{"id":8229,"date":"2023-09-07T07:16:31","date_gmt":"2023-09-07T10:16:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8229"},"modified":"2023-09-07T07:16:31","modified_gmt":"2023-09-07T10:16:31","slug":"nas-entrelinhas-o-mito-da-independencia-como-ato-heroico-de-d-pedro-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-mito-da-independencia-como-ato-heroico-de-d-pedro-i\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O mito da Independ\u00eancia como ato heroico de D. Pedro I"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A primeira Constitui\u00e7\u00e3o brasileira foi outorgada por D. Pedro I; era liberal, com sinais trocados: o direito \u00e0 propriedade privada foi assegurado para legitimar a escravid\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No dia 7 de setembro de 1822, o pr\u00edncipe regente Dom Pedro declarou oficialmente a separa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre o Brasil, uma col\u00f4nia, e Portugal. Logo depois, em 12 de outubro de 1822, foi aclamado imperador; em 1\u00ba de dezembro, foi coroado com o t\u00edtulo de D. Pedro I. Por que uma monarquia, e n\u00e3o uma rep\u00fablica, como quase todos os demais pa\u00edses das Am\u00e9ricas?<\/p>\n<p>Por duas raz\u00f5es: havia um projeto de reunifica\u00e7\u00e3o da Coroa portuguesa, sob a lideran\u00e7a de D. Pedro; segundo, um pacto entre os portugueses e os brasileiros para manter a escravid\u00e3o, que os republicanos condenavam doutrinariamente. A Independ\u00eancia foi o desfecho da crise iniciada com a chegada da Corte portuguesa, em 1808, e conclu\u00edda com a primeira Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, em 1824.<\/p>\n<p>O sistema colonial portugu\u00eas havia entrado em crise por causa do monop\u00f3lio comercial e da cobran\u00e7a de altos impostos, num mundo em que o livre com\u00e9rcio era uma bandeira da Inglaterra e outras pot\u00eancias que haviam protagonizado a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e as revolu\u00e7\u00f5es burguesas. Al\u00e9m disso, diversas revoltas internas colocaram na ordem do dia a separa\u00e7\u00e3o de Portugal: a Inconfid\u00eancia Mineira, a Conjura\u00e7\u00e3o Baiana e a Revolta Pernambucana de 1817, que sofreram forte influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e da independ\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A crise se agravou com a Revolu\u00e7\u00e3o Liberal do Porto, em 1820. No ano seguinte, o parlamento portugu\u00eas obrigou D. Jo\u00e3o VI a jurar lealdade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e a voltar para Portugal. Deixou seu filho no Brasil, na condi\u00e7\u00e3o de pr\u00edncipe regente, j\u00e1 pensando na hip\u00f3tese de que conduzisse a separa\u00e7\u00e3o. Quando as Cortes decidiram que deveria voltar a Portugal, D. Pedro se recusou, em 9 de janeiro de 1822, conhecido como o Dia do Fico: &#8220;Se \u00e9 para o bem de todos e felicidade geral da na\u00e7\u00e3o, diga ao povo que fico&#8221;.<\/p>\n<p>Pressionado, D. Pedro escalou o confronto: em 3 de junho de 1822, convocou a primeira Assembleia Constituinte brasileira; em 1\u00ba de agosto, declarou inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil. Logo depois, lan\u00e7ou o Manifesto \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Amigas, no qual rompeu com as Cortes de Lisboa e declarou o Brasil &#8220;reino irm\u00e3o&#8221; de Portugal. A resposta portuguesa foi anular essas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando soube da exig\u00eancia de que voltasse imediatamente para Portugal, Dom Pedro estava em S\u00e3o Paulo, nas proximidades do Rio Ipiranga. Foi ali que proclamou a nossa Independ\u00eancia, num gesto eternizado por Pedro Am\u00e9rico no quadro &#8220;Independ\u00eancia ou Morte&#8221;. A pintura foi conclu\u00edda em 1888. No dia 7 de setembro 1822, o pintor sequer havia nascido.<\/p>\n<p><strong>Constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p>O Grito do Ipiranga deu origem ao mito da Independ\u00eancia como ato heroico de D. Pedro I. Pedro Am\u00e9rico se inspirou nos relatos de contempor\u00e2neos do pr\u00edncipe, nos padr\u00f5es da arte nacionalista e rom\u00e2ntica do final do s\u00e9culo XIX. A obra foi feita por encomenda do governo da prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo para ocupar o sal\u00e3o de honra do Monumento do Ipiranga, pr\u00e9dio que estava em constru\u00e7\u00e3o (Museu Paulista\/USP).<\/p>\n<p>Foi pintado longe do Brasil, em Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, onde Pedro Am\u00e9rico residia. Com 7,60m x 4,51m, foi chumbado na parede do museu. Pedro Am\u00e9rico j\u00e1 era um pintor consagrado, por obras como A Batalha de Campo Grande (1871), Fala do Trono (1873) e Batalha do Ava\u00ed (1874). Foi injustamente acusado de pl\u00e1gio da tela 1807, Friedland, de Ernest Meissonier, pintada em 1875, que s\u00f3 veio a conhecer anos depois.<\/p>\n<p>O pintor estudou o local, a paisagem, suas cores e luminosidade no m\u00eas de setembro, a moda e os trajes da \u00e9poca. Seus rascunhos resultaram numa pintura completa, em tamanho menor, que hoje faz parte do acervo do Pal\u00e1cio Itamaraty, em Bras\u00edlia. Para enaltecer a monarquia e seu primeiro imperador, Pedro Am\u00e9rico inseriu em sua obra militares e nobres montados em cavalos imponentes.<\/p>\n<p>Na realidade, a comitiva era bem menor e fez o percurso do litoral ao planalto paulista em mulas e jumentos. D. Pedro I e sua guarda n\u00e3o usavam uniformes de gala. Os Drag\u00f5es da Independ\u00eancia ainda n\u00e3o existiam. O casebre retratado no quadro, a Casa do Grito, foi constru\u00eddo em 1884. Pedro Am\u00e9rico n\u00e3o poderia estar no quadro. Soldados perfilados, espadas erguidas, uniformes de gala, garbosos cavalos com belos arreios e selas d\u00e3o impon\u00eancia ao cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O &#8220;grito&#8221; \u00e9 uma ordem militar, traduz a personalidade autorit\u00e1ria de Pedro I. Entretanto, houve, sim, uma guerra da Independ\u00eancia. Bahia, Maranh\u00e3o e Par\u00e1, que tinham juntas governantes de maioria portuguesa, s\u00f3 reconheceram a independ\u00eancia em meados do ano seguinte, depois de muitos conflitos entre a popula\u00e7\u00e3o e os soldados portugueses. O povo baiano lutou muito, a Bahia comemora a Independ\u00eancia, ocorrida em 1823, no dia 2 de julho.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1823, foi eleita uma Assembleia Constituinte. Em virtude de diverg\u00eancias com Dom Pedro, foi fechada. A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira foi elaborada pelo Conselho de Estado e outorgada pelo imperador, em 25 de mar\u00e7o de 1824. Era uma Constitui\u00e7\u00e3o liberal, mas com sinais trocados: o direito \u00e0 propriedade privada foi assegurado para legitimar a escravid\u00e3o, que somente viria a ser abolida em 1888.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira Constitui\u00e7\u00e3o brasileira foi outorgada por D. Pedro I; era liberal, com sinais trocados: o direito \u00e0 propriedade privada foi assegurado para legitimar a escravid\u00e3o No dia 7 de setembro de 1822, o pr\u00edncipe regente Dom Pedro declarou oficialmente a separa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre o Brasil, uma col\u00f4nia, e Portugal. 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