{"id":8700,"date":"2024-02-22T07:42:47","date_gmt":"2024-02-22T10:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8700"},"modified":"2024-02-22T07:46:57","modified_gmt":"2024-02-22T10:46:57","slug":"nas-entrelinhas-werneck-vianna-interprete-do-brasil-contemporaneox","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-werneck-vianna-interprete-do-brasil-contemporaneox\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Werneck Vianna, int\u00e9rprete do Brasil contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Difusor do pensamento gramsciano no Brasil, produziu ensaios que servem de refer\u00eancia para o estudo do liberalismo, do Judici\u00e1rio e da nossa moderniza\u00e7\u00e3o conservadora<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O soci\u00f3logo carioca Luiz Jorge Werneck Vianna faleceu, nesta quarta-feira, aos 85 anos. Fez parte de uma gera\u00e7\u00e3o de artistas e intelectuais que formou o pensamento cr\u00edtico da esquerda brasileira nas d\u00e9cadas de 1960, 1970 e 1980, entre os quais, destacam-se Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro, Walter Lima Jr., Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Ferreira Gullar, Leon Amoedo, Tereza Arag\u00e3o, Zuenir Ventura, Milton Temer, Norma Pereira Rego, Leandro Konder, Darwin Brand\u00e3o, Marilia Kranz, Ziraldo, Jaguar, Albino Pinheiro, Ferdy Carneiro, H\u00e9lio Oiticica e Hugo Bidet, Hugo Carvana, Paulo G\u00f3es, Vergara, Carlinhos Oliveira, Z\u00f3zimo Amaral, Tom Jobim, Carlos Lira, Vinicius do Moraes e Oduvaldo Viana Filho.<\/p>\n<p>Residentes no Rio de Janeiro, em sua maioria, formavam a chamada Rep\u00fablica de Ipanema. Apesar da influ\u00eancia do antigo PCB no meio cultural carioca, muitos n\u00e3o eram comunistas e tinham profundas diverg\u00eancias com os militantes do setor cultural do velho Partid\u00e3o, do qual Werneck fez parte. Com ra\u00edzes familiares na aristocracia cafeeira fluminense, Werneck Vianna foi criado em Ipanema e estudou nos melhores col\u00e9gios da Zona Sul carioca, mas teve trajet\u00f3ria rebelde, influenciado por autores como Monteiro Lobato, E\u00e7a de Queiroz, Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski e Miguel de Cervantes.<\/p>\n<p>Em 1958, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara (atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro\/Uerj), concluindo o curso em 1962. Em 1967, graduou-se em ci\u00eancias sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, dois anos ap\u00f3s, ingressou na primeira turma de mestrado do Instituto Universit\u00e1rio de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica, por\u00e9m, foi interrompida na d\u00e9cada de 1970, por cinco inqu\u00e9ritos policiais-militares, que o levaram a se exilar no Chile.<\/p>\n<p>Retornou do ex\u00edlio um ano ap\u00f3s. Ao chegar, foi detido por seis meses. Acolhido em S\u00e3o Paulo por Francisco Weffort, seu orientador no doutorado em sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), come\u00e7ou a trabalhar no Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap), fundado em 1969, com financiamento da Funda\u00e7\u00e3o Ford, por professores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) afastados pelo regime militar, entre os quais, Boris Fausto, Elza Berqu\u00f3, Fernando Henrique Cardoso, Francisco de Oliveira, Jos\u00e9 Arthur Giannotti, Octavio Ianni, Paul Singer e Roberto Schwarz.<\/p>\n<p>Em 1974, com outros intelectuais que estudavam O Capital, de Karl Marx, como Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, foi aluno de Anastacio Mansilla na Escola de Quadros do PCUS. No mesmo ano, de volta ao Brasil, foi um dos redatores do programa pol\u00edtico do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB). Em 1975, fugindo da repress\u00e3o ao PCB em S\u00e3o Paulo, retornou ao Rio de Janeiro e, escondido na casa do dramaturgo Paulo Pontes, companheiro da \u00e9poca de CPC, escreveu sua tese de doutorado: Liberalismo e sindicato no Brasil (Paz e Terra, 1976).<\/p>\n<p><strong>Moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00eas d\u00e9cadas, Werneck foi professor do Iuperj e, durante o bi\u00eanio 2003-2004, presidiu a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais (Anpocs). Encerrou sua carreira acad\u00eamica como professor de sociologia da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Um dos grandes respons\u00e1veis pela difus\u00e3o do pensamento gramsciano no Brasil, no rastro do jornalista Luiz Mario Gazzaneo, produziu ensaios que servem de refer\u00eancia para o estudo do pensamento social brasileiro, principalmente o liberalismo, do papel do Judici\u00e1rio e da moderniza\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Destacam-se entre seus trabalhos, pela atualidade: A revolu\u00e7\u00e3o passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Revan, 1997); A judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e das rela\u00e7\u00f5es sociais no Brasil, com Maria Alice Rezende de Carvalho, Manuel Palacios Cunha Melo e Marcelo Baumann Burgos (Revan, 1999); Esquerda brasileira e tradi\u00e7\u00e3o republicana: estudos de conjuntura sobre a era FHC-Lula (Revan, 2006); Uma sociologia indignada \u2014 Di\u00e1logos com Luiz Werneck Vianna, de Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Ed. UFJF, 2012); Moderniza\u00e7\u00e3o sem o moderno: an\u00e1lise de conjuntura na era Lula (Contraponto\/Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira) e Di\u00e1logos gramscianos sobre o Brasil (Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira, 2018).<\/p>\n<p>Liberalismo e Sindicato no Brasil \u00e9 um esfor\u00e7o de compreens\u00e3o das profundezas da nossa &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o conservadora&#8221;, no contexto das obras de Simon Schwartzman, Florestan Fernandes (1975) e Jos\u00e9 Murilo de Carvalho (1980). Estudou o liberalismo numa sociedade marcada pelo escravismo e pelo patrimonialismo. Sua tese de que a moderniza\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o significava ruptura e\/ou desaparecimento das elites tradicionais, mas a renova\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as, continua atual\u00edssima.<\/p>\n<p>Segundo Werneck Vianna, numa sociedade excludente e autorit\u00e1ria, que n\u00e3o incorporou os valores liberais, o caminho da moderniza\u00e7\u00e3o foi o Direito e suas institui\u00e7\u00f5es, em meio a rupturas e negocia\u00e7\u00f5es entre elites. Em s\u00edntese, a moderniza\u00e7\u00e3o brasileira ocorreu e ainda ocorre em meio a negocia\u00e7\u00f5es entre o moderno e a cultura do atraso, sem rupturas com ele, mas em compromisso. Werneck condenou a luta armada e apostou na luta pol\u00edtica pelas liberdades e na mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil durante o regime militar; ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica radicalmente comprometida com a democracia representativa como valor universal.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Difusor do pensamento gramsciano no Brasil, produziu ensaios que servem de refer\u00eancia para o estudo do liberalismo, do Judici\u00e1rio e da nossa moderniza\u00e7\u00e3o conservadora O soci\u00f3logo carioca Luiz Jorge Werneck Vianna faleceu, nesta quarta-feira, aos 85 anos. 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