{"id":7919,"date":"2023-05-30T07:09:12","date_gmt":"2023-05-30T10:09:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7919"},"modified":"2023-05-30T07:09:12","modified_gmt":"2023-05-30T10:09:12","slug":"lula-dobrou-a-aposta-diplomatica-ao-receber-maduro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-dobrou-a-aposta-diplomatica-ao-receber-maduro\/","title":{"rendered":"Lula dobrou a aposta diplom\u00e1tica ao receber Maduro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Classificou seu encontro como um &#8220;momento hist\u00f3rico&#8221;: \u00e9 inconceb\u00edvel n\u00e3o manter rela\u00e7\u00f5es com um pa\u00eds vizinho, com o qual tem uma fronteira de 2.220km e muitos interesses econ\u00f4micos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um pressuposto de pol\u00edticas externas bem-sucedidas \u00e9 o relativo consenso nacional em torno delas. O ex-presidente Jair Bolsonaro caiu num profundo isolamento internacional por causa do seu alinhamento com os l\u00edderes de extrema-direita na pol\u00edtica mundial, sem que houvesse massa cr\u00edtica nas elites brasileiras para esse posicionamento. Ainda que os interesses do agroneg\u00f3cio o obrigassem a um giro de reaproxima\u00e7\u00e3o com a China, em guerra comercial com os Estados Unidos, o ponto de inflex\u00e3o de sua pol\u00edtica externa foi a elei\u00e7\u00e3o do presidente Joe Biden. Com a derrota de Donald Trump, Bolsonaro ficou sem seu principal aliado. O isolamento internacional foi uma das causas de sua derrota e da frustra\u00e7\u00e3o de suas inten\u00e7\u00f5es golpistas.<\/p>\n<p>Na campanha eleitoral, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula das Silva teve no presidente Joe Biden o seu principal aliado na pol\u00edtica internacional, uma vari\u00e1vel importante para a garantia de sua posse. Embora existam contradi\u00e7\u00f5es entre os militares brasileiros e os Estados Unidos, nossas For\u00e7as Armadas mant\u00eam estreita colabora\u00e7\u00e3o com suas cong\u00eaneres dos Estados Unidos, Inglaterra e Fran\u00e7a. A coopera\u00e7\u00e3o militar com a R\u00fassia e a China n\u00e3o tem grande express\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que acontece com a Venezuela, que acumula farto material b\u00e9lico de origem russa, chinesa e iraniana.<\/p>\n<p>Ontem, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva recebeu o presidente da Venezuela, N\u00edcolas Maduro, com tapete vermelho, nos dois sentidos. Hiperinfla\u00e7\u00e3o, emigra\u00e7\u00e3o em massa e um governo paralelo n\u00e3o foram suficientes para apear Maduro do poder. O presidente venezuelano sobreviveu \u00e0 crise de 2019 por duas raz\u00f5es: seus generais convenceram Bolsonaro a n\u00e3o participar de uma aventura militar, em apoio \u00e0 aventada interven\u00e7\u00e3o norte-americana no pa\u00eds vizinho; e o presidente russo Vladimir Putin equipou as For\u00e7as Armadas venezuelanas com armamentos que desequilibraram a correla\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gico-militar regional.<\/p>\n<p>A R\u00fassia vendeu mais de US$ 11,4 bilh\u00f5es em equipamento militar para a Venezuela nos \u00faltimos 20 anos, incluindo ca\u00e7as, helic\u00f3pteros de ataque e transporte, defesa a\u00e9rea e plataformas navais, tanques, ve\u00edculos blindados de transporte de pessoal (APC), artilharia autopropulsada e m\u00edsseis terra-ar. Pululam instrutores militares cubanos. A China se concentrou no apoio pol\u00edtico e econ\u00f4mico fornecido \u00e0 Venezuela, incluindo coopera\u00e7\u00e3o estreita em energia, ind\u00fastria, sa\u00fade, finan\u00e7as e com\u00e9rcio. Entretanto, desde 1999, o 76\u00ba Grupo do Ex\u00e9rcito do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Povo Chin\u00eas (PLA) realiza treinamento conjunto com as For\u00e7as Especiais venezuelanas.<\/p>\n<p><strong>Linha divis\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Lula classificou seu encontro com Maduro como um &#8220;momento hist\u00f3rico&#8221;. Tem raz\u00e3o quando argumenta que \u00e9 inconceb\u00edvel n\u00e3o manter rela\u00e7\u00f5es com um pa\u00eds vizinho, com o qual tem uma fronteira de 2.220km e muitos interesses econ\u00f4micos. \u00c9 um esfor\u00e7o para recuperar mercado para a ind\u00fastria brasileira, ocupado pelos chineses. Mas classificar como preconceito as cr\u00edticas ao regime venezuelano \u00e9 um erro pol\u00edtico. &#8220;Acho que cabe \u00e0 Venezuela mostrar a sua narrativa, para que possa efetivamente fazer pessoas mudarem de opini\u00e3o. [&#8230;] \u00c9 preciso que voc\u00ea construa a sua narrativa, e eu acho que por tudo que conversamos, a sua narrativa vai ser melhor do que a narrativa que eles t\u00eam contado contra voc\u00ea&#8221;, disse Lula. O problema da Venezuela n\u00e3o \u00e9 a narrativa; s\u00e3o as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e a falta de elei\u00e7\u00f5es livres e limpas.<\/p>\n<p>Ontem, a prop\u00f3sito da coluna publicada no domingo, o professor Darc Costa, presidente das C\u00e2maras de Com\u00e9rcio Brasil-Venezuela e da Federa\u00e7\u00e3o das C\u00e2maras de Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Sul, argumentou que a pol\u00edtica externa brasileira deve projetar o que chamou de Ocidente Profundo. &#8220;N\u00e3o do Ocidente vindo da barb\u00e1rie, que habitava al\u00e9m das muralhas de Adriano, somos filhos da Ib\u00e9ria, a regi\u00e3o mais Ocidental do Imp\u00e9rio Romano&#8221;. Segundo ele, &#8220;Ocidente coletivo&#8221;, com a inclus\u00e3o do Jap\u00e3o, Taiwan e Coreia do Sul, \u00e9 um conceito muito amplo, que inclui qualquer alian\u00e7a. &#8220;Qual o nosso lugar? Este enigma est\u00e1 longe de ser decifrado e qualquer alinhamento agora \u00e9 precipitado. Celso Amorim e o Itamaraty sabem disso&#8221;, argumenta Costa.<\/p>\n<p>Feita a ressalva, volto \u00e0 quest\u00e3o central. O nosso neorrealismo diplom\u00e1tico como doutrina, partindo de nossa posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica na Am\u00e9rica do Sul e no chamado Sul Astral, tem seu valor, mas acontece que houve uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica mundial que n\u00e3o pode ser ignorada. Desde a posse em Washington, em 20 de janeiro de 2021, a pol\u00edtica externa de Biden retoma as alian\u00e7as estrat\u00e9gicas dos Estados Unidos que haviam sido implodidas por Donald Trump (2017-2021). Seu objetivo \u00e9 recolocar o pa\u00eds na &#8220;posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a confiante&#8221; das demais democracias do mundo contempor\u00e2neo, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 China.<\/p>\n<p>Esse reposicionamento de Washington foi o maior obst\u00e1culo diplom\u00e1tico enfrentado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. E pode igualmente neutralizar a pol\u00edtica externa de Lula. Uma aproxima\u00e7\u00e3o exagerada com a R\u00fassia e a China n\u00e3o tem a mesma sustenta\u00e7\u00e3o interna do regime de Maduro. Velha estrat\u00e9gia de Zbigniew Brzezinski, a expans\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) at\u00e9 a fronteira com a R\u00fassia, acompanhando a amplia\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, est\u00e1 praticamente consumada com a Guerra da Ucr\u00e2nia. A Europa \u00e9 a porta de entrada dos Estados Unidos na Eur\u00e1sia, e a Otan, o instrumento militar para isso. A R\u00fassia \u00e9 seu maior obst\u00e1culo. A prop\u00f3sito, a expans\u00e3o da OTAN para o Atl\u00e2ntico Sul, desde a Guerra das Malvinas, seria mera formalidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Classificou seu encontro como um &#8220;momento hist\u00f3rico&#8221;: \u00e9 inconceb\u00edvel n\u00e3o manter rela\u00e7\u00f5es com um pa\u00eds vizinho, com o qual tem uma fronteira de 2.220km e muitos interesses econ\u00f4micos Um pressuposto de pol\u00edticas externas bem-sucedidas \u00e9 o relativo consenso nacional em torno delas. 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