{"id":8453,"date":"2023-11-20T09:43:28","date_gmt":"2023-11-20T12:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8453"},"modified":"2023-11-20T09:43:28","modified_gmt":"2023-11-20T12:43:28","slug":"nas-entrelinhas-dois-cenarios-para-as-relacoes-com-a-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-dois-cenarios-para-as-relacoes-com-a-argentina\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Dois cen\u00e1rios para as rela\u00e7\u00f5es com a Argentina"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Desde as redemocratiza\u00e7\u00f5es, o pior momento das rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a Argentina foi nos governos de Bolsonaro e Fernandes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a Argentina nem sempre foram pac\u00edficas, como na guerra Cisplatina (1825-1828). Algumas vezes, foram at\u00e9 estreitas demais, como durante a Opera\u00e7\u00e3o Condor, na segunda metade dos anos 1970, na qual houve muita colabora\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a dos regimes militares dos pa\u00edses contra seus oposicionistas.<\/p>\n<p>Neste domingo, com o pa\u00eds dividido entre o anarco-capitalista Javier Milei (La Liberdade Avanza) e o peronista S\u00e9rgio Massa (Uni\u00f3n por la P\u00e1tria), as conex\u00f5es do Brasil com &#8220;los hermanos&#8221; novamente est\u00e3o em xeque. O primeiro diz que n\u00e3o pretende ter rela\u00e7\u00f5es com o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e que a Argentina sair\u00e1 do Mercosul, se for eleito \u2014 o que praticamente inviabilizar\u00e1 o acordo do bloco com a Uni\u00e3o Europeia (UE). O segundo promete estreitar ainda mais os la\u00e7os com o Brasil e fortalecer o bloco econ\u00f4mico sul-americano.<\/p>\n<p>Pesquisa divulgada pela AtlasIntel (10\/11), a \u00faltima divulgada em raz\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o eleitoral, com 8.971 entrevistados, revelou que Milei aparece com 52,1% e Massa, com 47,9%. Em raz\u00e3o do \u00faltimo debate, no qual Massa, o atual ministro da Economia, surpreendeu Milei, analistas dizem que a diferen\u00e7a entre ambos reduziu.<\/p>\n<p>Massa questionou de forma dura a efic\u00e1cia das propostas econ\u00f4micas de Milei, entre as quais privatizar a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, deixar o com\u00e9rcio com a China exclusivamente a cargo do setor privado e &#8220;dolarizar&#8221; a economia. Vice de Milei, Vit\u00f3ria Villarruel, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o, radicalizou o discurso ainda mais ao afirmar que somente uma &#8220;tirania&#8221; pode retirar o pa\u00eds da crise.<\/p>\n<p>A Argentina \u00e9 o maior, mais importante e mais antigo parceiro do Brasil na Am\u00e9rica Latina, mas s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es tensas, com altos e baixos, desde sempre. Em 25 de junho de 1823, as ent\u00e3o Prov\u00edncias Unidas do Sul ou Prov\u00edncias Unidas do Rio da Prata foram o primeiro pa\u00eds a reconhecer a Independ\u00eancia do Brasil e seu regime mon\u00e1rquico, \u00fanico em todo continente americano. O ministro Bernardino Rivadavia, por\u00e9m, em carta ao primeiro chanceler do Imp\u00e9rio do Brasil, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva, dizia que &#8220;queria tratar definitivamente da evacua\u00e7\u00e3o da Faixa Oriental&#8221;, hoje Uruguai.<\/p>\n<p>Sete anos antes, em 1816, o atual Uruguai, chamado de Banda Oriental (Faixa Oriental), pelas Prov\u00edncias Unidas do Sul, e de Prov\u00edncia Cisplatina, pelo Brasil, tinha sido ocupado pelo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sendo incorporado ao territ\u00f3rio brasileiro. Entretanto, a Argentina, cuja Independ\u00eancia se deu em 1816, mas s\u00f3 teve o primeiro reconhecimento em 1821, justamente por parte de Portugal, entendia a ocupa\u00e7\u00e3o como uma invas\u00e3o do seu territ\u00f3rio. N\u00e3o havia uma rela\u00e7\u00e3o amistosa.<\/p>\n<p>A diplomacia fracassou. D. Pedro I decidiu manter a margem direita do Rio da Prata, devido \u00e0 import\u00e2ncia estrat\u00e9gica e portu\u00e1ria de Col\u00f4nia do Sacramento e de Montevid\u00e9u. Em 4 de novembro de 1825, a Argentina rompeu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Brasil.<\/p>\n<p>Em 10 de dezembro de 1825, Pedro I declarou guerra \u00e0s Prov\u00edncias Unidas do Sul, que durou at\u00e9 27 de agosto 1828. A paz foi alcan\u00e7ada depois de tr\u00eas anos de combates. Com interesses estrat\u00e9gicos na regi\u00e3o, a Inglaterra mediou o acordo, do qual resultou a cria\u00e7\u00e3o de um estado-tamp\u00e3o: o Uruguai.<\/p>\n<p><strong>Tiro no p\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Deve-se ao presidente Jos\u00e9 Sarney, em 1985, um ponto final na secular desconfian\u00e7a entre os dois pa\u00edses. Em muito contribuiu para isso a derrota argentina na Guerra das Malvinas, na qual o &#8220;aliado principal&#8221;, os Estados Unidos, apoiou a Inglaterra. Foi o embri\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional, consagrada no Mercosul, hoje amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>O ponto mais alto da coopera\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses foi a abertura dos segredos nucleares, com a cria\u00e7\u00e3o, em 1991, no governo Collor, da Ag\u00eancia Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).<\/p>\n<p>Urquiza, Mitre, Roca, S\u00e1enz Pe\u00f1a, Justo, Per\u00f3n, Frondizi, Videla, Alfons\u00edn, Menem, Duhalde e Kirchner \u2014 cada presidente argentino teve sua pr\u00f3pria pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, o que passou a ser uma caracter\u00edstica estrutural da sua diplomacia, seja qual fosse o regime (democracia ou ditadura) ou crise econ\u00f4mica (infla\u00e7\u00e3o, crise, estabilidade, crescimento). Entretanto, a democracia e o crescimento econ\u00f4mico sempre favoreceram a parceria.<\/p>\n<p>Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o de ambos os pa\u00edses, o pior momento das rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e Argentina foi durante os governos do atual presidente Alberto Fernandes, que desistiu da reelei\u00e7\u00e3o, e o presidente Jair Bolsonaro, que nunca se encontraram, entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022.<\/p>\n<p>Entretanto, Fern\u00e1ndez se reuniu com Lula seis vezes, a \u00faltima na C\u00fapula do Mercosul, em julho. Agora, esse avan\u00e7o nas rela\u00e7\u00f5es subiu no telhado porque a eventual vit\u00f3ria de Milei por\u00e1 tudo a perder em termos do acordo entre o Mercosul e a UE, al\u00e9m de prejudicar as rela\u00e7\u00f5es comerciais com os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>O maior projeto em curso \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um gasoduto entre a reserva Argentina de Vaca Muerta, a segunda maior jazida de g\u00e1s de xisto e a quarta de petr\u00f3leo n\u00e3o convencional do mundo, at\u00e9 o Sul do Brasil, com financiamento brasileiro. Inviabilizar esse projeto \u00e9 um tiro no p\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde as redemocratiza\u00e7\u00f5es, o pior momento das rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a Argentina foi nos governos de Bolsonaro e Fernandes As rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a Argentina nem sempre foram pac\u00edficas, como na guerra Cisplatina (1825-1828). 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