{"id":8089,"date":"2023-07-25T07:05:42","date_gmt":"2023-07-25T10:05:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8089"},"modified":"2023-07-25T07:07:11","modified_gmt":"2023-07-25T10:07:11","slug":"nas-entrelinhas-assassinato-de-marielle-deixou-rastro-e-teve-motivacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-assassinato-de-marielle-deixou-rastro-e-teve-motivacao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Assassinato de Marielle deixou rastro e teve motiva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O caso parece um romance policial noir, com todos os seus ingredientes e personagens emblem\u00e1ticos, que misturam pol\u00edtica, corrup\u00e7\u00e3o, crime organizado e assassinatos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O ministro da Justi\u00e7a, Fl\u00e1vio Dino, anunciou nesta segunda-feira que o ex-policial militar \u00c9lcio Queiroz fez dela\u00e7\u00e3o premiada e confessou sua participa\u00e7\u00e3o no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ). No depoimento, o miliciano carioca revelou que a execu\u00e7\u00e3o foi feita pelo policial militar reformado Ronnie Lessa. \u00c9lcio tamb\u00e9m denunciou a participa\u00e7\u00e3o do ex-bombeiro militar Maxwell Sim\u00f5es Corr\u00eaa, que foi preso pela Pol\u00edcia Federal. Condenado a quatro anos de pris\u00e3o em 2021, por atrapalhar as investiga\u00e7\u00f5es sobre o crime, &#8220;Suel&#8221; cumpria a pena em regime aberto.<\/p>\n<p>R\u00e9u pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, Queiroz foi convencido a fazer colabora\u00e7\u00e3o premiada ap\u00f3s desconfiar de Ronnie Lessa, apontado como seu comparsa no crime. Os dois est\u00e3o presos em Rond\u00f4nia e v\u00e3o a j\u00fari popular pelas execu\u00e7\u00f5es. \u00c9lcio descobriu que Lessa mentiu e, com a quebra da confian\u00e7a, decidiu fazer a dela\u00e7\u00e3o. \u00c9 um caso t\u00edpico de &#8220;dilema do prisioneiro&#8221;, no qual um dos acusados confessa por desconfiar de que ser\u00e1 acusado pelo outro.<\/p>\n<p>O caso Marielle est\u00e1 envolto em mist\u00e9rios desde quando as investiga\u00e7\u00f5es foram iniciadas. Os atuais respons\u00e1veis pela apura\u00e7\u00e3o das mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes afirmam que a investiga\u00e7\u00e3o do caso avan\u00e7ou com a pris\u00e3o de Maxwell, nesta segunda-feira, e com a homologa\u00e7\u00e3o de um acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada com \u00c9lcio Queiroz. De acordo com o diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, Andrei Rodrigues, Suel atuou na &#8220;vigil\u00e2ncia&#8221; e no &#8220;acompanhamento&#8221; da vereadora.<\/p>\n<p>&#8220;Um pacto de sil\u00eancio foi rompido. Estamos buscando e oferecendo repostas de um crime emblem\u00e1tico&#8221;, disse F\u00e1bio Cardoso, promotor de Justi\u00e7a, que participa da investiga\u00e7\u00e3o do caso. N\u00e3o est\u00e1 descartado o envolvimento de outras pessoas no caso, principalmente no \u00e2mbito intelectual do crime. Suel, Queiroz e Lessa faziam parte de um grupo de assassinos de aluguel ligados ao chamado &#8220;Escrit\u00f3rio do Crime&#8221;. Na dela\u00e7\u00e3o premiada, Queiroz disse que o sargento da Pol\u00edcia Militar Edimilson Oliveira da Silva, conhecido como Macal\u00e9 e executado em 2021, foi o intermedi\u00e1rio entre a &#8220;miss\u00e3o&#8221; da execu\u00e7\u00e3o de Marielle e Ronnie Lessa.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos 13 assassinatos em que os integrantes do chamado &#8220;Escrit\u00f3rio do Crime&#8221; s\u00e3o suspeitos de participa\u00e7\u00e3o, entre os quais os de Marielle e Anderson. O grupo de exterm\u00ednio cobrava entre R$ 1 milh\u00e3o e R$ 1,5 milh\u00e3o por execu\u00e7\u00e3o. A vigil\u00e2ncia das v\u00edtimas chegava a durar at\u00e9 sete meses, muitas vezes com uso de drones. O grupo de execu\u00e7\u00e3o era formado por policiais, ex-policiais e milicianos, que foram alvo da Opera\u00e7\u00e3o T\u00e2natos, deflagrada pela Pol\u00edcia Civil e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio de Janeiro (MPRJ) em 2020.<\/p>\n<p>O ex-capit\u00e3o do Bope Adriano Magalh\u00e3es da N\u00f3brega, o Capit\u00e3o Adriano, era apontado como chefe do grupo de exterm\u00ednio. Supostamente, possuiria cerca de 300 im\u00f3veis em Rio das Pedras e Muzema, na Zona Oeste do Rio. Apontado pelo MPRJ como dono da mil\u00edcia da regi\u00e3o, Adriano foi morto em fevereiro de 2020, em um s\u00edtio no interior da Bahia, em confronto com policiais.<\/p>\n<p><em><strong>Mil\u00edcias e rachadinhas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico acusou o miliciano Adriano da N\u00f3brega de fazer parte do esquema da &#8220;rachadinhas&#8221; na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo a investiga\u00e7\u00e3o, em 2007, o ent\u00e3o deputado estadual Fl\u00e1vio Bolsonaro nomeou Danielle Mendon\u00e7a da Costa, mulher do ex-policial militar Adriano, sua assessora parlamentar. O caso se tornou uma dor de cabe\u00e7a para o ent\u00e3o rec\u00e9m-eleito presidente Jair Bolsonaro, mas o caso das &#8220;rachadinhas&#8221; foi arquivado pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Rio em maio deste ano.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a considerou que o processo n\u00e3o deveria estar nas m\u00e3os do juiz que cuidava do caso porque Fl\u00e1vio tem foro privilegiado. A pedido da defesa do senador, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a anulou as decis\u00f5es tomadas pelo juiz Fl\u00e1vio Itabaiana, da 27\u00aa Vara Criminal do Rio de Janeiro, que permitiram a quebra de sigilo banc\u00e1rio e fiscal do parlamentar e de pessoas relacionadas a ele.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal segue o rastro dos assassinos de Marielle e Anderson, mas \u00e9 preciso compreender melhor os motivos para se chegar aos mandantes. Como dizia o escritor norte-americano Raymond Chandler, autor do ensaio sobre literatura policial A simples arte de matar, &#8220;todo crime deixa um rastro e tem uma motiva\u00e7\u00e3o&#8221;. O caso Marielle parece um romance policial noir, com todos os seus ingredientes e personagens emblem\u00e1ticos, que misturam pol\u00edtica, corrup\u00e7\u00e3o, crime organizado e assassinatos.<\/p>\n<p>Em A simples arte de matar (L&amp;PM), Chandler faz uma reflex\u00e3o sobre a literatura policial na qual sua experi\u00eancia de detetive particular o leva \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o existem pessoas boas e inocentes envolvidas no mundo dos crimes, cujos cen\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o palacetes e casas de campo e, sim, ruas, becos e hot\u00e9is duvidosos.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que as investiga\u00e7\u00f5es do assassinato de Marielle e Anderson sempre enfrentaram grandes obst\u00e1culos e se arrastaram, at\u00e9 serem &#8220;congeladas&#8221;, durante o governo Bolsonaro. As investiga\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico fluminense e da Pol\u00edcia Federal retomaram o fio da meada. Vamos ver onde v\u00e3o dar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso parece um romance policial noir, com todos os seus ingredientes e personagens emblem\u00e1ticos, que misturam pol\u00edtica, corrup\u00e7\u00e3o, crime organizado e assassinatos O ministro da Justi\u00e7a, Fl\u00e1vio Dino, anunciou nesta segunda-feira que o ex-policial militar \u00c9lcio Queiroz fez dela\u00e7\u00e3o premiada e confessou sua participa\u00e7\u00e3o no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ). 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