{"id":8008,"date":"2023-06-29T08:31:20","date_gmt":"2023-06-29T11:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8008"},"modified":"2023-06-29T08:58:55","modified_gmt":"2023-06-29T11:58:55","slug":"nas-entrelinhas-por-que-sera-que-nossos-jovens-nao-querem-ter-tantos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-por-que-sera-que-nossos-jovens-nao-querem-ter-tantos-filhos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Por que ser\u00e1 que nossos jovens n\u00e3o querem ter tantos filhos?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Os indicadores sociais precisam ser confrontados com os resultados do Censo 2022, principalmente na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na habita\u00e7\u00e3o, nos transportes e na seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No Natal de 1989, a criminalidade nos Estados Unidos atingiu um de seus \u00edndices mais elevados. Nos 15 anos anteriores, havia aumentado 80%. A partir dos anos 1990, come\u00e7ou a cair repentinamente, at\u00e9 atingir patamares equivalentes ao imediato p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial. As explica\u00e7\u00f5es eram as mais diversas: estrat\u00e9gias inovadoras da pol\u00edcia, pris\u00f5es mais seguras, mudan\u00e7as no mercado de drogas, controle de armas, mais pol\u00edcia nas ruas e outras medidas associadas \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, al\u00e9m do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O economista Steven D. Levitt, da Universidade de Chicago, e o jornalista novaiorquino Stephen J Dubner analisaram todas essas hip\u00f3teses, inclusive aquela que atribui a queda da criminalidade ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, no livro Freakonomics, o lado oculto e inesperado que nos afeta (Editora Campus), para concluir que nada disso foi o fator determinante da queda da criminalidade. Embora os velhinhos fossem menos violentos que os norte-americanos mais jovens, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que o fator determinante da redu\u00e7\u00e3o da criminalidade fora a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, porque reduziu drasticamente a popula\u00e7\u00e3o de jovens em situa\u00e7\u00e3o de risco.<\/p>\n<p>Esse direito das mulheres j\u00e1 vigorava em Nova York, Calif\u00f3rnia, Washington, Alasca e Hava\u00ed, por\u00e9m, a Suprema Corte norte-americana, no processo Roe versus Wade, em 1973, legalizara o aborto em todo o territ\u00f3rio dos Estados Unidos. No primeiro ano da nova lei, 750 mil mulheres fizeram aborto nos EUA; em 1980, j\u00e1 eram 1,6 milh\u00e3o, um patamar de um aborto para cada 2,25 nascidos vivos, que se manteve constante. Em um pa\u00eds que tinha 225 milh\u00f5es de habitantes, isso representava um aborto para cada 140 habitantes. At\u00e9 ent\u00e3o, um aborto ilegal em seguran\u00e7a custava em torno de US$ 500. Com a legaliza\u00e7\u00e3o, o custo caiu para US$ 100.<\/p>\n<p>Mulheres com menos de 20 anos, solteiras e pobres passaram a dominar as estat\u00edsticas. A pergunta chave que faziam era: &#8220;Que tipo de futuro essas crian\u00e7as teriam?&#8221;. Com a legaliza\u00e7\u00e3o, ca\u00edram os casos de casamentos for\u00e7ados, infantic\u00eddios e doa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as. Estudos sociol\u00f3gicos tamb\u00e9m mostravam que as crian\u00e7as cujas m\u00e3es tinham esse perfil teriam 50% de possibilidades de viver na mis\u00e9ria, 60% de serem criadas apenas pela m\u00e3e. Isso dobrava o risco de serem atra\u00eddas pela criminalidade, principalmente o tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>A tese de Levit e Dubner \u00e9 muito contestada, s\u00e3o heterodoxos, mas vinculados \u00e0 Escola de Chicago e acusados de &#8220;darwinismo social&#8221;. Entretanto, merecem reflex\u00e3o. Segundo o Censo 2022, a popula\u00e7\u00e3o do Brasil atingiu 203.062.512 pessoas, um aumento de apenas 12,3 milh\u00f5es desde o Censo 2010. Os dados foram divulgados, nesta quarta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). O crescimento m\u00e9dio da popula\u00e7\u00e3o foi de 0,52%, o menor desde 1872, quando do primeiro Censo do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A vida banal<\/strong><\/p>\n<p>Com 84,8 milh\u00f5es de habitantes, a Regi\u00e3o Sudeste tem 41,8% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Na sequ\u00eancia, est\u00e3o Nordeste (26,9%), Sul (14,7%) e Norte (8,5%). A regi\u00e3o menos populosa \u00e9 a Centro-Oeste, com 16,3 milh\u00f5es de habitantes ou 8,02% da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, por\u00e9m cresce \u00e0 taxa m\u00e9dia de 1,2% ao ano, nos \u00faltimos 12 anos. Nordeste e Sudeste cresceram menos do que a m\u00e9dia do Brasil, de 0,52% ao ano.<\/p>\n<p>Esses dados surpreendem e j\u00e1 surgem questionamentos quanto \u00e0 qualidade do Censo, que passou por adiamentos, uma s\u00e9ria crise de financiamento e uma pandemia. Mas refletem uma tend\u00eancia que j\u00e1 havia sido observada em outros pa\u00edses: as novas gera\u00e7\u00f5es t\u00eam menos filhos do que as anteriores, sendo muito frequente a incid\u00eancia de jovens que simplesmente n\u00e3o querem ter filhos.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro s\u00e3o os tr\u00eas estados mais populosos do pa\u00eds e concentram 39,9% da popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o estado de S\u00e3o Paulo, com 44 milh\u00f5es, 420 mil, 459 pessoas recenseadas, com 21%, representa um quinto da popula\u00e7\u00e3o. Na sequ\u00eancia, v\u00eam Bahia, Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul. Os estados da fronteira norte s\u00e3o os menos populosos; Roraima tem a menor popula\u00e7\u00e3o (636.303 habitantes), seguido do Amap\u00e1 e do Acre. O DF e 14 estados tiveram taxas m\u00e9dias de crescimento acima da m\u00e9dia nacional (0,52%) entre 2010 e 2022. Bras\u00edlia passou a ser a terceira cidade do pa\u00eds, com 2,8 milh\u00e3o de habitantes, atr\u00e1s apenas de S\u00e3o Paulo (11,4 milh\u00f5es) e Rio de Janeiro (6,2 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>Salvador (BA) foi a capital com a maior perda de habitantes: redu\u00e7\u00e3o de 258 mil em 12 anos. Em seguida, Natal (RN), Bel\u00e9m (PA) e Porto Alegre (RS), com varia\u00e7\u00e3o negativa de 7%, 6% e 5%, respectivamente. Mas, em n\u00fameros absolutos, o Rio de Janeiro vem em segundo, com queda de 109 mil habitantes. Esses dados s\u00e3o essenciais para as pol\u00edticas p\u00fablicas, cujos indicadores precisam ser confrontados com os resultados do Censo 2022, principalmente na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na habita\u00e7\u00e3o, nos transportes e na seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por que nossos jovens n\u00e3o querem ter tantos filhos? Em que medida a degrada\u00e7\u00e3o da &#8220;vida banal&#8221; das cidades brasileiras, para usar a express\u00e3o do falecido ge\u00f3grafo e professor Milton Santos, com sua inseguran\u00e7a econ\u00f4mica e viol\u00eancia, e os 500 mil abortos\/ano registrados pelo SUS (uma a cada sete mulheres, aos 40 anos, j\u00e1 fez pelo menos um aborto na vida; 52% com menos de 19 anos) est\u00e3o por tr\u00e1s dessas estat\u00edsticas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os indicadores sociais precisam ser confrontados com os resultados do Censo 2022, principalmente na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na habita\u00e7\u00e3o, nos transportes e na seguran\u00e7a p\u00fablica No Natal de 1989, a criminalidade nos Estados Unidos atingiu um de seus \u00edndices mais elevados. Nos 15 anos anteriores, havia aumentado 80%. 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