{"id":8584,"date":"2024-01-24T07:01:07","date_gmt":"2024-01-24T10:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8584"},"modified":"2024-01-24T08:55:14","modified_gmt":"2024-01-24T11:55:14","slug":"nas-entrelinhas-novo-cenario-frustra-a-politica-externa-de-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-novo-cenario-frustra-a-politica-externa-de-lula\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Novo cen\u00e1rio frustra a pol\u00edtica externa de Lula"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O presidente brasileiro vive um dilema na escolha entre a aud\u00e1cia e a prud\u00eancia ante a mudan\u00e7a de conjuntura mundial. Duas guerras impactaram a pol\u00edtica e a economia global<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8220;De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se lhe deva resistir&#8221; (Quantum fortuna in rebus humanis possit, et quomodo illis sit occurren dum) \u00e9 um cap\u00edtulo de O Pr\u00edncipe, de Nicolau Maquiavel, que trata das virtudes e da fortuna dos governantes. Tem mais a ver com as conting\u00eancias do que com o acaso ou a sorte propriamente. &#8220;Muitos t\u00eam tido e t\u00eam a opini\u00e3o de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna e por Deus (\u2026) Essa opini\u00e3o se tornou mais aceita nos nossos tempos pela grande modifica\u00e7\u00e3o das coisas que foi vista e que se observa todos os dias, independentemente de qualquer conjectura humana&#8221;, disse Maquiavel.<\/p>\n<p>&#8220;Contudo, para que o nosso livre arb\u00edtrio n\u00e3o seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o \u00e1rbitro da metade das nossas a\u00e7\u00f5es, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase&#8221;, concluiu. A releitura de Maquiavel nos faz refletir sobre as mudan\u00e7as que ocorreram na pol\u00edtica mundial desde a elei\u00e7\u00e3o do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que assumiu o poder com a mem\u00f3ria de quem foi considerado &#8220;o cara&#8221; por Barack Obama e amplo apoio internacional, sobretudo depois do 8 de janeiro, quando se completou o diagn\u00f3stico das principais chancelarias do Ocidente de que o ex-presidente Jair Bolsonaro seria mesmo uma amea\u00e7a \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Lula tentou ser um mediador da paz na Ucr\u00e2nia, num flerte com Vladimir Putin, que o desgastou com os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia, sem sucesso. Depois da bem-sucedida opera\u00e7\u00e3o para resgatar os brasileiros que estavam em Israel e na Faixa de Gaza e do excepcional desempenho do Brasil na presid\u00eancia do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, em que conseguiu aprovar por ampla maioria uma proposta de tr\u00e9gua humanit\u00e1ria, vetada pela Casa Branca, deu um drible a mais ao apoiar a proposta sul-africana de condena\u00e7\u00e3o do Estado de Israel por genoc\u00eddio. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento dado ao Hamas, que o Brasil n\u00e3o considera uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista, embora condene o ataque terrorista e os sequestros de israelenses de 7 de outubro.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel a indigna\u00e7\u00e3o de Lula com o massacre de palestinos pelas for\u00e7as armadas de Israel, em Gaza, por ordem de Benjamin Netanyahu, mas diplomacia se faz de forma pragm\u00e1tica, com um olho no presente e o outro no futuro. De certa forma, o presidente brasileiro vive um dilema na escolha entre a aud\u00e1cia e a prud\u00eancia ante a mudan\u00e7a de conjuntura mundial. Duas guerras impactaram a pol\u00edtica, a economia global e at\u00e9 o peso relativo do combate ao aquecimento global nas prioridades das grandes pot\u00eancias mundiais. O esvaziamento da COP28, realizada em Dubai, e do \u00faltimo F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, em Davos, na Su\u00ed\u00e7a, refletem as novas conting\u00eancias.<\/p>\n<p>Entretanto, o maior empecilho ao protagonismo global de Lula veio de onde menos se esperava: a Am\u00e9rica do Sul. Nesse sentido, a reuni\u00e3o dos ministros das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Guiana e da Venezuela, amanh\u00e3, no Itamaraty, em Bras\u00edlia, cresce de import\u00e2ncia. Intermediado pelo chanceler brasileiro Mauro Vieira, ocorre em meio \u00e0 disputa pela regi\u00e3o de Essequibo. A Venezuela afirma ser a verdadeira propriet\u00e1ria da \u00e1rea, de 160 quil\u00f4metros quadrados, cerca de 70% de toda a Guiana, que abarcam seis dos 10 estados do pa\u00eds. Rica em recursos naturais, um referendo convocado por Nicol\u00e1s Maduro reacendeu a disputa territorial.<\/p>\n<p><strong>Cone Sul<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que n\u00e3o interessa ao Brasil \u00e9 uma guerra na nossa fronteira norte, que atrairia para a Amaz\u00f4nia a presen\u00e7a militar permanente do Reino Unido, que manteve sua ex-col\u00f4nia no Commonwealth (Comunidade Brit\u00e2nica de Na\u00e7\u00f5es). O encontro dos tr\u00eas chanceleres, em Bras\u00edlia, nesta semana, antecede a reuni\u00e3o entre os presidentes da Guiana, Irfaan Ali, e da Venezuela, Nicol\u00e1s Maduro, tamb\u00e9m no Brasil. Nesse encontro, o presidente Lula n\u00e3o pode fracassar como mediador, sob risco de desgastar sua proje\u00e7\u00e3o como lideran\u00e7a global.<\/p>\n<p>As coisas tamb\u00e9m n\u00e3o andam boas no Cone Sul. Os presidentes do Uruguai, Lacale Pou, conservador, e o presidente do Chile, Gabriel Boric, socialista, n\u00e3o perdem uma oportunidade de marcar posi\u00e7\u00e3o diferenciada em rela\u00e7\u00e3o a Lula no plano internacional. E a elei\u00e7\u00e3o do novo presidente da Argentina, Javier Milei, foi um tremendo rev\u00e9s para a estrat\u00e9gia de fortalecimento do Brasil, via amplia\u00e7\u00e3o do Brics, na chamada pol\u00edtica do Sul Global.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es com o Paraguai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tarifas de Itaipu n\u00e3o estavam maduras para um acordo quando Lula recebeu a visita do novo presidente paraguaio Santiago Pe\u00f1a, mais um mandat\u00e1rio conservador com quem ter\u00e1 que se relacionar. O encontro foi um fiasco dentro de casa. Nada disso \u00e9 um empecilho que n\u00e3o possa ser administrado pelo Itamaraty, cuja diplomacia \u00e9 reconhecidamente competente, mas a crise de relacionamento com os vizinhos n\u00e3o estava no horizonte de Lula quando assumiu.<\/p>\n<p>O que pode mudar o cen\u00e1rio \u00e9 um improv\u00e1vel acordo do Mercosul com a Uni\u00e3o Europeia, que ainda pode descer do telhado, com a aparente mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o de Javier Milei, ao manter a Argentina no Mercosul.<\/p>\n<p>Colunas anteriores no Blog do Azedo: https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente brasileiro vive um dilema na escolha entre a aud\u00e1cia e a prud\u00eancia ante a mudan\u00e7a de conjuntura mundial. 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