{"id":8685,"date":"2024-02-20T07:02:45","date_gmt":"2024-02-20T10:02:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8685"},"modified":"2024-02-20T08:54:57","modified_gmt":"2024-02-20T11:54:57","slug":"lula-chamou-netanyahu-para-dancar-um-minueto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-chamou-netanyahu-para-dancar-um-minueto\/","title":{"rendered":"Lula chamou Netanyahu para dan\u00e7ar um minueto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Lula errou politicamente. N\u00e3o sabemos se foi arroubo de orat\u00f3ria ou deliberado. N\u00e3o vai se desculpar, por\u00e9m j\u00e1 sabe que precisa relativizar as declara\u00e7\u00f5es sobre a guerra de Gaza<\/strong><\/em><\/p>\n<p>De origem aristocr\u00e1tica, o minueto foi uma dan\u00e7a muito popular na corte de Lu\u00eds XIV, o Rei Sol, monarca conhecido pela frase-s\u00edntese do absolutismo: &#8220;L&#8217;\u00e9tat, c&#8217;est moi&#8221; (o Estado sou eu). Nos s\u00e9culos XVII e XVIII difundiu-se pela Europa, com ecos por aqui, por ser uma dan\u00e7a alegre e de passos mi\u00fados, que n\u00e3o exigia um grande vigor f\u00edsico, mas apenas ritmo para acompanhar o compasso 3\/4. O minueto inspirou nossos sambistas a dan\u00e7arem o &#8220;miudinho&#8221;; na pol\u00edtica, &#8220;dan\u00e7ar miudinho&#8221; \u00e9 sin\u00f4nimo de saia justa, isto \u00e9, um grande constrangimento.<\/p>\n<p>Muitos compositores inclu\u00edram o &#8220;minuit&#8221; em suas sonatas, sinfonias e m\u00fasicas de c\u00e2mara, como Bach, Haydn, Mozart, Beethoven e Paderewski. O minueto da Sinfonia n\u00ba 40 de Mozart, por\u00e9m, nada tem de elegante nem gracioso, mas exprime um grande sentimento de ang\u00fastia. \u00c9 mais ou menos o que est\u00e1 acontecendo com a diplomacia brasileira ap\u00f3s as declara\u00e7\u00f5es do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva sobre o massacre israelense em Gaza, em retalia\u00e7\u00e3o ao atentado terrorista do Hamas.<\/p>\n<p>Lula chamou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para dan\u00e7ar um minueto, mas errou o compasso. Ao comparar o l\u00edder israelense a Hitler, e a situa\u00e7\u00e3o dos palestinos em Gaza \u00e0 dos judeus nos campos de exterm\u00ednio nazistas, cometeu um grave erro diplom\u00e1tico, porque tirou a quest\u00e3o da tr\u00e9gua humanit\u00e1ria e das negocia\u00e7\u00f5es de paz do seu contexto e provocou uma crise diplom\u00e1tica entre Brasil e Israel. Netanyahu, um pol\u00edtico populista e experiente, que confronta at\u00e9 os aliados, acusou Lula de antissemitismo, um trauma secular para a comunidade judaica do mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil.<\/p>\n<p>Netanyahu reagiu de forma virulenta como sempre faz, mas foi h\u00e1bil ao tirar de foco o massacre promovido pelas For\u00e7as de Defesa de Israel em Gaza, uma retalia\u00e7\u00e3o desproporcional ao atentado terrorista do Hamas, mesmo considerando-se a quest\u00e3o dos ref\u00e9ns. Al\u00e9m disso, declarou Lula persona non grata em Israel e humilhou o embaixador brasileiro Frederico Salom\u00e3o Duque Estrada Meyer, ao convoc\u00e1-lo para uma reprimenda oficial no Museu do Holocausto e n\u00e3o na sede do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores.<\/p>\n<p>Com 70 anos, Meyer \u00e9 um embaixador experiente, que j\u00e1 atuou no Cazaquist\u00e3o, de 2006 a 2011, e no Marrocos, de 2011 a 2015. Tamb\u00e9m serviu nas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas brasileiras no Iraque, na R\u00fassia, na Su\u00ed\u00e7a, em Cuba, na Guiana e junto \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas. Certamente, se fosse consultado, recomendaria ao presidente Lula focar suas declara\u00e7\u00f5es nas negocia\u00e7\u00f5es em curso entre Israel e o Hamas, via Estados Unidos, Egito e Catar, para liberta\u00e7\u00e3o dos ref\u00e9ns e uma nova tr\u00e9gua humanit\u00e1ria. Deixar o confronto pessoal com Netanyahu em segundo plano.<\/p>\n<p>A resposta de Lula n\u00e3o foi nem ser\u00e1 um pedido de desculpas, como exigem Netanyahu e a comunidade israelita no Brasil, o que seria uma humilha\u00e7\u00e3o. Foi tamb\u00e9m escalar a crise diplom\u00e1tica, ao convocar o embaixador de Israel no Brasil para uma dura conversa com o chanceler Mauro Vieira e chamar o embaixador Meyer de volta ao Brasil. No rito diplom\u00e1tico, s\u00e3o mensagens duras, que antecedem rompimentos diplom\u00e1ticos, por\u00e9m, na maioria das vezes s\u00e3o chumbo trocado, e param por a\u00ed mesmo.<\/p>\n<p><strong>Genoc\u00eddio e antissemitismo<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda brasileira acusa o atual governo de Israel de genocida, enquanto a direita revida qualificando-a de antissemita. As duas narrativas dominam os debates sobre a guerra de Gaza nas redes sociais e na m\u00eddia, mas a nossa diplomacia n\u00e3o pode cair nessa armadilha, ou seja, na polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que existe no Brasil. Netanyahu \u00e9 aliado de primeira hora do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem informa\u00e7\u00f5es privilegiadas sobre a situa\u00e7\u00e3o do Brasil, at\u00e9 porque houve intensa colabora\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os de intelig\u00eancia dos dois pa\u00edses. Sabe que a extrema direita brasileira \u00e9 influente no Congresso e tem apoio de grande parcela da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A rec\u00edproca n\u00e3o \u00e9 verdadeira na rela\u00e7\u00e3o de Lula e do PT com a oposi\u00e7\u00e3o a Netanyahu em Israel. Historicamente, a esquerda brasileira apoia os pa\u00edses \u00e1rabes. Al\u00e9m disso, \u00e0s vezes mascarado como antissionismo, h\u00e1 um antissemitismo preconceituoso na sociedade brasileira, desde o per\u00edodo colonial. Entretanto, o Brasil presidiu a Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) que criou o Estado de Israel e sempre foi a favor da solu\u00e7\u00e3o de dois estados para o conflito \u00e1rabe-israelense. Tanto o Likud, partido de Netanyahu, como o Hamas, doutrinariamente, apostam na guerra contra essa solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lula errou politicamente. N\u00e3o sabemos se foi arroubo de orat\u00f3ria ou deliberado. N\u00e3o vai se desculpar, por\u00e9m j\u00e1 sabe que precisa relativizar as declara\u00e7\u00f5es sobre a guerra de Gaza, via a diplomacia, ou o Twitter da primeira-dama Janja da Silva. Tenta descolar sua cr\u00edtica a Netanyahu da comunidade judaica, mas isso \u00e9 leite derramado. H\u00e1 uma quest\u00e3o subjacente que mereceria outra coluna, mas podemos resumir. H\u00e1 um erro de conceito na sua diplomacia presidencial, que pode resultar num desastre para a pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n<p>Lula era um l\u00edder dos pa\u00edses em desenvolvimento reconhecido e respeitado em todo o Ocidente. Ao tentar exercer sua lideran\u00e7a para al\u00e9m da esfera de influ\u00eancia da nossa import\u00e2ncia regional e da posi\u00e7\u00e3o de 9\u00aa economia do mundo, como fez na guerra da Ucr\u00e2nia e, agora, em Gaza, n\u00e3o tem consenso interno nem proje\u00e7\u00e3o de poder para isso. Ou seja, d\u00e1 um passo maior do que as pernas e se desgasta junto aos aliados dos pa\u00edses desenvolvidos. O papel de mais um l\u00edder no Sul Austral, apenas, n\u00e3o vale essa troca. A concorr\u00eancia \u00e9 grande.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula errou politicamente. N\u00e3o sabemos se foi arroubo de orat\u00f3ria ou deliberado. N\u00e3o vai se desculpar, por\u00e9m j\u00e1 sabe que precisa relativizar as declara\u00e7\u00f5es sobre a guerra de Gaza De origem aristocr\u00e1tica, o minueto foi uma dan\u00e7a muito popular na corte de Lu\u00eds XIV, o Rei Sol, monarca conhecido pela frase-s\u00edntese do absolutismo: &#8220;L&#8217;\u00e9tat, c&#8217;est moi&#8221; (o Estado sou eu). 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