{"id":8415,"date":"2023-11-07T07:28:50","date_gmt":"2023-11-07T10:28:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8415"},"modified":"2023-11-07T07:54:16","modified_gmt":"2023-11-07T10:54:16","slug":"nas-entrelinhas-esquerdismo-contaminou-questoes-do-enem-sobre-o-agro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-esquerdismo-contaminou-questoes-do-enem-sobre-o-agro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Esquerdismo contaminou quest\u00f5es do Enem sobre o agro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A tese da esquerda brasileira era de que o Brasil n\u00e3o poderia se desenvolver com latif\u00fandio e domina\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro. O que aconteceu foi o contr\u00e1rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 100 anos, a reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma ideia-for\u00e7a para a esquerda brasileira. Demorou para ter apoio popular e, a rigor, nunca se completou. \u00c9 uma das faces do atraso brasileiro e nosssa iniquidade social. Em Portugal, a reforma agr\u00e1ria aconteceu na Revolu\u00e7\u00e3o do Mestre de Avis (1383-1385), coroado Jo\u00e3o I. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa, que deu origem ao primeiro Estado Na\u00e7\u00e3o da Europa. A vit\u00f3ria da burguesia comercial e a reforma agr\u00e1ria impulsionaram tremendamente as ind\u00fastrias naval e vin\u00edcola de Portugal, sem as quais n\u00e3o teriam ocorrido as grandes navega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No Brasil, a primeira oportunidade perdida foi na Independ\u00eancia, em 1822. Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, em Apontamentos sobre as sesmarias, defendeu as pequenas propriedades, e a distribui\u00e7\u00e3o de terras aos ind\u00edgenas, ex-escravos e colonos portugueses chegou a ser proposta por ele, para as &#8220;terras baldias&#8221;, numa estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o com os senhores de escravos. A prioridade dada ao arranjo institucional, no qual a monarquia foi a chave para manter a integridade territorial, e capacidade de fazer inimigos de Bonif\u00e1cio inviabilizaram suas propostas, mesmo n\u00e3o havendo aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda oportunidade foi perdida da Aboli\u00e7\u00e3o propriamente dita, em 1888, \u00e0 Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889. No primeiro caso, o Marques de Ouro Preto, em vez de indenizar os ex-escravos, indenizou os escravocratas. Seu projeto Aux\u00edlio \u00e0 Lavoura distribuiu aos ex-senhores de escravos 86 mil contos de r\u00e9is, o equivalente a um quarto do Or\u00e7amento do Imp\u00e9rio, emprestado pela Casa Rothschild, de Londres, para pagamento em 50 anos e garantia de juros do governo brasileiro. Na segunda oportunidade, Rui Barbosa, ministro da Fazenda de 1890 a 1891, revogou a legisla\u00e7\u00e3o do Aux\u00edlio \u00e0 Lavoura, para criar um Banco Hipotec\u00e1rio e tributar as propriedades, mas foi derrotado pela elite agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, n\u00e3o foi muito diferente. Get\u00falio Vargas chegou ao poder confrontando as elites agr\u00e1rias de S\u00e3o Paulo e Minas, mas n\u00e3o levou adiante a reforma agr\u00e1ria. Rapidamente se recomp\u00f4s com esses setores e limitou seu \u00edmpeto reformista a algumas col\u00f4nias agr\u00edcolas e assentamentos em terras da Uni\u00e3o. Em contrapartida, a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista acirrou os conflitos no campo. Os antigos colonos e meeiros foram expulsos das fazendas, que passaram a recorrer ao trabalho tempor\u00e1rio de boias frias nas culturas de algod\u00e3o, caf\u00e9, cana de a\u00e7\u00facar e laranja.<\/p>\n<p>Esse processo contribuiu para a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nos levou ao golpe de 1964. Naquele ano, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, a popula\u00e7\u00e3o era de 79,8 milh\u00f5es de pessoas. O n\u00famero dos que viviam em \u00e1rea rural alcan\u00e7ava 33 milh\u00f5es. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, por\u00e9m, n\u00e3o atendia todo o mercado interno. O latif\u00fandio improdutivo ocupava grandes extens\u00f5es de terras. Os trabalhadores rurais eram mal remunerados e viviam situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. As ligas camponesas e sindicatos de trabalhadores rurais pressionavam Jo\u00e3o Goulart e queriam uma reforma agr\u00e1ria na &#8220;lei ou na marra&#8221;. Jango anunciou a desapropria\u00e7\u00e3o de terras \u00e0s margens de ferrovias, estradas e a\u00e7udes federais no famoso com\u00edcio da Central do Brasil, no Rio, em 13 de mar\u00e7o de 1964, para 200 mil pessoas. Seu governo acabou ali. Em 31 de mar\u00e7o, foi deposto pelos militares com amplo apoio do pol\u00edtico e social.<\/p>\n<p><strong>Ideologia e realidade<\/strong><\/p>\n<p>Por ironia, o Estatuto da Terra, aprovado pelo presidente Castelo Branco durante o regime militar, tornou-se a grande bandeira de organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos rurais, que obtiveram muitas conquistas. A lei dizia que o Estado tinha a obriga\u00e7\u00e3o de garantir a terra para quem nela vive e trabalha. Definia o latif\u00fandio improdutivo pass\u00edvel de desapropria\u00e7\u00e3o e o modulo rural m\u00ednimo para a produ\u00e7\u00e3o. Entretanto, foi no governo de Fernando Henrique Cardoso, sob comando do ent\u00e3o ministro da Reforma Agr\u00e1ria, Raul Jungmann, o maior avan\u00e7o: entre 1995 e 1998, foram desapropriados 7 milh\u00f5es de hectares, como 287.539 fam\u00edlias assentadas em quatro anos. No governo Sarney, 4 milh\u00f5es de hectares j\u00e1 haviam sido desapropriados.<\/p>\n<p>Nada disso consta das provas do Enem sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria. Tr\u00eas quest\u00f5es preconceituosas sobre o agroneg\u00f3cio e a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na prova voltaram a envenenar as rela\u00e7\u00f5es entre o setor agr\u00edcola e o governo Lula. A rigor, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Camilo Santana, n\u00e3o tem nada a ver com o caso, porque a prova \u00e9 feita por um colegiado de professores, com autonomia de c\u00e1tedra. Mas \u00e9 quem pagar\u00e1 a conta. Grosso modo, condenam o capitalismo no campo. \u00c9 inacredit\u00e1vel, porque a reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma bandeira capitalista, democr\u00e1tico-burguesa, pois se trata de redistribuir a propriedade da terra, e n\u00e3o de coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 n\u00e3o compreender a import\u00e2ncia e o papel do agroneg\u00f3cio no desenvolvimento. Isso n\u00e3o significa endossar o uso de agrot\u00f3xico, o reacionarismo ruralista e a viol\u00eancia no campo, a grilagem de terra, a derrubada da floresta para pasto e planta\u00e7\u00e3o de soja, o contrabando de madeira etc. A tese da esquerda brasileira, nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960, era de que o Brasil n\u00e3o poderia se desenvolver com latif\u00fandio e domina\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro. O que aconteceu foi o contr\u00e1rio desse dogma: gra\u00e7as a isso, o pa\u00eds se industrializou e as grandes propriedades deram origem ao nosso agroneg\u00f3cio altamente produtivo.<\/p>\n<p>Hoje, o Brasil \u00e9 o quarto maior produtor agr\u00edcola do mundo, atr\u00e1s apenas da China, da \u00cdndia e dos Estados Unidos; lidera a produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, carne bovina, frango in natura, celulose, soja, a\u00e7\u00facar e, agora, milho. Em breve, ser\u00e1 o maior produtor de algod\u00e3o. Tudo o que o governo Lula n\u00e3o precisava era essa confus\u00e3o provocada por tr\u00eas quest\u00f5es do Enem pautadas pelo esquerdismo anacr\u00f4nico, e n\u00e3o pela realidade. Como vimos na hist\u00f3ria recente, reforma agr\u00e1ria e agroneg\u00f3cio n\u00e3o s\u00e3o coisas incompat\u00edveis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tese da esquerda brasileira era de que o Brasil n\u00e3o poderia se desenvolver com latif\u00fandio e domina\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro. O que aconteceu foi o contr\u00e1rio H\u00e1 mais de 100 anos, a reforma agr\u00e1ria \u00e9 uma ideia-for\u00e7a para a esquerda brasileira. 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