{"id":7915,"date":"2023-05-28T07:29:29","date_gmt":"2023-05-28T10:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7915"},"modified":"2023-05-28T10:45:20","modified_gmt":"2023-05-28T13:45:20","slug":"nas-entrelinhas-a-posicao-sobre-a-ucrania-pos-o-brasil-numa-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-posicao-sobre-a-ucrania-pos-o-brasil-numa-encruzilhada\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A posi\u00e7\u00e3o sobre a Ucr\u00e2nia p\u00f4s o Brasil numa encruzilhada"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O nacional-desenvolvimentismo e a tradi\u00e7\u00e3o anti-imperialista da esquerda brasileira influenciam a pol\u00edtica externa. Isso provoca o realinhamento de for\u00e7as que priorizam a quest\u00e3o democr\u00e1tica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Artigo de Lourdes Sola e Eduardo Viola, professores do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), publicado, ontem, no Estado de S. Paulo, sobre as mudan\u00e7as na pol\u00edtica mundial e o posicionamento do governo Lula, merece profunda reflex\u00e3o. Destaca que houve uma mudan\u00e7a na geopol\u00edtica mundial que exige um reposicionamento cuidadoso do Brasil. Isso parece n\u00e3o ter sido devidamente avaliado pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, cuja diplomacia \u00e9 presidencial e comandada pelo ex-chanceler Celso Amorim, embora o Itamaraty tenha massa cr\u00edtica para faz\u00ea-lo com mais compet\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia consolidou um forte componente de guerra fria entre as democracias do &#8216;Ocidente coletivo&#8217; (que inclui Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Taiwan, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia) e o bloco autocr\u00e1tico (com China, R\u00fassia, Ir\u00e3 e Coreia do Norte). Esse confronto delineia-se desde 2015, mas o tra\u00e7o que define a guerra fria \u00e9 mais recente: cada bloco v\u00ea o outro como amea\u00e7a existencial. Est\u00e1 em pleno curso o desacoplamento entre ambos no referente \u00e0 alta tecnologia e, particularmente, \u00e0 tecnologia de uso dual (civil e militar)&#8221;, avaliam Sola e Viola.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica da guerra fria \u00e9 a paridade estrat\u00e9gico-militar. H\u00e1 um evidente desequil\u00edbrio nesse aspecto entre pa\u00edses que integram a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) e o eixo China, R\u00fassia, Ir\u00e3 e Coreia. O ponto de inflex\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar, que parecia ser irrevers\u00edvel com a emerg\u00eancia da China como potencia econ\u00f4mica, foi a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia. O conflito se tornou uma &#8220;guerra de procura\u00e7\u00e3o&#8221; entre a Otan e o governo de Putin. Al\u00e9m de reativar o complexo militar industrial dos Estados Unidos e outros pa\u00edses do Ocidente, a guerra em plena Europa provocar\u00e1 a expans\u00e3o da capacidade militar chinesa, que j\u00e1 vinha ocorrendo, com a militariza\u00e7\u00e3o definitiva dos mares asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>No livro Sobre a China, Henry Kissinger lembra-nos que a disputa pelo controle do com\u00e9rcio no Atl\u00e2ntico entre uma pot\u00eancia continental, a Alemanha, e uma pot\u00eancia mar\u00edtima, a Inglaterra, no s\u00e9culo passado, provocou duas guerras mundiais. Neste s\u00e9culo, o eixo do comercio mundial se deslocou para o Pac\u00edfico, a pot\u00eancia continental \u00e9 a China, e a mar\u00edtima, os Estados Unidos. O temor de Kissinger era que isso provocasse uma nova guerra fria e, consequentemente, aumentasse o risco de uma cat\u00e1strofe nuclear. \u00c9 o que acontece agora.<\/p>\n<p>Guerra e paz<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, Sola e Viola destacam diferen\u00e7as cruciais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra fria do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial: h\u00e1 alta interdepend\u00eancia econ\u00f4mica entre os dois blocos, embora menor entre Ocidente e R\u00fassia desde a invas\u00e3o; a China \u00e9 uma superpot\u00eancia econ\u00f4mica, ao contr\u00e1rio da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; os desafios globais como mudan\u00e7a clim\u00e1tica, pandemias e regula\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial exigem muita coopera\u00e7\u00e3o internacional. O neorrealismo diplom\u00e1tico assentado nos interesse geopol\u00edticos permanentes, derivados da geografia, da hist\u00f3ria e da identidade cultural, foi posto em segundo plano: &#8220;Os interesses dos Estados variam segundo os regimes pol\u00edticos e os governos, e segundo as transforma\u00e7\u00f5es da economia pol\u00edtica mundial&#8221;.<\/p>\n<p>Sola e Viola criticam, com raz\u00e3o, a prioridade dada por Lula \u00e0 media\u00e7\u00e3o da paz entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia: &#8220;o Brasil n\u00e3o tem excedente de poder para mediar numa regi\u00e3o que conhece pouco e com a qual tem v\u00ednculos limitados&#8221;. Teria muito mais protagonismo nas pol\u00edticas clim\u00e1tica e de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. &#8220;Justamente aquelas que s\u00e3o decisivas para equacionar alguns dos desafios globais de ordem existencial mencionados. Para tanto, h\u00e1 que reduzir drasticamente o desmatamento, evitar as tenta\u00e7\u00f5es do nacionalismo petroleiro e investir nas oportunidades abertas para exercer protagonismo ambiental \u2014 a presid\u00eancia do G20 e a COP30.&#8221;<\/p>\n<p>Embora desejemos um mundo multipolar e a paz, a guerra na Ucr\u00e2nia fragiliza a op\u00e7\u00e3o pelo Sul Austral. Os pa\u00edses do Brics (Brasil, R\u00fassia,\u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul), realmente, t\u00eam interesses econ\u00f4micos convergentes, por\u00e9m n\u00e3o ficar\u00e3o neutros: R\u00fassia e China s\u00e3o aliados militares; a \u00cdndia integra o bloco militar do Jap\u00e3o e da Austr\u00e1lia com os Estados Unidos. A tradi\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul \u00e9 de alinhamento com os Estados Unidos e a Inglaterra.<\/p>\n<p>O nacional-desenvolvimentismo e a tradi\u00e7\u00e3o anti-imperialista da esquerda brasileira, subliminarmente, influenciam a pol\u00edtica externa do governo. Isso j\u00e1 \u00e9 percept\u00edvel e provoca o realinhamento de for\u00e7as sociais e pol\u00edticas que priorizam a quest\u00e3o democr\u00e1tica na rela\u00e7\u00e3o com o governo. Opuseram-se ao governo Bolsonaro; agora, pelas mesmas raz\u00f5es, se distanciam de Lula, o que debilita seu governo. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds do Ocidente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nacional-desenvolvimentismo e a tradi\u00e7\u00e3o anti-imperialista da esquerda brasileira influenciam a pol\u00edtica externa. Isso provoca o realinhamento de for\u00e7as que priorizam a quest\u00e3o democr\u00e1tica Artigo de Lourdes Sola e Eduardo Viola, professores do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), publicado, ontem, no Estado de S. 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