{"id":8712,"date":"2024-02-25T07:51:13","date_gmt":"2024-02-25T10:51:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8712"},"modified":"2024-02-25T10:01:37","modified_gmt":"2024-02-25T13:01:37","slug":"nas-entrelinhas-a-guerra-de-gaza-pode-despertar-o-velho-antissemitismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-guerra-de-gaza-pode-despertar-o-velho-antissemitismo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A guerra de Gaza pode despertar o velho antissemitismo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Lula e Netanyahu escalaram a crise diplom\u00e1tica entre Brasil e Israel. Na esquerda brasileira, isso provocou uma onda antissionista, seu risco \u00e9 despertar o nosso velho antissemitismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo 19, os judeus eram pobres e sofriam constantes persegui\u00e7\u00f5es no Leste europeu, mas tinham uma vida bastante integrada \u00e0 sociedade na Europa Ocidental, de cuja elite econ\u00f4mica e intelectual faziam parte. Muitos j\u00e1 haviam se tornado crist\u00e3o novos, os \u201canusin\u201d, convertidos \u00e0 for\u00e7a ao cristianismo, como foram os \u201cmo\u00e7arabes\u201d ao islamismo, na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, para fugir \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es. A origem da alheira, embutido portugu\u00eas em formato de ferradura e cil\u00edndrico, parecido com a lingui\u00e7a de porco, foi a necessidade de os judeus dissimularem os seus h\u00e1bitos alimentares no per\u00edodo da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Judeus que se instalaram no interior de Portugal depois de terem sido expulsos da Espanha fingiam consumir carne de porco (animal proibido na religi\u00e3o judaica) e, por isso, criariam um tipo de chouri\u00e7o com vitela, coelho, peru, pato e massa de p\u00e3o, que penduravam em janelas e quintais. Os crist\u00e3os gostaram da alheira e passaram a incluir a carne de porco.<\/p>\n<p>A mais famosa \u00e9 a de Mirandela, que leva cebola, frango, cabe\u00e7a de porco, m\u00fasculo bovino, paio, lingui\u00e7a de pernil misturados com massa de p\u00e3o italiano, com pimenta do reino, sal e canela. Pode ser grelhada ou assada, acompanhada de legumes, batata frita e ovos. Nos bares, \u00e9 servida como aperitivo. Bacalhau desfiado com recheio de alheira e espinafre \u00e9 prato popular.<\/p>\n<p>Mas as alheiras n\u00e3o impediram que, na P\u00e1scoa de 1506, uma revolta do povo liderada por monges beneditinos levasse \u00e0 morte 4 mil crist\u00e3os novos, no chamado Massacre de Lisboa. Acusados de provocar a seca e a peste, a matan\u00e7a come\u00e7ou numa missa no Convento de S\u00e3o Domingos. Muito menos a nova identidade impediu o pogrom: para proteg\u00ea-los, a Coroa portuguesa havia autorizado que certos sobrenomes utilizados pela nobreza fossem tamb\u00e9m adotados por crist\u00e3os-novos, como Noronha, Meneses, Albuquerque, Almeira, Cunha, Pacheco, Vasconcelos, Melo, Silveira e Lima.<\/p>\n<p>Marranos origin\u00e1rios do Norte da \u00c1frica optaram por sobrenomes simb\u00f3licos na tradi\u00e7\u00e3o portuguesa como Le\u00e3o, Carneiro, Lobo, Raposo, Coelho, Pinheiro, Carvalho, Pereira e Oliveira. Outros preferiram os acidentes geogr\u00e1ficos, como Serra, Monte, Rios e Valle, e cidades portuguesas: Miranda, Chaves, Bragan\u00e7a, Oliveira, Santar\u00e9m e Castelo Branco. Ou mesmo apar\u00eancia f\u00edsica: Moreno, Negro, Branco. Nos registros da Inquisi\u00e7\u00e3o no Brasil, durante o per\u00edodo colonial, os sobrenomes mais citados atribu\u00eddos a judeus no pa\u00eds eram Rodrigues, Nunes, Henriques, Mendes, Correia, Lopes, Costa, Cardoso, Silva, Fonseca, Paredes, \u00c1lvares, Miranda, Fernandes, Azeredo, Valle, Barros, Ximenes e Furtado.<\/p>\n<p>S\u00e3o sobrenomes que integram caldeir\u00e3o \u00e9tnico-cultural brasileiro, adotados por descendentes de \u00edndios e negros assimilados, e associado aos de imigrantes italianos, espanh\u00f3is, \u00e1rabes e japoneses, entre outros, que conseguiram se traduzir e preservar plenamente sua identidade cultural, ao se integrar \u00e0 sociedade brasileira. Entre os judeus, por\u00e9m, h\u00e1 uma peculiaridade: s\u00e3o considerados apenas os filhos de m\u00e3es judias, n\u00e3o importa a etnia do pai, embora possa haver \u201cg\u00f3is\u201d convertidos ao juda\u00edsmo. Ap\u00f3s longa prepara\u00e7\u00e3o, a cerim\u00f4nia de convers\u00e3o \u00e9 marcada pela aceita\u00e7\u00e3o de todos os mandamentos da Tor\u00e1 e das leis rab\u00ednicas, um banho ritual e a circuncis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Estado de Israel<\/strong><\/p>\n<p>Na Europa Ocidental, no s\u00e9culo 19, principalmente na Alemanha e na Fran\u00e7a, os judeus gozavam de condi\u00e7\u00f5es sociais mais elevadas e julgavam-se mais seguros e integrados. At\u00e9 o advogado e jornalista h\u00fangaro Theodore Herzl, que era crist\u00e3o novo, ser convidado para ser correspondente do jornal Neue Freie Press em Paris e cobrir o julgamento de Alfred Dreyfus, oficial judeu do Ex\u00e9rcito franc\u00eas acusado de trai\u00e7\u00e3o, injustamente condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua (1894), que provocou uma onda de antissemitismo. A farsa do julgamento provocara forte rea\u00e7\u00e3o do escritor \u00c9mile Zola, numa carta aberta intitulada J&#8217;Accuse\u2026!<\/p>\n<p>Ao acompanhar o caso, Herzl constatou que a assimila\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolvia o problema do antissemitismo. Em 1895, lan\u00e7ou sua obra \u201cDer Judenstaat \u2013 Versuch Einer Modernen L\u00f6sung der Judenfrage\u201d (\u201cO Estado judeu \u2013 Uma solu\u00e7\u00e3o moderna para a quest\u00e3o judaica\u201d), que deu origem ao sionismo, em bases \u00e9tnico-religiosas. Ao preconizar a reconstru\u00e7\u00e3o da soberania nacional dos judeus em um Estado pr\u00f3prio, o que s\u00f3 viria a ocorrer ap\u00f3s o Holocausto, em 1948, discorreu sobre imigra\u00e7\u00e3o, compra de terras, edifica\u00e7\u00f5es, leis, idioma e inspirou a legisla\u00e7\u00e3o de Israel.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu escalou o mal-estar diplom\u00e1tico causado pela entrevista do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva na Eti\u00f3pia, na qual acusou o governo de Israel de genoc\u00eddio e fez uma cita\u00e7\u00e3o infeliz do Holocausto. Considerado \u201cpersona non grata\u201d pelo governo de Israel, Lula pode ser criticado duramente pela associa\u00e7\u00e3o que fez, mas sua condena\u00e7\u00e3o a Netanyahu, verdade seja dita, decorre da morte de milhares de mulheres e crian\u00e7as em Gaza, ou seja, dos crimes de guerra cometidos por Israel.<\/p>\n<p>Na esquerda brasileira, essa escalada verbal provocou uma perigosa onda antissionista. Seu risco \u00e9 despertar o nosso velho antissemitismo enrustido na nossa sociedade, desde o per\u00edodo da Inquisi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Sionista \u00e9 quem defende a exist\u00eancia de Israel, de fascistas a socialistas. N\u00e3o se deve generalizar.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lula e Netanyahu escalaram a crise diplom\u00e1tica entre Brasil e Israel. 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