{"id":8678,"date":"2024-02-18T08:50:50","date_gmt":"2024-02-18T11:50:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8678"},"modified":"2024-02-18T18:44:18","modified_gmt":"2024-02-18T21:44:18","slug":"nas-entrelinhas-muitos-militares-nao-assimilaram-a-nova-doutrina-de-defesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-muitos-militares-nao-assimilaram-a-nova-doutrina-de-defesa\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Muitos militares n\u00e3o assimilaram a nova doutrina de defesa"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A velha doutrina de seguran\u00e7a nacional se encaixava como uma luva na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de combate aos &#8220;inimigos internos&#8221;, mas entrou em colapso quando os EUA apoiaram o Reino Unido contra a Argentina<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 dispon\u00edvel no site do governo federal (www.gov.br) o Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN) encaminhado ao Congresso em 20 de julho de 2020, ou seja, h\u00e1 quase quatro anos. Como diz a sua apresenta\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 o mais completo e acabado documento acerca das atividades de defesa do Brasil\u201d. Apresentado em meados do governo de Jair Bolsonaro, o texto original fora conclu\u00eddo em 2012. Os ex-ministros da Defesa Nelson Jobim e Raul Jungmann est\u00e3o entre os que mais se empenharam para que fosse consolidado.<\/p>\n<p>O documento dorme nas gavetas do Congresso, nem os pol\u00edticos nem os militares quiseram discutir esse assunto: \u201cvoc\u00eas n\u00e3o mexem conosco que tamb\u00e9m n\u00e3o mexemos com voc\u00eas\u201d. Errado. Enquanto o Congresso se omitia, o ex-presidente Jair Bolsonaro trabalhava dia e noite para desmoralizar o processo eleitoral brasileiro, de onde vem o \u201cgoverno do povo, pelo povo e para o povo\u201d, com o prop\u00f3sito de implantar um regime \u201ciliberal\u201d e se manter no poder, com apoio das For\u00e7as Armadas. Para isso, cevou o Congresso com verbas e tentou subjugar o Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>Bolsonaro supostamente tentou dar um golpe de estado antes, durante e depois das elei\u00e7\u00f5es de 2022. Na linha do ex-governador carioca Carlos Lacerda (UDN): \u201cO sr. Get\u00falio Vargas, senador, n\u00e3o deve ser candidato \u00e0 presid\u00eancia. Candidato, n\u00e3o deve ser eleito. Eleito, n\u00e3o deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o para impedi-lo de governar\u201d(Advert\u00eancia oportuna, Tribuna da Imprensa, 1\u00ba de junho de 1950). Esse roteiro viria a se repetir como farsa em 8 de janeiro do ano passado.<\/p>\n<p>Lacerda, ent\u00e3o governador da antiga Guanabara, foi um dos l\u00edderes pol\u00edticos do golpe de 1964 e mirava as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1965, que foram suspensas. Teve seus direitos pol\u00edticos cassados. Sucessivos generais, por 20 anos, se revezaram na Presid\u00eancia: Castelo Branco, Costa e Silva, Em\u00edlio M\u00e9dici, Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Figueiredo. Segundo o falecido historiador Nelson Werneck Sodr\u00e9, autor do cl\u00e1ssico Hist\u00f3ria Militar do Brasil, \u201cgostaram do poder\u201d. Parece que agora os nossos pol\u00edticos aprenderam a li\u00e7\u00e3o. N\u00e3o embarcaram no golpe de Bolsonaro.<\/p>\n<p>A for\u00e7a da hist\u00f3ria se faz presente quando uma velha contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve. Assim \u00e9 a quest\u00e3o militar no Brasil, entre outras coisas, porque o Estado antecedeu a na\u00e7\u00e3o. O mito fundador de nosso Ex\u00e9rcito \u00e9 a Batalha de Guararapes (1648\/49), quando os holandeses foram expulsos do Brasil, mas sua constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica se deu ao reprimir duramente movimentos separatistas e\/ou republicanos (Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana, Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, Cabanagem, Balaiada, Farrapos, por exemplo) para manter a ordem, sempre que a justi\u00e7a federal n\u00e3o eram suficiente para afirmar o poder central nas prov\u00edncias.<\/p>\n<p><strong>Nova doutrina<\/strong><\/p>\n<p>Massacrado o povo, o velho Senado, com sua \u201cpol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o\u201d, lamberia as feridas das elites derrotadas. Foi assim que se manteve a nossa integridade territorial e se formou o Estado brasileiro. Entretanto, ap\u00f3s a Guerra do Paraguai (1864-1870) e Aboli\u00e7\u00e3o (1888), o protagonismo militar na pol\u00edtica brasileira viria a emergir com toda for\u00e7a. No ano seguinte, os militares destitu\u00edram o imperador Pedro II e proclamaram a Rep\u00fablica. O golpismo bem-sucedido em 1889, 1930 e 1964 viria a ser sua principal caracter\u00edstica. Tomara que os acontecimentos de 8 de janeiro do ano passado representem o fim desse longo ciclo hist\u00f3rico, que deveria ter se esgotado com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, mas teve sua recidiva ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, em 2018.<\/p>\n<p>A causa da recidiva foi a divis\u00e3o ideol\u00f3gica das For\u00e7as Armadas, que sempre provoca quebra de hierarquia e indisciplina. Foi assim no Movimento Tenentista (d\u00e9cada de 1920), na Alian\u00e7a Nacional Libertadora (1935) e ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB), em 1945. Durante o regime militar, ap\u00f3s o grande expurgo de militares legalistas, a coes\u00e3o se restabeleceu tendo por base o anticomunismo da Guerra Fria, que consolidara sua centralidade na doutrina militar.<\/p>\n<p>O Livro Branco representa uma nova doutrina de defesa, em bases democr\u00e1ticas e pacifistas. Ultrapassa a velha doutrina de seguran\u00e7a nacional do regime militar, que se encaixava como uma luva na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de combate aos \u201cinimigos internos\u201d, mas entrou em colapso com a Guerra das Malvinas, entre a Argentina e o Reino Unido, quando o aliado principal, os Estados Unidos, apoiou diplom\u00e1tica e militarmente os ingleses e n\u00e3o os argentinos. Essa nova doutrina de defesa, contra a qual se insurgiram Bolsonaro e seus generais palacianos, que conseguiram dividir ideologicamente as For\u00e7as Armadas, n\u00e3o foi assimilada plenamente nas casernas, nem chegou ao conhecimento da sociedade civil.<\/p>\n<p>Augusto Heleno e Braga Neto s\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o que ingressou nas escolas militares quando a carreira era mais do que uma via de ascens\u00e3o \u00e0 alta classe m\u00e9dia, mas o caminho de acesso ao poder pol\u00edtico central. Por isso, s\u00e3o reacion\u00e1rios e saudosistas do regime militar, sonham com um passado idealizado. O fracasso de 8 de janeiro pode ser o fim de um ciclo hist\u00f3rico, se a nova elite militar em forma\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel pela sua elabora\u00e7\u00e3o, liderar a implanta\u00e7\u00e3o da nova doutrina e a coes\u00e3o das For\u00e7as Armadas, com base nos altos estudos, na hierarquia e na disciplina, e n\u00e3o apenas no adestramento militar, como acontece com as for\u00e7as especiais.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n<div class=\"sharedaddy sd-sharing-enabled\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A velha doutrina de seguran\u00e7a nacional se encaixava como uma luva na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de combate aos &#8220;inimigos internos&#8221;, mas entrou em colapso quando os EUA apoiaram o Reino Unido contra a Argentina Est\u00e1 dispon\u00edvel no site do governo federal (www.gov.br) o Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN) encaminhado ao Congresso em 20 de julho de 2020, ou seja, h\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[291,1223,6,980,589,4,164,972,113,3,9,622,80],"tags":[130,77,926,114,79,10],"class_list":["post-8678","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-argentina","category-brasilia","category-congresso","category-eleicoes-2","category-eua","category-governo","category-guerra","category-memoria","category-militares","category-politica","category-politica-2","category-reino-unido","category-seguranca","tag-bolsonaro","tag-congresso","tag-defesa","tag-militares","tag-supremo","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8678"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8691,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8678\/revisions\/8691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}