{"id":8774,"date":"2024-03-10T07:52:28","date_gmt":"2024-03-10T10:52:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8774"},"modified":"2024-03-10T07:52:28","modified_gmt":"2024-03-10T10:52:28","slug":"nas-entrelinhas-lula-e-o-americanismo-na-vida-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lula-e-o-americanismo-na-vida-brasileira\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Lula e o americanismo na vida brasileira"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O American way of life serve de espelho para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas a elite econ\u00f4mica e a classe m\u00e9dia, mas tamb\u00e9m a grande massa de periferias e favelas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A complexidade das rela\u00e7\u00f5es do Brasil com os Estados Unidos \u00e9 determinada historicamente por nossa condi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica na Am\u00e9rica do Sul, o republicanismo, a voca\u00e7\u00e3o agroexportadora e industrial e a influ\u00eancia cultural do modo de vida americano na vida urbana. Antes mesmo da independ\u00eancia do Brasil, quando as rela\u00e7\u00f5es com os EUA se estabeleceram diplomaticamente, alternamos per\u00edodos de tens\u00e3o por raz\u00f5es comerciais ou pol\u00edticas, como na Inconfid\u00eancia, na Confedera\u00e7\u00e3o do Equador e nos governos Vargas e Jo\u00e3o Goulart, e momentos de estreita coopera\u00e7\u00e3o, maior at\u00e9 do que deveria, como na Primeira Rep\u00fablica, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar.<\/p>\n<p>No momento, as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o boas entre o governo Lula e o governo Biden, mas podem se deteriorar em fun\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio pol\u00edtico internacional. Ucr\u00e2nia, Gaza, Venezuela, Nicar\u00e1gua, s\u00e3o os pontos de maior fric\u00e7\u00e3o, mas o que pode complicar ainda mais as rela\u00e7\u00f5es \u00e9 uma eventual derrota dos democratas e a volta ao poder de Donald Trump, aliado de primeira hora do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, a influ\u00eancia cultural do americanismo, desde a entrada na II Guerra Mundial (1939-1945), ao lado dos Aliados, independe dessas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas conjunturais.<\/p>\n<p>O American way of life serve de espelho para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas a elite econ\u00f4mica e a classe m\u00e9dia, cujos padr\u00f5es de consumo emulam os norte-americanos, mas tamb\u00e9m a grande massa dos sub\u00farbios, periferias e favelas, que hoje consome o que pode para reproduzir o mesmo estilo de vida, haja vista a forte influ\u00eancia do hip hop e do fank entre os jovens, o \u201cidentitarismo\u201d de movimentos s\u00f3cio-pol\u00edticos\u201d de negros, mulheres e LGBTQIA+ e a forte rea\u00e7\u00e3o conservadora pentecostal, que esses comportamentos provocam, tanto aqui quanto l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso compreender a ess\u00eancia do americanismo, que se consolidou como modo de vida hegem\u00f4nico ap\u00f3s a crise de 1929 e a Grande Depress\u00e3o. No final do s\u00e9culo 19, principalmente depois da I Guerra Mundial (1914-1918), os Estados Unidos lideraram o desenvolvimento industrial e passaram a ser o centro da economia mundial. \u00c9 um modo de vida que surgiu associado ao taylorismo, como modelo de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, e ao fordismo, um novo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o de capital, que possibilitava o aumento da renda dos trabalhadores, sem as amarras e resqu\u00edcios do absolutismo e da servid\u00e3o que caracterizaram os prim\u00f3rdios do capitalismo na Europa e outros pa\u00edses de passado feudal. No nosso caso, essas amarras s\u00e3o heran\u00e7as do colonialismo e da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Modernidade l\u00edquida<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ao combinar organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e empreendedorismo, o taylor-fordismo foi a base do American way of life, cuja tradu\u00e7\u00e3o literal \u00e9 estilo de vida americano, e se consolidou com toda a for\u00e7a ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. O modelo americano se imp\u00f4s como refer\u00eancia de bem-estar para os pa\u00edses capitalistas ocidentais e asi\u00e1ticos. Numa sociedade com pleno emprego, todos os sonhos poderiam ser realizados, com base no consumismo, na padroniza\u00e7\u00e3o social e na cren\u00e7a nos valores democr\u00e1ticos liberais. Vendido atrav\u00e9s dos filmes e do marketing de suas empresas, durante a Guerra Fria tamb\u00e9m foi uma arma ideol\u00f3gica e cultural contra antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o comunismo. A exclus\u00e3o dos afrodescendentes dos direitos civis e a histeria anticomunista promovida pelo macarthismo foram a face mais perversa da moeda.<\/p>\n<p>No plano pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, se o americanismo foi uma resposta capitalista bem-sucedida \u00e0 esquerda revolucion\u00e1ria e ao modelo do \u201csocialismo real\u201d, hoje as suas bases objetivas, a grande ind\u00fastria mecanizada e o fordismo, acabaram ultrapassadas pelos novos sistemas de produ\u00e7\u00e3o flex\u00edveis, a automa\u00e7\u00e3o, a robotiza\u00e7\u00e3o e outros elementos da revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso no mundo. Isso desestruturou as classes sociais da sociedade industrial e criou uma sociedade p\u00f3s-moderna, l\u00edquida e vol\u00e1til, como destacou o fil\u00f3sofo Zygmunt Bauman (1925-2017) ao definir o mundo globalizado.<\/p>\n<p>Assim como o capitalismo nos seus prim\u00f3rdios, essas mudan\u00e7as desorganizaram todas as esferas da vida social, do amor ao trabalho, pois o sujeito sociol\u00f3gico moderno, com forte identidade de classe, \u00e9 um ser em extin\u00e7\u00e3o. Os indiv\u00edduos passaram a ser moldados e a moldar o mundo de acordo com a sua personalidade. O estilo de vida, aquilo e o modo como consome, o deslocamento f\u00e1cil e r\u00e1pido, e a mudan\u00e7a na forma de trabalho, com redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e inseguran\u00e7a no emprego, a \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d e o empreendedorismo, s\u00e3o as novas bases sociais e econ\u00f4micas do americanismo.<\/p>\n<p>Fluidez, movimento e imprevisibilidades agora s\u00e3o as caracter\u00edsticas da vida em sociedade e vem tendo forte impacto na pol\u00edtica. No nosso caso, o fato de a China ter tomado o lugar dos Estados Unidos como principal parceiro comercial n\u00e3o deve alimentar ilus\u00f5es de que podemos atrelar o nosso desenvolvimento ao capitalismo de estado, fora dos marcos da democracia representativa e do americanismo. O resultado dessa equa\u00e7\u00e3o seria o autoritarismo. Muito menos, trocar o Ocidente pelo Oriente nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, por causa dessa balan\u00e7a de com\u00e9rcio exterior. O que est\u00e1 acontecendo na pol\u00edtica brasileira reflete as circunst\u00e2ncias das mudan\u00e7as no mundo, que precisam ser mais compreendidas. At\u00e9 porque, se esse for o novo caminho a trilhar, uma eventual derrota de Biden ter\u00e1 consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas para o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O American way of life serve de espelho para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. 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