{"id":8113,"date":"2023-08-03T08:01:41","date_gmt":"2023-08-03T11:01:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8113"},"modified":"2023-08-03T08:07:29","modified_gmt":"2023-08-03T11:07:29","slug":"nas-entrelinhas-acoes-policiais-no-rio-e-sao-paulo-lembram-o-esquadrao-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-acoes-policiais-no-rio-e-sao-paulo-lembram-o-esquadrao-da-morte\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A\u00e7\u00f5es policiais no Rio e S\u00e3o Paulo lembram o &#8220;Esquadr\u00e3o da Morte&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Os governadores Cl\u00e1udio Castro (PL) e Tarc\u00edsio de Freitas (PR) endossaram a escalada das a\u00e7\u00f5es policiais como pol\u00edtica de seguran\u00e7a e, simultaneamente, um ativo eleitoral<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como jovem rep\u00f3rter dos jornais O Dia e a Not\u00edcia, no come\u00e7o dos anos 1970, trabalhei na Baixada Fluminense, mais precisamente em Duque de Caxias (RJ). Como esses ve\u00edculos alavancavam suas vendas com not\u00edcias policiais, a sucursal local disputava a manchete do jornal um dia sim e o outro tamb\u00e9m, por causa da viol\u00eancia que existia naquela regi\u00e3o, onde antigos laranjais foram loteados e transformados numa esp\u00e9cie de terra de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O falecido rep\u00f3rter Airton Assis, meu colega, realizava todos os dias uma ronda pelas delegacias da regi\u00e3o, que havia se tornado uma das mais violentas do pa\u00eds. Era raro o dia em que terminava o p\u00e9riplo pelas delegacias dos distritos de Nova Igua\u00e7u, Nil\u00f3polis e S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti sem o registro de um latroc\u00ednio, um feminic\u00eddio ou, principalmente, uma execu\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d agia abertamente. Em Duque de Caxias, cidade do famoso deputado Ten\u00f3rio Cavalcanti, que j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o temido, o delegado Mauro Magalh\u00e3es adotava a pol\u00edtica de registrar as execu\u00e7\u00f5es como leg\u00edtima defesa. Um dos policiais lotados na sua delegacia, conhecido como \u201cJapon\u00eas\u201d, era ex\u00edmio atirador e sempre levava a melhor no \u201cconfronto com os bandidos\u201d, segundo os registros da delegacia.<\/p>\n<p>No 6\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, violent\u00edssimo, o jovem tenente Folly ficara famoso ao executar 12 integrantes de uma quadrilha que havia se refugiado num motel da Rodovia Presidente Dutra ap\u00f3s persegui\u00e7\u00e3o policial e resistira \u00e0 pris\u00e3o. O legista da delegacia, conhecido como Carequinha, era not\u00f3rio necr\u00f3filo.<\/p>\n<p>O \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d surgiu ap\u00f3s a morte do detetive Milton Le Cocq d\u2019Oliveira, ex-integrante da guarda pessoal de Get\u00falio Vargas, reconhecido como investigador capaz de elucidar casos complexos. Morreu em 27 de agosto de 1964, durante confronto com um bandido chamado Cara de Cavalo, o que levou \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de dois mil policiais para ving\u00e1-lo. Cara de Cavalo foi morto com 52 tiros.<\/p>\n<p>A morte de Le Cocq gerou forte rea\u00e7\u00e3o nos meios policiais, que resultou na cria\u00e7\u00e3o da \u201cEscuderia Le Cocq\u201d, cujo s\u00edmbolo era uma caveira de pirata e a sigla E.M. O velho Esquadr\u00e3o Motorizado da Pol\u00edcia Especial inspirou a marca do \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d, cuja assinatura era o grande n\u00famero de tiros durante as execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Bandido morto<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d reproduzia as mesmas pr\u00e1ticas dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o do regime, que ca\u00e7avam e exterminavam oposicionistas, como o ex-deputado Rubens Paiva, cujo corpo nunca apareceu, ou o jornalista Vladimir Herzog. Os policiais agiam com uma esp\u00e9cie de \u201cpoder extralegal\u201d, que n\u00e3o respeitava os direitos humanos, muitas vezes em colabora\u00e7\u00e3o com as ag\u00eancias de repress\u00e3o pol\u00edtica do regime, como era o caso da Oban, do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cBandido bom \u00e9 bandido morto!\u201d, que resumia tudo, seria at\u00e9 o slogan da campanha eleitoral do delegado Jos\u00e9 Guilherme Godinho, o Sivuca, que chegou a se eleger deputado estadual no Rio de Janeiro, no come\u00e7o dos anos 1980. Tamb\u00e9m oriundo da Pol\u00edcia Especial, Sivuca se notabilizou quando o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Lu\u00eds Fran\u00e7a, o convocou para fazer parte do grupo \u201cDoze homens de ouro\u201d, liderado pelo detetive Mariel Mariscot, com o objetivo de \u201climpar a cidade\u201d.<\/p>\n<p>Boa pinta e bon-vivant, Mariel seria expulso da pol\u00edcia e acabou executado, porque resolveu disputar o controle dos pontos de jogo de bicho da regi\u00e3o. Como as mil\u00edcias e policiais corruptos de hoje, envolvera-se com agiotagem, prostitui\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de drogas e execu\u00e7\u00f5es de encomenda. Quando cunhou a frase \u201cBandido \u00e9 bandido, pol\u00edcia \u00e9 pol\u00edcia, como a \u00e1gua e o azeite, n\u00e3o se misturam\u201d, o assaltante de bancos L\u00facio Fl\u00e1vio Vilar L\u00edrio referia-se a Mariel e aos seus achaques, que denunciou. Morreu com 28 facadas no Pres\u00eddio Frei Caneca.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, em S\u00e3o Paulo, presos eram retirados do antigo Pres\u00eddio Tiradentes e executados na periferia. O jurista e promotor de justi\u00e7a H\u00e9lio Pereira Bicudo, que investigou o Esquadr\u00e3o da Morte durante 364 dias, provou a conex\u00e3o entre seus integrantes do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desta quarta-feira, 10 pessoas morreram e cinco ficaram feridas durante uma opera\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias Militar e Civil no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio. Dois feridos s\u00e3o policiais militares do Bope. Em S\u00e3o Paulo, 16 pessoas morreram desde o in\u00edcio da Opera\u00e7\u00e3o Escudo, realizada na Baixada Santista, no litoral de S\u00e3o Paulo, deflagrada na \u00faltima sexta-feira, ap\u00f3s execu\u00e7\u00e3o de um PM da equipe Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) durante patrulhamento. O suposto respons\u00e1vel se entregou \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Os governadores do Rio de Janeiro, Cl\u00e1udio Castro (PL), e de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas (PR), endossaram a escalada das a\u00e7\u00f5es policiais, com a ressalva de que eventuais excessos ser\u00e3o punidos. Na verdade, ambos as veem como pol\u00edtica de seguran\u00e7a e, simultaneamente, ativo eleitoral. Entretanto, o emprego desproporcional da for\u00e7a tem a efic\u00e1cia duvidosa, como demonstrou o \u201cEsquadr\u00e3o da Morte\u201d. \u00a0Como se sabe, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe crime organizado sem conex\u00e3o com agentes do aparelho de Estado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os governadores Cl\u00e1udio Castro (PL) e Tarc\u00edsio de Freitas (PR) endossaram a escalada das a\u00e7\u00f5es policiais como pol\u00edtica de seguran\u00e7a e, simultaneamente, um ativo eleitoral Como jovem rep\u00f3rter dos jornais O Dia e a Not\u00edcia, no come\u00e7o dos anos 1970, trabalhei na Baixada Fluminense, mais precisamente em Duque de Caxias (RJ). 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