{"id":8662,"date":"2024-02-15T08:00:10","date_gmt":"2024-02-15T11:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8662"},"modified":"2024-02-15T14:29:56","modified_gmt":"2024-02-15T17:29:56","slug":"nas-entrelinhas-viradouro-mostra-a-forca-da-origem-ancestral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-viradouro-mostra-a-forca-da-origem-ancestral\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Viradouro mostra a for\u00e7a da origem ancestral"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O enredo da Viradouro vai al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o de carnavais, malandros e her\u00f3is, cl\u00e1ssico de Roberto DaMatta, que mergulha no dilema do Brasil de grandes desigualdades<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A primeira grande revolu\u00e7\u00e3o nos desfiles de escola de samba foi protagonizada pelo Salgueiro, em 1963, com o enredo Xica da Silva. O core\u00f3grafo Fernando Pamplona deslumbrou o p\u00fablico e o mundo do samba, no primeiro desfile da Avenida Presidente Vargas, com uma protagonista negra e uma revolu\u00e7\u00e3o nas coreografias, com fantasias e adere\u00e7os concebidos para serem vistas de cima para baixo, ou seja, das arquibancadas e das janelas dos pr\u00e9dios.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da ex-escrava que se uniu a Jo\u00e3o Fernandes de Oliveira, respons\u00e1vel pela explora\u00e7\u00e3o dos diamantes no Arraial do Tijuco (atual Diamantina), no auge do Ciclo da Minera\u00e7\u00e3o, foi narrada com uma explos\u00e3o vermelha e branca, resplandescente, porque a escola se encheu de brilhos para desfilar ao raiar do sol, que subiu por tr\u00e1s da Catedral da Candel\u00e1ria, enquanto o povo gritava &#8220;j\u00e1 ganhou!&#8221;<\/p>\n<p>Neste ano, foi a vez de a vermelha e branca Viradouro vencer pela terceira vez o desfile de carnaval do Rio de Janeiro. A escola de samba nasceu no complexo de favelas surgido na garganta que leva o seu nome, nos limites do bairro de Santa Rosa, em Niter\u00f3i. Dessa vez, o protagonismo n\u00e3o foi de uma ex-escrava que seduziu o senhor branco, mas de um m\u00edtico ex\u00e9rcito de guerreiras negras do Reino de Daom\u00e9: &#8220;Eis o poder que rasteja na terra\/ Luz pra vencer essa guerra, a for\u00e7a do vodum\/ Rastro que aben\u00e7oa Agoji\u00ea\/ Reza pra renascer, toque de Adarrum&#8221;, canta o samba enredo da escola.<\/p>\n<p>No revolucion\u00e1rio desfile de Xica da Silva, o espanto ficou por conta de um minueto coreografado por Mercedes Baptista, a primeira negra a integrar o bal\u00e9 do Theatro Municipal, e a fantasia de Isabel Valen\u00e7a, a protagonista, tinha peruca de 1,10m, enfeitada com p\u00e9rolas, e cauda de sete metros de comprimento. Projetavam um estilo de vida que invertia os pap\u00e9is da sociedade elitista e excludente em que viviam, mas reproduziam o modo de vida da aristocracia colonial. No desfile da Viradouro, a assimila\u00e7\u00e3o pela elite foi substitu\u00edda pela afirma\u00e7\u00e3o da origem ancestral: adarrum, em iorub\u00e1, \u00e9 o toque de atabaques e agog\u00f4s que tem o poder de invocar os orix\u00e1s; agoji\u00ea s\u00e3o as guerreiras de Daom\u00e9.<\/p>\n<p>O choque cultural \u00e9 a evoca\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos voduns e outros elementos da ess\u00eancia divina que governa a Terra nos cultos africanos, as for\u00e7as da natureza e da sociedade humana, os esp\u00edritos das \u00e1rvores e das rochas. A comiss\u00e3o de frente intitulada Alafi\u00e1, com 24 componentes, trouxe uma grande sacerdotisa, protegida por guerreiras Agojies. Na sequ\u00eancia, o espanto: uma grande serpente sai do seu ninho e desliza pelo ch\u00e3o da avenida. Em meio ao ritual das guerreiras, surge uma mulher serpente. A luz dos holofotes refletida nos adere\u00e7os e fantasias teve um efeito deslumbrante. Foi um rito de passagem.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do imagin\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, Grande Rio, Imperatriz, Mocidade e Beija-Flor tentam impugnar a comiss\u00e3o de frente da Viradouro, com a perda de 0,5 ponto, porque extrapolou o limite de 15 integrantes vis\u00edveis. Mas como 0,7 ponto \u00e0 frente da segunda colocada, nem o recurso tira o t\u00edtulo da escola. Num pa\u00eds onde cresce a influ\u00eancia dos evang\u00e9licos, o sincretismo religioso continua sendo majorit\u00e1rio, por\u00e9m, \u00e9 cada vez menos traduzido por santos cat\u00f3licos, como S\u00e3o Benedito e S\u00e3o Jorge. A vit\u00f3ria do enredo Arroboboi, Dangb\u00e9, que ressalta energia do culto ao vodum serpente, reflete a mudan\u00e7a de paradigma. Na mitologia africana, representa a cobra arco-\u00edris, a mobilidade, a agilidade e a destreza. \u00c9 o orix\u00e1 oxumar\u00e9 do nosso candombl\u00e9.<\/p>\n<p>No enredo da Viradouro, esse culto se estabelece no Brasil com a instala\u00e7\u00e3o de terreiros na Bahia por Ludovina Pessoa, sacerdotisa daomeana que veio com a miss\u00e3o de perpetuar a cren\u00e7a nos voduns. Ludovina tamb\u00e9m se torna lideran\u00e7a nas irmandades cat\u00f3licas e na forma\u00e7\u00e3o do que hoje \u00e9 o candombl\u00e9 Jeje. Essa linhagem tem como refer\u00eancia o Terreiro do Bogum, centen\u00e1rio templo religioso em Salvador, dedicado \u00e0 Serpente. Enfatiza o culto dos ancestrais e sustenta que os esp\u00edritos dos mortos vivem lado a lado com o mundo dos vivos.<\/p>\n<p>O enredo da Viradouro vai al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o de carnavais, malandros e her\u00f3is, cl\u00e1ssico da antropologia brasileira, que mergulha no dilema que faz do Brasil um pa\u00eds de grandes desigualdades, mas de futuro promissor por sua capacidade de tradu\u00e7\u00e3o cultural. Para Roberto DaMatta, tanto o carnaval quanto seus malandros e her\u00f3is s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es sociais que refletem os problemas e dilemas b\u00e1sicos da nossa sociedade. Mito e rito s\u00e3o dramatiza\u00e7\u00f5es ou maneiras de chamar a aten\u00e7\u00e3o para certos aspectos da realidade social, dissimulados pelas rotinas e complica\u00e7\u00f5es do cotidiano.<\/p>\n<p>Entretanto, a ancestralidade africana evocada pela Viradouro \u00e9 real. O filme A mulher rei, protagonizado por Viola Davis, tamb\u00e9m conta a hist\u00f3ria das mulheres guerreiras Agojie. N\u00e3o se trata apenas do imagin\u00e1rio. O reino do Daom\u00e9, na \u00c1frica Ocidental, teve seu auge na d\u00e9cada de 1840, quando ostentava um ex\u00e9rcito de seis mil mulheres, conhecido em toda a regi\u00e3o por sua bravura. A primeira men\u00e7\u00e3o a elas \u00e9 de 1729; a \u00faltima em 1979, na morte de Nawi, a Agojie sobrevivente com experi\u00eancia no campo de batalha, muito depois da queda de Daom\u00e9, massacrava pelos franceses em 1894. Daom\u00e9 recuperou sua independ\u00eancia em 1960.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O enredo da Viradouro vai al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o de carnavais, malandros e her\u00f3is, cl\u00e1ssico de Roberto DaMatta, que mergulha no dilema do Brasil de grandes desigualdades A primeira grande revolu\u00e7\u00e3o nos desfiles de escola de samba foi protagonizada pelo Salgueiro, em 1963, com o enredo Xica da Silva. 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