{"id":7910,"date":"2023-05-26T07:37:22","date_gmt":"2023-05-26T10:37:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7910"},"modified":"2023-05-26T07:37:22","modified_gmt":"2023-05-26T10:37:22","slug":"nas-entrelinhas-reforma-e-conciliacao-no-governo-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-reforma-e-conciliacao-no-governo-lula\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Reforma e concilia\u00e7\u00e3o no governo Lula"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;<em><strong>Marina Silva revelou muita serenidade ao lidar com as derrotas das agendas ambiental e ind\u00edgena na C\u00e2mara, imposta pela maioria conservadora articulada por Arthur Lira&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O livro Concilia\u00e7\u00e3o e reforma no Brasil, um desafio hist\u00f3rico pol\u00edtico (Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira), de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, foi escrito logo ap\u00f3s o golpe militar de 1964, que destituiu o presidente Jo\u00e3o Goulart. Por mais que o tempo tenha passado, aquele momento da hist\u00f3ria do Brasil transcende as conjunturas, pois o regime militar durou 20 anos. Tamb\u00e9m serve de advert\u00eancia: em 8 de janeiro, presenciamos uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, como outras que antecederam \u00e0quela ruptura, h\u00e1 quase seis d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>As reformas no Brasil foram promovidas pela via do autoritarismo ou da concilia\u00e7\u00e3o, o que resultou na nossa moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, que perpetuou as desigualdades e exclus\u00e3o sociais, uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o passiva&#8221;, como conceituou o cientista pol\u00edtico Luiz Werneck Vianna. O poder de coopta\u00e7\u00e3o das reformas conservadoras \u00e9 maior do que a mobiliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a efetiva\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as sociais. O atraso pol\u00edtico, o patrimonialismo e o fisiologismo s\u00e3o n\u00f3s dif\u00edceis de desatar. Todos os governos progressistas se depararam com essa contradi\u00e7\u00e3o, alguns tendo mais sucesso que outros, como os de Juscelino Kubitschek (1950-1960), Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010). Colapsaram os de Get\u00falio Vargas (1950-1954), que se matou; Jo\u00e3o Goulart, que foi deposto; e Dilma Rousseff, apeada do poder no segundo mandato, por um impeachment.<\/p>\n<p>A singularidade da obra de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues \u00e9 a cr\u00edtica \u00e0 &#8220;pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o&#8221;, cuja g\u00eanese foi o Gabinete do Marques do Paran\u00e1, no Imp\u00e9rio. Dom Pedro II era respons\u00e1vel por determinar quais seriam os ministros que formariam o Conselho de Ministros, por\u00e9m implantou um sistema parlamentarista no qual escolhia o presidente do Conselho de Ministros e esse, por sua vez, indicava os demais ministros. Hon\u00f3rio Carneiro Le\u00e3o construiu uma &#8220;ponte de ouro&#8221;, no dizer de Jos\u00e9 Tom\u00e1s Nabuco de Ara\u00fajo, do Partido Conservador, que foi ministro da Justi\u00e7a, senador e conselheiro de Estado do Imp\u00e9rio, em discurso antol\u00f3gico, ao anunciar que participaria do gabinete de maioria liberal, mas permaneceria em oposi\u00e7\u00e3o ao governo de Pernambuco, onde perdera a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria est\u00e1 muito bem contada por Joaquim Nabuco, ao escrever a biografia de seu pai, Um estadista no Imp\u00e9rio (Edi\u00e7\u00f5es C\u00e2mara dos Deputados). Obra de refer\u00eancia, era recomendada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso aos tucanos e a aliados contrariados pela alian\u00e7a do PSDB com os caciques do PFL Marco Maciel, seu vice, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, Jos\u00e9 Agripino e Jorge Bornhausen, entre outros. O falecido deputado Luiz Eduardo Magalh\u00e3es (PFL-BA) foi o principal interlocutor de FHC na C\u00e2mara. Sem essa alian\u00e7a, o Plano Real e as privatiza\u00e7\u00f5es teriam fracassado.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edtica ao populismo<\/strong><\/p>\n<p>Hon\u00f3rio Rodrigues mostrou o outro lado da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o. Disc\u00edpulo de Capistrano de Abreu, o primeiro a valorizar a import\u00e2ncia do &#8220;povo capado e recapado, sangrado e ressangrado&#8221; na forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil, faleceu em abril de 1987, aos 73 anos de idade. Era liberal democrata de forma\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00e3, para quem a concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico nas m\u00e3os de grupos conservadores impediu o progresso do pa\u00eds durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Para ele, as lutas pela independ\u00eancia poderiam fundar as bases nacionais em terreno popular e liberal, mas foram derrotadas. A Independ\u00eancia n\u00e3o significou uma ruptura, mas a continuidade da ordem privilegiada das elites escravocratas da \u00e9poca. Em 1822, nas d\u00e9cadas de 1830 e 1840, em 1889, 1930, 1945, 1961 e 1964 deu-se o mesmo. &#8220;Os poderes dominantes tiveram sempre for\u00e7a para conter as aspira\u00e7\u00f5es profundas de mudan\u00e7a e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privil\u00e9gios&#8221;, diagnosticou, num dos ensaios da colet\u00e2nea, intitulado &#8220;Teses e ant\u00edteses da Hist\u00f3ria do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Hon\u00f3rio considerava o populismo &#8220;uma esp\u00e9cie de primitivismo pol\u00edtico (\u2026), um instrumento de agita\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel, de meio desordenado de degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos&#8221;. Dizia que foi um entrave ao crescimento ordenado e eficiente nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960: &#8220;A campanha de luta e agita\u00e7\u00e3o (\u2026) desgastou o progressismo que se vinha formando e criou barreiras intranspon\u00edveis (\u2026). N\u00e3o uniu, dividiu&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta quinta-feira, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, revelou serenidade ao lidar com as derrotas das agendas ambiental e ind\u00edgena na C\u00e2mara, que desnuda o car\u00e1ter conservador da base parlamentar comandada pelo presidente da C\u00e2mara, Arthur Lira (PP-AL). &#8220;A democracia \u00e9 amea\u00e7ada, assim como as pol\u00edticas de meio ambiente, direitos humanos&#8221;, disse a ministra. &#8220;A melhor coisa que a gente faz \u00e9 resistir&#8221;, completou. A pol\u00edtica ambiental \u00e9 estrat\u00e9gica para a nova economia. Sem ela, o governo Lula perde a agenda da verdadeira moderniza\u00e7\u00e3o e se torna prisioneiro do atraso social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Marina Silva revelou muita serenidade ao lidar com as derrotas das agendas ambiental e ind\u00edgena na C\u00e2mara, imposta pela maioria conservadora articulada por Arthur Lira&#8221; O livro Concilia\u00e7\u00e3o e reforma no Brasil, um desafio hist\u00f3rico pol\u00edtico (Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira), de Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, foi escrito logo ap\u00f3s o golpe militar de 1964, que destituiu o presidente Jo\u00e3o Goulart. 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