{"id":7971,"date":"2023-06-18T09:12:13","date_gmt":"2023-06-18T12:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=7971"},"modified":"2023-06-18T09:40:01","modified_gmt":"2023-06-18T12:40:01","slug":"nas-entrelinhas-o-8-de-janeiro-foi-muito-alem-da-invasao-dos-palacios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-8-de-janeiro-foi-muito-alem-da-invasao-dos-palacios\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O 8 de janeiro foi muito al\u00e9m da invas\u00e3o dos pal\u00e1cios"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O plano come\u00e7ou a ser arquitetado em outubro de 2022, com a tese de que as For\u00e7as Armadas seriam o &#8220;poder moderador&#8221;, que resolveria os conflito entre os Poderes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c0s seis em ponto da tarde de 23 de fevereiro de 1981 come\u00e7ava a vota\u00e7\u00e3o nominal para a investidura de Leopoldo Calvo-Sotelo como presidente do governo da Espanha. Cerca de 20 minutos depois, um grupo de guardas civis, encabe\u00e7ado pelo tenente-coronel Antonio Tejero Molina, irrompeu no plen\u00e1rio do Congresso espanhol. &#8220;Quieto todo el mundo!&#8221;, gritou Molina, e mandou que se deitassem no ch\u00e3o. Ali presente, o vice-presidente do governo, o general Guti\u00e9rrez Mellado, repreendeu-o e ordenou que os invasores depusessem as armas. A resposta foi uma rajada de carabinas. Tudo sendo filmado para o mundo.<\/p>\n<p>Pouco depois, sublevou-se em Val\u00eancia o comandante da II Regi\u00e3o Militar, general Jaime Milans del Busch, que declarou &#8220;estado de exce\u00e7\u00e3o&#8221; e p\u00f4s nas ruas algumas companhias de blindados. \u00c0s nove da noite, o Minist\u00e9rio do interior informava a forma\u00e7\u00e3o de um governo provis\u00f3rio. \u00c0 meia-noite, o subchefe de Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, general Alfonso Almada, apresentou-se com duplo objetivo: convencer o tenente-coronel Tejero a depor as armas e assumir ele pr\u00f3prio o papel de chefe do Governo, sob as ordens do rei, em atitude claramente anticonstitucional.<\/p>\n<p>Os principais l\u00edderes pol\u00edticos do pa\u00eds, entre os quais Suarez Gonz\u00e1les, ainda presidente; Felipe Gonzales, o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o; e Santiago Carrillo, l\u00edder do Partido Comunista, eram ref\u00e9ns dos invasores. No entanto, para Molina, Almada n\u00e3o era a &#8220;autoridade competente&#8221; esperada e foi despachado. O plano come\u00e7ou a fracassar quando o general de divis\u00e3o Torres Rojas, governador da Corunha, foi impedido de mobilizar a Divis\u00e3o Coura\u00e7ada Brunete pelo seu comandante, general Juste.<\/p>\n<p>A virada se deu uma hora depois, quando o rei Juan Carlos I, vestindo o uniforme de capit\u00e3o-general, condenou o golpe e ordenou que as For\u00e7as Armadas voltassem aos quart\u00e9is, num pronunciamento pela tev\u00ea espanhola. Mais tarde, o Conselho Supremo da Justi\u00e7a Militar viria a condenar 29 oficiais golpistas. Molina, Bosch e Almada receberam penas de 30 anos. At\u00e9 hoje, ningu\u00e9m sabe qual dos tr\u00eas ou se um quarto elemento seria o &#8220;Elefante Branco&#8221;, o chefe da conspira\u00e7\u00e3o. O general Rojas foi condenado a 12 anos e, depois, indultado.<\/p>\n<p>\u00c9 muito grave o envolvimento do coronel Jean Lawand Junior, ent\u00e3o subchefe do estado-maior do Ex\u00e9rcito, na conspira\u00e7\u00e3o para destituir o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que resultou na invas\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), em 8 de janeiro.<\/p>\n<p>As mensagens trocadas entre o ajudante de ordens do presidente Jair Bolsonaro, coronel Mauro Cid, e Lawand mostram que a escalada golpista estava bastante avan\u00e7ada e havia de fato uma conex\u00e3o com outros oficiais da ativa, comandantes de tropas, que precisa ser investigada. Quando nada porque temos um hist\u00f3rico de rebeli\u00f5es militares lideradas por oficiais, de tenentes a coron\u00e9is, sem falar em generais. Lawand seria o pr\u00f3ximo adido militar adjunto em Washington (EUA).<\/p>\n<p><strong>Narrativa golpista<\/strong><\/p>\n<p>O que ocorreu na Espanha serve de exemplo. \u00c9 preciso identificar e punir os golpistas, exemplarmente. O relat\u00f3rio da PF sobre o envolvimento de Mauro Cid na conspira\u00e7\u00e3o golpista teve o sigilo retirado pelo ministro Alexandre de Moraes, relator das investiga\u00e7\u00f5es no Supremo. As revela\u00e7\u00f5es s\u00e3o estarrecedoras. Na documenta\u00e7\u00e3o armazenado no celular, as justificativas para decretar a GLO, autorizar estado de s\u00edtio e afastar ministros do STF s\u00e3o as mesmas usadas na campanha de Bolsonaro, para defender a anula\u00e7\u00e3o do resultado do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O roteiro do golpe era coerente com a narrativa de que o resultado das elei\u00e7\u00f5es foi alterado por decis\u00f5es do Judici\u00e1rio. De posse das informa\u00e7\u00f5es, os comandantes militares deveriam nomear um interventor com plenos poderes, que poderia anular a elei\u00e7\u00e3o de Lula. O plano come\u00e7ou a ser arquitetado em 25 de outubro de 2022, \u00e0s v\u00e9speras do segundo turno, com o argumento de que as For\u00e7as Armadas seriam o &#8220;poder moderador&#8221;, que resolveria os conflito entre os Tr\u00eas Poderes.<\/p>\n<p>A tese fora defendida em artigos e entrevistas pelo jurista Ives Gandra, ao interpretar o art. 142 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Uma das alega\u00e7\u00f5es para o golpe seria de que medidas dos ministros do Supremo que fazem parte do TSE prejudicaram o pleito. Por conta disso, a trama envolvia o afastamento dos ministros Alexandre de Moraes, C\u00e1rmen L\u00facia e Ricardo Lewandowski. Os substitutos seriam Nunes Marques, Andr\u00e9 Mendon\u00e7a e Dias Toffoli. Supostamente, tudo &#8220;dentro das quatro linhas da Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;, termo muito usado por Bolsonaro e outros militares para criticar decis\u00f5es do STF e do TSE.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o da Pol\u00edcia Federal: &#8220;A an\u00e1lise parcial dos dados armazenados no aparelho telef\u00f4nico pertencente a Mauro Cesar Barbosa Cid evidenciou que o investigado reuniu documentos com o objetivo de obter o suporte &#8216;jur\u00eddico e legal&#8217; para a execu\u00e7\u00e3o de um golpe de Estado&#8221;. Em nota ao Correio, o Ex\u00e9rcito informou que &#8220;opini\u00f5es e coment\u00e1rios pessoais n\u00e3o representam o pensamento da cadeia de comando do Ex\u00e9rcito Brasileiro e tampouco o posicionamento oficial da For\u00e7a&#8221;. Reafirmou que &#8220;prima sempre pela legalidade e pelo respeito aos preceitos constitucionais&#8221;, como institui\u00e7\u00e3o de estado, apartid\u00e1ria.<\/p>\n<p>A defesa de Bolsonaro tenta fazer do lim\u00e3o uma limonada: os di\u00e1logos comprovariam &#8220;que o presidente Bolsonaro jamais participou de qualquer conversa sobre um suposto golpe de Estado&#8221;. Nesse sentido, digamos, sua viagem aos Estados Unidos, dois dias antes da posse de Lula, foi providencial. Na verdade, fora sido convencido a n\u00e3o assinar o famoso decreto de interven\u00e7\u00e3o no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e cair fora do pa\u00eds por alguns ministros palacianos, que n\u00e3o estavam na conspira\u00e7\u00e3o golpista. Mas havia generais no Pal\u00e1cio do Planalto que pensavam o contr\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O plano come\u00e7ou a ser arquitetado em outubro de 2022, com a tese de que as For\u00e7as Armadas seriam o &#8220;poder moderador&#8221;, que resolveria os conflito entre os Poderes \u00c0s seis em ponto da tarde de 23 de fevereiro de 1981 come\u00e7ava a vota\u00e7\u00e3o nominal para a investidura de Leopoldo Calvo-Sotelo como presidente do governo da Espanha. 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