{"id":8124,"date":"2023-08-08T07:45:43","date_gmt":"2023-08-08T10:45:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8124"},"modified":"2023-08-08T08:25:49","modified_gmt":"2023-08-08T11:25:49","slug":"nas-entrelinhas-zema-exumou-velhos-sentimentos-preconceituosos-e-separatistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-zema-exumou-velhos-sentimentos-preconceituosos-e-separatistas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Zema exumou velhos sentimentos preconceituosos e separatistas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>H\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o do Sul e do Sudeste contra o Norte e o Nordeste na reforma tribut\u00e1ria, por causa da mudan\u00e7a da arrecada\u00e7\u00e3o de tributos da origem para o destino das mercadorias<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O brasileiro \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o dos mineiros. Seu mito fundador \u00e9 a Inconfid\u00eancia, em 1789, ou seja, vem de antes da Independ\u00eancia, que s\u00f3 viria a ocorrer em 1822, cujos protagonistas se dividiram em dois partidos: o dos brasileiros e o dos portugueses. O Partido dos Brasileiros j\u00e1 nasceu dividido entre democratas, liderado por Gon\u00e7alves Ledo, que defendia um regime parlamentarista, e aristocratas, tendo \u00e0 frente Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, que defendia um Executivo forte, com medo da fragmenta\u00e7\u00e3o territorial.<\/p>\n<p>O risco de fragmenta\u00e7\u00e3o, como aconteceu em toda a Am\u00e9rica Latina, era real. Viria a se expressar com muita for\u00e7a, por exemplo, na Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, em 1824, tendo \u00e0 frente Pernambuco. A rep\u00fablica seria formada tamb\u00e9m pelas prov\u00edncias de Piau\u00ed, Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, Para\u00edba, Sergipe e Alagoas, mas nenhuma delas aderiu ao movimento separatista. E, tamb\u00e9m, na Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha (1835-1845), com a forma\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Rio-Grandense e da Rep\u00fablica Juliana. No primeiro caso, os l\u00edderes foram executados, entre os quais Frei Caneca, arcabuzado; no segundo, os que negociaram a paz foram anistiados e incorporados ao Ex\u00e9rcito, com suas patentes.<\/p>\n<p>Com a dura repress\u00e3o das revoltas, entre as quais a Balaiada (MA) e a Cabanagem (PA), manteve-se a integridade territorial do pa\u00eds e a centraliza\u00e7\u00e3o do poder do imperador Pedro II, para o qual foram fundamentais o Senado, com sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, e a magistratura togada, nomeada pelo Imperador. O Ex\u00e9rcito e a Marinha foram constitu\u00eddos nesse processo. A constru\u00e7\u00e3o da identidade do povo brasileiro, por\u00e9m, foi muito mais lenta, para o qual teve papel decisivo a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930.<\/p>\n<p>Nela, houve choque de concep\u00e7\u00f5es: de um lado, os setores da elite que adotaram as teses de Oliveira Vianna, para o qual as estruturas pol\u00edticas republicanas eram artificiais e o Brasil meridional, liderado pela elite agr\u00e1ria e os militares, seria a matriz da forma\u00e7\u00e3o do novo Estado brasileiro; de outro, setores castilhistas que tinham identidade com as massas trabalhadoras, liderados por Alberto Pasqualini. A elite paulista, com concep\u00e7\u00f5es liberais, tentou retomar o poder em 1932 e fracassou, mas cultivou com \u00eaxito a ideia de que S\u00e3o Paulo \u00e9 a locomotiva do pa\u00eds. O Rio de Janeiro fazia o contraponto, era o &#8220;tambor do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Coube, mais uma vez, aos mineiros, com Juscelino Kubitschek, o projeto de integra\u00e7\u00e3o e combate \u00e0s desigualdades regionais, cujo \u00e2ncora geopol\u00edtica foi a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, para onde foi transferido o Distrito Federal. Essa ideia-for\u00e7a viria a ser a bandeira legitimadora do regime militar, cujo lema era Seguran\u00e7a e Desenvolvimento, uma leitura autocr\u00e1tica do lema positiva da bandeira nacional: Ordem e Progresso.<\/p>\n<p>Mas a ideia de que somos um s\u00f3 povo e uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi monopolizada pelos militares, apesar do Pra frente, Brasil da Copa do M\u00e9xico, em 1970. Na letra de Para Todos, Chico Buarque sintetiza as caracter\u00edsticas do n\u00facleo familiar que resulta do fluxo migrat\u00f3rio, juntamente com a miscigena\u00e7\u00e3o, e sedimenta uni\u00e3o dos brasileiros: &#8220;O meu pai era paulista\/ Meu av\u00f4, pernambucano\/ O meu bisav\u00f4, mineiro\/ Meu tatarav\u00f4, baiano&#8221;. O compositor foi um ferrenho oposicionista ao regime, tendo amargado o ex\u00edlio por causa de suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Federalismo<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o devemos acreditar que as nossas contradi\u00e7\u00f5es regionais e preconceitos \u00e9tnicos e sociais tenham deixado de existir. Em S\u00e3o Paulo, todo nordestino \u00e9 baiano; no Rio, para\u00edba. Todo louro \u00e9 galego ou ga\u00facho; no Araguaia, todo forasteiro era paulista. O governador de Minas, Romeu Zema, com seu sinceric\u00eddio, exumou sentimentos negativos em rela\u00e7\u00e3o ao Nordeste e despertou o ressentimento ideol\u00f3gico dos que venceram as elei\u00e7\u00f5es nos estados do Sul e do Sudeste, mas n\u00e3o reelegeram o ex-presidente Jair Bolsonaro, devido \u00e0 grande vota\u00e7\u00e3o do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no Nordeste. N\u00e3o devemos subestimar as implica\u00e7\u00f5es que isso ter\u00e1 daqui para a frente.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o de governadores do Sul e do Sudeste contra os estados do Norte e Nordeste na reforma tribut\u00e1ria, por causa da mudan\u00e7a da arrecada\u00e7\u00e3o dos tributos da origem para o destino das mercadorias. Essa articula\u00e7\u00e3o foi bem-sucedida na C\u00e2mara, mas est\u00e1 inferiorizada no Senado, no qual a federa\u00e7\u00e3o est\u00e1 representada de forma igualit\u00e1ria: tr\u00eas senadores para cada estado. Celso Furtado, entre os int\u00e9rpretes do Brasil, foi dos mais preocupados com o papel do federalismo. Advertia que essa bandeira estava condenada a reencarnar ciclicamente, em todos os momentos cr\u00edticos, que colocassem em tela o contrato social e a reformula\u00e7\u00e3o do arranjo de poder. A reforma tribut\u00e1ria \u00e9 isso.<\/p>\n<p>Sua grande preocupa\u00e7\u00e3o era arquitetar um &#8220;federalismo regionalizado cooperativo&#8221; como instrumento para impedir a exclus\u00e3o do Nordeste e evitar a implos\u00e3o da na\u00e7\u00e3o pela radicaliza\u00e7\u00e3o de suas disparidades regionais. Com sinal trocado, o hist\u00f3rico unitarismo da esquerda brasileira, desde os antigos PCB e PTB, dificulta esse federalismo cooperativo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o ainda mais s\u00e9ria. Um dos ingredientes da globaliza\u00e7\u00e3o vem sendo o enfraquecimento da identidade nacional e a sua fragmenta\u00e7\u00e3o. O sujeito e a identidade na modernidade tardia e p\u00f3s-moderna foram fragmentados; nas redes sociais, isso \u00e9 evidente. Historicamente, as identidades \u00e9tnicas e regionais foram abrigadas sob o teto do Estado-na\u00e7\u00e3o, numa comunidade est\u00e1vel, com territ\u00f3rio pr\u00f3prio e idioma comum, mas isso est\u00e1 mudando no mundo. A na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, que n\u00e3o pode ser subalternizada por sentimentos culturais e \u00e9tnicos regionais. O que o governador Zema fez foi apartar os brasileiros do Sul e do Sudeste dessa comunidade imagin\u00e1ria. Ser\u00edamos dois Brasis, um moderno, produtivo e autossuficiente; outro atrasado e improdutivo, que precisa ser carregado nas costas. \u00c9 a\u00ed que mora o perigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o do Sul e do Sudeste contra o Norte e o Nordeste na reforma tribut\u00e1ria, por causa da mudan\u00e7a da arrecada\u00e7\u00e3o de tributos da origem para o destino das mercadorias O brasileiro \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o dos mineiros. 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