{"id":804,"date":"2016-09-11T07:18:48","date_gmt":"2016-09-11T10:18:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=804"},"modified":"2016-09-11T07:44:09","modified_gmt":"2016-09-11T10:44:09","slug":"nas-entrelinhas-os-tres-oitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-tres-oitos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Os tr\u00eas oitos"},"content":{"rendered":"<p><em>Fosse Temer um presidente mais rigoroso com a equipe, teria demitido<\/em><br \/>\n<em> o colaborador; fosse o ministro mais coerente com o que pensa, teria pedido demiss\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Tudo o que o presidente Michel Temer n\u00e3o precisa nesta altura do campeonato \u00e9 abrir novas frentes de batalha. N\u00e3o tem for\u00e7a para isso. J\u00e1 enfrenta uma oposi\u00e7\u00e3o encastelada em v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os e empresas federais, que se rearticula a partir dos movimentos sociais para desestabilizar o governo. Mas, para isso, precisa controlar os trapalh\u00f5es de sua equipe, que conseguem adicionar problemas imagin\u00e1rios aos obst\u00e1culos reais, com declara\u00e7\u00f5es infelizes e propostas equivocadas, mas que servem para engrossar o caldo do Fora, Temer!<\/p>\n<p>O governo conta com uma boa equipe econ\u00f4mica, cuja credibilidade depende de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, n\u00e3o fazer pol\u00edtica pr\u00f3pria e aposentar de vez a velha ambi\u00e7\u00e3o de ser candidato a presidente da Rep\u00fablica. Na \u00e1rea pol\u00edtica, re\u00fane um time experiente de articuladores, mas o seu grande trunfo \u00e9 a pr\u00f3pria cancha adquirida nos comandos da C\u00e2mara e do PMDB, tanto que conseguiu a aprova\u00e7\u00e3o do impeachment. Seu problema maior \u00e9 na \u00e1rea social, na qual o vi\u00e9s liberal do governo \u00e9 inequ\u00edvoco. Al\u00e9m da complexidade das nossas desigualdades e iniquidades, a inexperi\u00eancia dos seus ministros no trato com os movimentos sociais pode p\u00f4r tudo a perder. O governo n\u00e3o pode ser o fator a unir e organizar esses movimentos em torno do PT.<\/p>\n<p>\u00c9 o que fez o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira. Na quinta-feira, durante encontro com sindicalistas em Bras\u00edlia, afirmou que a proposta de reforma trabalhista que ser\u00e1 encaminhada ao Congresso at\u00e9 o fim deste ano vai oficializar a carga hor\u00e1ria di\u00e1ria de at\u00e9 12 horas, desde que o trabalhador n\u00e3o exceda o limite de 48 horas semanais. Foi o que bastou para o PT abrir novamente as baterias contra Temer e as centrais sindicais se unirem, amea\u00e7ando convocar uma greve geral. A trapalhada foi uma boia para os sindicalistas do PT, que andam em baixa nos sindicatos, por causa fraudes praticadas por integrantes da legenda nos fundos de pens\u00e3o e nos empr\u00e9stimos consignados de aposentados, sem falar na roubalheira da Petrobras, que levantam suspeitas dos trabalhadores de que o mesmo acontece nas entidades classistas, como denunciam as oposi\u00e7\u00f5es sindicais.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve discuss\u00e3o no governo sobre a proposta, muito menos com os partidos que integram a coaliz\u00e3o. E o ministro se viu obrigado a engolir as pr\u00f3prias palavras e desmentir o que disse, em nota oficial. Fosse Temer um presidente mais rigoroso com a equipe, teria demitido o colaborador; fosse o ministro um sujeito mais coerente com o que pensa, teria pedido demiss\u00e3o. Barbosa foi indicado para o cargo pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, porque apoia a reforma trabalhista, por\u00e9m, \u00e9 um ne\u00f3fito no assunto.<\/p>\n<p><strong>Baixo clero<\/strong><\/p>\n<p>Ligado \u00e0 Assembleia de Deus, Ronaldo Nogueira \u00e9 pastor evang\u00e9lico e tem forma\u00e7\u00e3o em administra\u00e7\u00e3o de empresas. Ao assumir o primeiro mandato como parlamentar, definiu quatro prioridades: princ\u00edpios morais, habita\u00e7\u00e3o, qualifica\u00e7\u00e3o profissional e o agroneg\u00f3cio. Antes, foi vereador por quatro mandatos em Carazinho (RS), sua cidade natal. Nos seis anos de C\u00e2mara, apresentou duas propostas para \u201cmodernizar\u201d o mundo do trabalho: descontar as faltas das empregadas dom\u00e9sticas dos per\u00edodos de f\u00e9rias e regulamentar a profiss\u00e3o de detetive particular. \u00c9 um digno representante do baixo clero da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>O ministro nunca participou de uma assembleia sindical, nunca foi negociador numa campanha salarial, seja como advogado trabalhista, seja como representante patronal. Foi escolhido para o cargo para barrar as pretens\u00f5es do deputado Paulo Pereira da Silva (SP), presidente do Solidariedade e l\u00edder da For\u00e7a Sindical, que pleiteava o controle do Minist\u00e9rio do Trabalho. Sindicalista casca-grossa, Paulinho saiu na frente ao articular as centrais sindicais contra as reformas da Previd\u00eancia e trabalhista. A declara\u00e7\u00e3o de Nogueira foi mesmo um total disparate: \u201cTem trabalhador que prefere trabalhar um tempo a mais, uns minutos a mais diariamente, e folgar no s\u00e1bado. [&#8230;] O freio ser\u00e1 de 12 horas [de trabalho por dia], inclusive com horas extras. N\u00e3o estou falando de aumentar a jornada di\u00e1ria para 12 horas. A conven\u00e7\u00e3o coletiva vai tratar como as 44 horas semanais ser\u00e3o feitas\u201d, disse.<\/p>\n<p>O m\u00ednimo que o ministro do trabalho deveria saber \u00e9 que a jornada de 8 horas, como reivindica\u00e7\u00e3o, surgiu em 1912, num cartaz da CGT (Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores da Fran\u00e7a), que mostrava os ponteiros de um despertador dividido em tr\u00eas, no qual estava escrito: \u201cN\u00f3s exigimos os tr\u00eas oitos \u2014 oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso\u201d. Foi aprovada ap\u00f3s d\u00e9cadas de revoltas oper\u00e1rias e lutas sindicais, pela Assembleia Nacional Francesa, em 1919. Levou dois anos para ser aplicada e se tornou a principal bandeira do movimento sindical no mundo inteiro. Mais de cem anos depois, mesmo diante da chamada quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial, \u00e9 temer\u00e1rio o governo flexibilizar a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista mexendo com isso. Muito mais importante seriam o contrato coletivo de trabalho e o fim do imposto sindical, preservando a jornada de trabalho de oito horas, o limite de horas extras e o sal\u00e1rio m\u00ednimo. E baixar a bola do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio do Trabalho, que hoje protagoniza a prolifera\u00e7\u00e3o de sindicatos e pelegos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fosse Temer um presidente mais rigoroso com a equipe, teria demitido o colaborador; fosse o ministro mais coerente com o que pensa, teria pedido demiss\u00e3o Tudo o que o presidente Michel Temer n\u00e3o precisa nesta altura do campeonato \u00e9 abrir novas frentes de batalha. N\u00e3o tem for\u00e7a para isso. 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