia foi dividida pela Pol\u00f4nia e a Austria, at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, quando se tornou uma rep\u00fablica sovi\u00e9tica. Mesmo assim, houve uma guerra civil entre cossacos aliados dos bolcheviques e o Ex\u00e9rcito &#8220;branco&#8221;, sendo uma parte do territ\u00f3rio anexado pela Pol\u00f4nia nas negocia\u00e7\u00f5es de paz com Lenin, o l\u00edder sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Na Segunda Guerra Mundial, devido ao trauma da &#8220;Grande Fome&#8221;(Holomnodor), causada pelas coletiviza\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de St\u00e1lin, uma parte dos ucranianos apoiou o Ex\u00e9rcito alem\u00e3o. A Ucr\u00e2nia plenamente reintegrada \u00e0 antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica depois da guerra, quando incorporou tamb\u00e9m a Crimeia. Com o colapso do modelo sovi\u00e9tico, conquistou in\u00e9dita e plena independ\u00eancia. Agora, teve seu territ\u00f3rio invadido perla R\u00fassia, que corre s\u00e9rio risco de uma nova derrota catastr\u00f3fica. Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Uni\u00e3o Europeia, inclusive Fran\u00e7a e Alemanha, n\u00e3o est\u00e3o dispostos a aceitar que uma parte do territ\u00f3rio ucraniano seja incorporado \u00e0 R\u00fassia, como j\u00e1 aconteceu em outros momentos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na verdade, a guerra da Ucr\u00e2nia se transformou numa guerra por procura\u00e7\u00e3o entre a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) e a R\u00fassia, na qual Putin est\u00e1 moralmente derrotados na opini\u00e3o p\u00fablica ocidental e, agora, corre o risco de sofrer uma derrota militar propriamente dita. O Ocidente est\u00e1 disposto a escalar a guerra at\u00e9 a retirada total das tropas russas, com a transfer\u00eancia de armamentos mais modernos e com potencial ofensivo muito maior para a Ucr\u00e2nia, como os avi\u00f5es de ca\u00e7a F-1(EUA). \u00c9 nesse contexto que o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva participa da reuni\u00e3o do G7 (os sete pa\u00edses mais industrializado do mundo), que termina hoje, em Hiroshima, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>O presidente da Ucr\u00e2nia, Volodymyr Zelensky, que se transformou no l\u00edder pol\u00edtico mais popular do Ocidente, chegou de surpresa \u00e0 reuni\u00e3o e deve ter um encontro biliteral com Lula. O Brasil est\u00e1 sendo pressionado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e outros l\u00edderes europeus a assumir uma posi\u00e7\u00e3o claramente favor\u00e1vel \u00e0 Ucr\u00e2nia na guerra com a R\u00fassia. A \u00cdndia, que \u00e9 aliada dos Estados Unidos contra China, tamb\u00e9m. Os dois pa\u00edses integram os BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul), um pacto entre as principais economias emergentes. A disputa entre os Estados Unidos e a China amea\u00e7a transformar a guerra comercial entre os dois pa\u00edses numa nova &#8220;guerra fria&#8221;.<\/p>\n<p>Ontem, na reuni\u00e3o de c\u00fapula do G-7, Lula criticou a forma\u00e7\u00e3o de &#8220;blocos antag\u00f4nicos&#8221; no mundo. Defendeu reformas e a inclus\u00e3o de novos membros permanentes no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, para &#8220;recuperar a efic\u00e1cia, autoridade pol\u00edtica e moral para lidar com os conflitos e dilemas no s\u00e9culo 21&#8221;. O G7 engloba EUA, Canad\u00e1, Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o. Austr\u00e1lia, Comores, Ilhas Cook, \u00cdndia, Indon\u00e9sia, Coreia do Sul e Vietn\u00e3 tamb\u00e9m participaram da reuni\u00e3o. Embora a neutralidade do Brasil seja uma tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, na quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia essa posi\u00e7\u00e3o isola Lula no Ocidente e internamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, disputa entre os Estados Unidos e a China amea\u00e7a transformar a guerra comercial entre os dois pa\u00edses numa nova &#8220;guerra fria&#8221; O romance Guerra e Paz (Companhia das Letras), de Liev Tolst\u00f3i, foi publicado inicialmente como folhetim, na revista Russkii Vestnik, entre 1865 e 1869. 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