{"id":7926,"date":"2023-05-31T09:13:41","date_gmt":"2023-05-31T12:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7926"},"modified":"2023-05-31T09:28:13","modified_gmt":"2023-05-31T12:28:13","slug":"lacalle-boric-deixaram-lula-numa-saia-justa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lacalle-boric-deixaram-lula-numa-saia-justa\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Lacalle e Boric deixaram Lula numa saia justa"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Ao tratar o regime autorit\u00e1rio da Venezuela como uma &#8220;narrativa&#8221;, o que colocou a democracia em segundo plano, Lula desnudou o ponto fraco de sua pol\u00edtica externa: afastar o Brasil dos EUA<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter cuidado para n\u00e3o jogar a crian\u00e7a fora com a \u00e1gua da bacia. A reuni\u00e3o dos presidentes sul-americanos, oito anos ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas (Unasul), ontem, em Bras\u00edlia, foi um passo importante para a integra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do subcontinente, num momento de reestrutura\u00e7\u00e3o das cadeias globais de valor e de uma mudan\u00e7a importante na conjuntura pol\u00edtica mundial, na qual a centralidade da democracia est\u00e1 se impondo no Ocidente.<\/p>\n<p>O erro pol\u00edtico do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao tratar o regime autorit\u00e1rio da Venezuela como uma &#8220;narrativa&#8221;, o que colocou a democracia em segundo plano, ofuscou a relev\u00e2ncia do encontro e desnudou o ponto fraco de sua pol\u00edtica externa: a busca de alian\u00e7as que podem afastar o Brasil dos Estados Unidos. Os presidentes do Uruguai, o conservador Luis Lacalle Pou, e do Chile, Gabriel Boric, de esquerda, criticaram a fala de Lula e, duramente, a falta de democracia e viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos na Venezuela.<\/p>\n<p>Lacalle Pou aproveitou o desgaste de Lula e rejeitou a retomada de institui\u00e7\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o regional como a Unasul, criada em 2008, quando os ventos pol\u00edticos no continente sopravam para a esquerda. &#8220;Precisamos parar com essa tend\u00eancia de criar organiza\u00e7\u00f5es, vamos \u00e0 a\u00e7\u00e3o&#8221;, declarou. Lula havia proposto reorganizar a organiza\u00e7\u00e3o na abertura do encontro. O uruguaio registrou em v\u00eddeo seu discurso e divulgou nas redes sociais, quebrando um acordo de que a discuss\u00e3o entre os presidentes seria a porta fechadas.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o negativa foi imediata e fragilizou Lula. Lacalle Pou fora muito contundente: &#8220;Ora, se h\u00e1 tantos grupos no mundo que est\u00e3o tratando de mediar para que a democracia seja plena na Venezuela, para que se respeitem os direitos humanos, para que n\u00e3o haja presos pol\u00edticos, o pior que podemos fazer \u00e9 tapar o sol com a m\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a abertura, foi a vez de Gabriel Boric roubar a cena. Defendeu o reingresso da Venezuela nos encontros multilaterais, mas criticou a fala de Lula sobre o regime de Maduro. O presidente chileno, em entrevista nos jardins do Itamaraty, revelou o teor de sua interven\u00e7\u00e3o na reuni\u00e3o: &#8220;Manifestei, respeitosamente, que tenho uma discord\u00e2ncia com o presidente Lula quando ele diz que a situa\u00e7\u00e3o dos direitos humanos na Venezuela \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o narrativa. N\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o narrativa. \u00c9 uma realidade s\u00e9ria&#8221;. Cobrou &#8220;uma posi\u00e7\u00e3o firme e clara de que os direitos humanos sejam respeitados sempre e em todos os lugares, independentemente do vi\u00e9s pol\u00edtico do governante de plant\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Depois do encontro, em coletiva, Lula minimizou o desgaste, ao ser questionado sobre as cr\u00edticas dos colegas ao regime e ao presidente venezuelano. &#8220;O Maduro faz parte deste continente. Houve muito respeito com a participa\u00e7\u00e3o do Maduro. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a concordar com ningu\u00e9m. \u00c9 assim que a gente vai fazendo&#8221;, respondeu. &#8220;O fato de ter dois presidentes que n\u00e3o concordaram, n\u00e3o sei em que jornal eles leram. Eu disse que, aqui, n\u00e3o foi convocada uma reuni\u00e3o de amigos do Lula. Foi convocada uma reuni\u00e3o de presidentes para construir um \u00f3rg\u00e3o dos pa\u00edses&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Integra\u00e7\u00e3o regionali<\/strong><\/p>\n<p>A reuni\u00e3o convocada por Lula n\u00e3o deixa de ser um \u00eaxito da diplomacia brasileira. Al\u00e9m de Maduro, Lacalle e Boric, participam do encontro o presidente da Argentina, Alberto Fernand\u00e9z; da Bol\u00edvia, Lu\u00eds Arce; da Col\u00f4mbia, Gustavo Petro; do Equador, Guillermo Lasso; da Guiana, Irfaan Ali; do Paraguai, M\u00e1rio Abdo Ben\u00edtez; e do Suriname, Chan Santokhi. A presidente do Peru, Dina Boluarte, que vive uma crise institucional, foi representado pelo presidente do Conselho de Ministros, Alberto Ot\u00e1rola.<\/p>\n<p>No encerramento, Lula fez um apelo aos demais presidentes: &#8220;Deixamos que as ideologias nos dividissem e interrompessem o esfor\u00e7o da integra\u00e7\u00e3o. Abandonamos canais de di\u00e1logo e mecanismos de coopera\u00e7\u00e3o e, com isso, todos perdemos&#8221;, afirmou. Ficou acordado que em 120 dias ser\u00e1 discutido um roteiro para a integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, cujos pa\u00edses vivem uma situa\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 do Brasil. Est\u00e3o na esfera de influ\u00eancia geopol\u00edtica dos Estados Unidos, com exce\u00e7\u00e3o da Venezuela, mas t\u00eam como principal parceiro comercial a China.<\/p>\n<p>Os maiores parceiros comerciais de Pequim na Am\u00e9rica do Sul s\u00e3o o Brasil e o Chile, onde a balan\u00e7a comercial suplanta a dos EUA duas vezes. A seguir v\u00eam Peru, Argentina, Uruguai e Venezuela. Somente na Col\u00f4mbia o com\u00e9rcio com Washington suplanta o chin\u00eas.<\/p>\n<p>A proposta de Lula de criar um mercado integrado de 450 milh\u00f5es de pessoas, com uma moeda unificada, a exemplo do que fez a Uni\u00e3o Europeia (UE), n\u00e3o agrada nem um pouco aos EUA, porque seguramente seria lastreada principalmente no yuan e enfraqueceria o d\u00f3lar.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da China na Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma realidade. Ao contr\u00e1rio das empresas norte-americanas, as chinesas n\u00e3o t\u00eam medo de economias ca\u00f3ticas e buscam oportunidades como as encontradas na prov\u00edncia argentina Jujuy, a 900km de Buenos Aires, com quase 800 mil habitantes. O l\u00edtio de suas salinas brancas \u00e9 mais f\u00e1cil de ser explorado do que na Bol\u00edvia e no Peru.<\/p>\n<p>A oeste, a estrada que cruza a prov\u00edncia, constru\u00edda pelos chineses, atravessa os Andes at\u00e9 o Chile e chega ao Pac\u00edfico. A leste, liga a Argentina ao Paraguai e, depois, ao Brasil. Entretanto, os EUA est\u00e3o desvinculando suas cadeias de valor da China para criar cadeias regionais, principalmente de produtos eletr\u00f4nicos e semicondutores. \u00c9 uma briga de cachorro grande, mas n\u00e3o deixa de ser uma oportunidade para a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><b>Em tempo: <\/b><i>As agress\u00f5es a jornalistas por parte de seguran\u00e7as de Maduro e brasileiros, entre as quais a veterana rep\u00f3rter da Globo Delis Ortiz, muito experiente em coberturas presidenciais no Brasil e no exterior, s\u00e3o inadmiss\u00edveis, ainda mais no Itamaraty. Mostram a cara do regime venezuelano e desgastam ainda mais o governo Lula.\u00a0<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao tratar o regime autorit\u00e1rio da Venezuela como uma &#8220;narrativa&#8221;, o que colocou a democracia em segundo plano, Lula desnudou o ponto fraco de sua pol\u00edtica externa: afastar o Brasil dos EUA \u00c9 preciso ter cuidado para n\u00e3o jogar a crian\u00e7a fora com a \u00e1gua da bacia. 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