{"id":7940,"date":"2023-06-06T07:40:33","date_gmt":"2023-06-06T10:40:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7940"},"modified":"2023-06-06T07:40:33","modified_gmt":"2023-06-06T10:40:33","slug":"nas-entrelinhas-o-que-os-ambientalistas-devem-aprender-com-os-ruralistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-que-os-ambientalistas-devem-aprender-com-os-ruralistas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O que os ambientalistas devem aprender com os ruralistas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O lobby dos ruralistas, o atraso do agroneg\u00f3cio, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas ambientais \u00e9 muito mais eficiente. Mesmo havendo um novo governo que promove radical mudan\u00e7a na pol\u00edtica ambiental<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No livro L\u00f3gica da A\u00e7\u00e3o Coletiva (Edusp), o economista Mancur Olson explica o comportamento de indiv\u00edduos racionais que se associam para a obten\u00e7\u00e3o de algum benef\u00edcio coletivo na democracia. Sua pretens\u00e3o foi apresentar uma alternativa \u00e0 teoria sociol\u00f3gica tradicional dos grupos sociais, que j\u00e1 n\u00e3o dava resposta \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es entre os governos e os cidad\u00e3os na sociedade norte-americana. Estamos falando na d\u00e9cada de 1960. Sua conclus\u00e3o principal foi de que &#8220;quando maior for o grupo, menos intensa ser\u00e1 a defesa de seus interesses comuns&#8221;, o que parece ser um contrassenso.<\/p>\n<p>Macul considerou os benef\u00edcios coletivos como uma esp\u00e9cie de &#8220;benef\u00edcio invis\u00edvel&#8221;, que se transforma em benef\u00edcio individual e, depois de obtido, n\u00e3o pode ser negado a ningu\u00e9m, mesmo que n\u00e3o tenha participado da luta para conquist\u00e1-lo. Ou seja, um bem p\u00fablico. Do ponto de vista da racionalidade coletiva, todos ganhariam caso houvesse uma coopera\u00e7\u00e3o integral. Por\u00e9m, a racionalidade individual proporciona a recompensa mais vantajosa para quem se omite, independentemente de os outros membros do grupo cooperarem ou deixarem de cooperar, porque receber\u00e1 os mesmos benef\u00edcios.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos o que acontece com a quest\u00e3o ambiental. Todo mundo sabe que o aquecimento global \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia da humanidade e que conter o desmatamento \u00e9 o meio mais barato e r\u00e1pido de refre\u00e1-lo. \u00c9 isso que faz da Amaz\u00f4nia a vedete mundial da quest\u00e3o ambiental. O impacto de uma pol\u00edtica de desmatamento zero na conten\u00e7\u00e3o do aquecimento global a curto prazo \u00e9 muito maior e mais barato do que a convers\u00e3o da economia do carbono em economia verde.<\/p>\n<p>No momento, isso \u00e9 tudo que os governos das economias mais desenvolvidas desejam para fazer essa convers\u00e3o. No Brasil, a transi\u00e7\u00e3o seria at\u00e9 mais f\u00e1cil, porque a nossa matriz energ\u00e9tica \u00e9 predominantemente renov\u00e1vel e ainda temos a possibilidade de produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edvel em grande escala. Ocorre que a &#8220;m\u00e3o invis\u00edvel&#8221; do mercado, que resulta do auto-interesse social, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, produz resultados desastrosos para o coletivo. Reciclar, utilizar produtos reaproveit\u00e1veis, n\u00e3o desperdi\u00e7ar, ou seja, adotar h\u00e1bitos ecologicamente sustent\u00e1veis no dia a dia \u00e9 muito bonito e tem apoio de todo mundo, principalmente quando praticado pelos outros.<\/p>\n<p>Mas esse n\u00e3o \u00e9 um dilema s\u00f3 nosso, \u00e9 um problema das democracias ocidentais. Grupos pequenos, com interesses concentrados, podem obter resultados mais robustos do que grupos maiores cujos interesses sejam difusos. A ultrapassagem da sociedade industrial, de certa forma, confirmou essa teoria, porque a representa\u00e7\u00e3o de classes sociais se enfraqueceu, como acontece, por exemplo, com sindicatos outrora muito poderosos, a exemplo de banc\u00e1rios e metal\u00fargicos, enquanto os grupos de press\u00e3o por interesses afins, organizados em redes sociais, se fortaleceram e s\u00e3o mais eficazes.<\/p>\n<p>O lobby dos ruralistas, o setor mais atrasado do agroneg\u00f3cio, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas ambientais \u00e9 muito mais eficiente do que o dos ambientalistas. Mesmo havendo um novo governo que promove radical mudan\u00e7a na pol\u00edtica ambiental, como ficou demonstrado, nesta segunda-feira, Dia do Meio Ambiente, pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, ao lado das ministras do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Ind\u00edgenas, S\u00f4nia Guajajara. O atual Congresso barra qualquer lei que possa fazer o agroneg\u00f3cio se sentir amea\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>Efici\u00eancia concentrada<\/strong><\/p>\n<p>Sua frente parlamentar que \u00e9 desproporcional em rela\u00e7\u00e3o ao seu peso eleitoral e muito mais competente na atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do que os ambientalistas. A atua\u00e7\u00e3o dos agentes penitenci\u00e1rios da Calif\u00f3rnia serve de paradigma para entender o poder de press\u00e3o dos ruralistas no Congresso. Nos anos 1970, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Guardas Penitenci\u00e1rios da Calif\u00f3rnia, Don Novey, classificava como a miss\u00e3o mais dif\u00edcil do Estado cuidar de 36 mil prisioneiros. O lobby funcionava porque Novey construiu uma narrativa de combate \u00e0 viol\u00eancia e organizou grupos de defesa de suas v\u00edtimas, recebendo maci\u00e7o apoio dos republicanos.<\/p>\n<p>Em 2002, a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria era de 130 mil detentos e o n\u00famero de agentes penitenci\u00e1rios havia saltado de 2,6 mil para 31 mil. Havia 21 novos pres\u00eddios, os sal\u00e1rios dos guardas ultrapassavam US$ 100 mil por ano, com direito a aposentadoria aos 50 anos, com 90% dos rendimentos. O segredo foi uma alian\u00e7a com legisladores conservadores e construtores de pres\u00eddios, que resultou na aprova\u00e7\u00e3o da &#8220;Three strikes&#8221; (Tr\u00eas Delitos &#8211; Tr\u00eas Golpes), em 1994. A lei segundo a qual quem tivesse sido condenado por dois delitos e cometido um terceiro, violento ou n\u00e3o, poderia ser condenado de 25 anos \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>Os guardas penitenci\u00e1rios californianos n\u00e3o formavam uma base eleitoral de grande express\u00e3o, mas eram capazes de desequilibrar as disputas eleitorais por meio do financiamento eleitoral e do ataque aos parlamentares que defendiam os direitos humanos. Quem n\u00e3o apoiasse suas teses, veria o dinheiro fluir para o advers\u00e1rio na campanha eleitoral. Entretanto, diante da explos\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, h\u00e1 10 anos o governo da Calif\u00f3rnia reagiu, e essa lei acabou sendo abrandada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lobby dos ruralistas, o atraso do agroneg\u00f3cio, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pautas ambientais \u00e9 muito mais eficiente. 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