{"id":8064,"date":"2023-07-16T08:50:12","date_gmt":"2023-07-16T11:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8064"},"modified":"2023-07-16T08:50:12","modified_gmt":"2023-07-16T11:50:12","slug":"nas-entrelinhas-o-iliberalismo-nao-morreu-com-a-inelegibilidade-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-iliberalismo-nao-morreu-com-a-inelegibilidade-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: O iliberalismo n\u00e3o morreu com a inelegibilidade de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>No Brasil, o iliberalismo emergiu com a crise de nossa democracia representativa, cujo descolamento da sociedade ficou evidente nos protestos de 2013. Chegou ao poder no tsunami eleitoral de 2018<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A agenda social-liberal est\u00e1 \u00f3rf\u00e3 no Brasil. Foi substitu\u00edda por um projeto iliberal no mandato de Jair Bolsonaro e ainda n\u00e3o foi plenamente assumida pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, cuja pol\u00edtica tem vi\u00e9s nacional-desenvolvimentista, evidente na pol\u00edtica externa e na pol\u00edtica industrial. Para neutralizar o iliberalismo, a gest\u00e3o de Lula precisaria consolidar outro vi\u00e9s, a de um governo de ampla coaliz\u00e3o democr\u00e1tica, com uma pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o competitiva \u00e0 economia mundial e agenda social universalista, mas com foco nos mais pobres.<\/p>\n<p>Uma terceira alternativa, com esse car\u00e1ter social-liberal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na atual conjuntura, mesmo que alguns desejem, por falta lhe uma lideran\u00e7a de proje\u00e7\u00e3o nacional e base social articulada. Essa disputa est\u00e1 se dando dentro do governo Lula e n\u00e3o fora dele.<\/p>\n<p>O que existe de alternativa de poder fora do governo s\u00e3o lideran\u00e7as que surgiram na aba do chap\u00e9u do ex-presidente Jair Bolsonaro, principal representante do iliberalismo na pol\u00edtica brasileira, porque sua base eleitoral continua influente, articulada e identificada com uma agenda autorit\u00e1ria. Com a inelegibilidade do ex-presidente da Rep\u00fablica, sentenciada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muitos acreditam que a amea\u00e7a \u00e0 democracia deixou de existir. \u00c9 um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>No momento, a mais eloquente demonstra\u00e7\u00e3o de que o projeto iliberal n\u00e3o est\u00e1 morto \u00e9 a quest\u00e3o das escolas c\u00edvico-militares. O governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), liderou o movimento para manuten\u00e7\u00e3o das escolas, depois da manifesta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), pedagogicamente correta, de que esse modelo de escola \u00e9 anacr\u00f4nico e autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Fui aluno de col\u00e9gio militar e sei da import\u00e2ncia de um ensino de qualidade e como \u00e9 preciso que a escola transmita valores corretos para os nossos jovens&#8221;, disse o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro. Hoje, h\u00e1 13 unidades em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Outros doze estados decidiram manter o modelo, na maioria dos quais Bolsonaro venceu as elei\u00e7\u00f5es passadas. H\u00e1 duas raz\u00f5es para isso, uma \u00e9 o comprometimento ideol\u00f3gico com o projeto iliberal, como fica claro nas declara\u00e7\u00f5es do governador paulista; o outro, a press\u00e3o da base eleitoral do ex-chefe do Planalto.<\/p>\n<p>Como na defesa da proibi\u00e7\u00e3o do aborto, da posse de armas e da pena de morte, o senso comum leva muitas pessoas a acreditarem que a forma\u00e7\u00e3o militar nas escolas com fins civis garantir\u00e1 o futuro e a seguran\u00e7a de seus filhos. Quais s\u00e3o os &#8220;valores corretos&#8221;? Os professores de nossas escolas p\u00fablicas n\u00e3o t\u00eam esses valores? \u00c9 preciso a presen\u00e7a de ex-militares nas salas de aula para isso? O principal problema da qualidade das escolas p\u00fablicas s\u00e3o a falta de recursos e a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos professores, de abertura para novos conceitos pedag\u00f3gicos.<\/p>\n<p><strong>Modernidade l\u00edquida<\/strong><\/p>\n<p>O iliberalismo no Brasil n\u00e3o \u00e9 um projeto pol\u00edtico descolado da nossa realidade e do mundo. A revolu\u00e7\u00e3o digital, a crise de representa\u00e7\u00e3o dos partidos e as mudan\u00e7as nos costumes, com o fim da antiga &#8220;sociedade industrial&#8221;, estruturada em classes sociais definidas, geram muita perplexidade e inseguran\u00e7a na sociedade. Na chamada &#8220;modernidade l\u00edquida&#8221;, conceito do soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, principal caracter\u00edstica de nossa \u00e9poca, as rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o &#8220;fr\u00e1geis, fugazes e male\u00e1veis, como os l\u00edquidos&#8221;.<\/p>\n<p>O iliberalismo \u00e9 uma das faces pol\u00edticas dessa nova sociedade. Na &#8220;modernidade l\u00edquida&#8221;, o indiv\u00edduo molda a sociedade \u00e0 sua personalidade, por seu estilo de vida, padr\u00e3o de consumo e comportamento. A mobilidade geogr\u00e1fica \u00e9 muito maior, as migra\u00e7\u00f5es ocorrem por necessidade ou oportunidade, a competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica aumenta, os sal\u00e1rios diminuem, o emprego \u00e9 inseguro, novas profiss\u00f5es surgem e muitas desaparecem. Uma pessoa ter o mesmo emprego por toda a vida \u00e9 quase imposs\u00edvel, exceto para funcion\u00e1rios p\u00fablicos de carreira. E a\u00ed que surge o reacionarismo, o desejo de voltar a um passado idealizado, imagin\u00e1rio, para ter mais seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>E o projeto iliberal? Esse conceito surgiu para caracterizar os movimentos e os partidos que combatem a democracia por dentro. Ganhou muita for\u00e7a no Ocidente durante o governo de Donald Trump, porque chegou ao poder nos Estados Unidos. O que separa a democracia liberal do iliberalismo \u00e9 a falta de respeito pelas institui\u00e7\u00f5es independentes e pelos direitos individuais, principalmente.<\/p>\n<p>No Brasil, o iliberalismo emergiu com a crise de nossa democracia representativa, cujo descolamento da sociedade ficou evidente nos protestos de 2013. Chegou ao poder no tsunami eleitoral de 2018. Em todo o mundo, lideran\u00e7as iliberais combatem os valores democr\u00e1ticos, disputam o poder dentro das regras do jogo e, quando vitoriosos, atuam contra as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. \u00c9 o que ocorre na Hungria, na R\u00fassia e na Turquia; mais recentemente, na It\u00e1lia e na Espanha. E foi o que assistimos nos quatro anos de governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;democracia iliberal&#8221; (&#8220;illiberal democracy&#8221;, em ingl\u00eas) apareceu pela primeira vez em 1997, em um ensaio publicado na revista &#8220;Foreign Affairs&#8221; pelo jornalista e cientista pol\u00edtico americano Farred Zakaria, um cr\u00edtico da cultura de cancelamento na esquerda.<\/p>\n<p>No ensaio, Zakaria chamou de democracias iliberais os &#8220;regimes democraticamente eleitos e com frequ\u00eancia reeleitos ou mantidos no poder por meio de plebiscitos, que ignoram que seus poderes s\u00e3o limitados constitucionalmente e que destituem seus cidad\u00e3os de seus direitos e liberdades b\u00e1sicos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o iliberalismo emergiu com a crise de nossa democracia representativa, cujo descolamento da sociedade ficou evidente nos protestos de 2013. 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