{"id":8792,"date":"2024-03-14T08:48:29","date_gmt":"2024-03-14T11:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8792"},"modified":"2024-03-14T10:26:00","modified_gmt":"2024-03-14T13:26:00","slug":"nas-entrelinhas-mentes-naufragadas-no-passado-e-no-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-mentes-naufragadas-no-passado-e-no-presente\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mentes naufragadas no passado e no presente"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>As for\u00e7as liberais n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar respostas imediatas \u00e0s demandas da sociedade, e a tend\u00eancia da esquerda \u00e9 retroalimentar a polariza\u00e7\u00e3o, sem oferecer solu\u00e7\u00f5es novas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O esp\u00edrito reacion\u00e1rio difere muito do conservador. Segundo o cientista pol\u00edtico norte-americano Mark Lilla, no livro A mente Naufragada (Record), trata-se de invocar o passado para nele viver sem transforma\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradi\u00e7\u00f5es como refer\u00eancia para agir no presente e construir o futuro.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu entre 1918-1939, em raz\u00e3o da enorme frustra\u00e7\u00e3o gerada pela carnificina da Primeira Guerra Mundial e o fracasso da ordem democr\u00e1tica em bases iluministas (penso, logo existo) e aristocr\u00e1ticas. A ordem liberal tecida na virada do s\u00e9culo estava em contradi\u00e7\u00e3o com o sujeito moderno da sociedade industrial, sociol\u00f3gico, estruturado em classes bem definidas. A rica experi\u00eancia da Social-Democracia Alem\u00e3, um partido oper\u00e1rio de orienta\u00e7\u00e3o marxista, sucumbiu ao nacionalismo. A emerg\u00eancia dos partidos comunistas, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, n\u00e3o foi capaz de barrar a ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia, na Alemanha e outros pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>Tr\u00eas pensadores do s\u00e9culo XX destacam-se nesse per\u00edodo como protagonistas do pensamento reacion\u00e1rio: Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss. Lilla conclui que olhavam para os destro\u00e7os de um passado que lhes parece amea\u00e7ado, quando j\u00e1 ultrapassado, e lutavam para salv\u00e1-lo, por n\u00e3o conseguirem se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as. Por uma ironia da Hist\u00f3ria, \u00e9 isso que hoje faz do reacionarismo um fen\u00f4meno &#8220;moderno&#8221; e resiliente no mundo, inclusive nas grandes democracias do Ocidente.<\/p>\n<p>O ex-presidente Jair Bolsonaro e as for\u00e7as que o apoiam, principalmente os &#8220;patriotas&#8221; e evang\u00e9licos, defendem, respectivamente, a volta do regime militar e uma regress\u00e3o nos costumes (criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, do casamento gay e da maconha). S\u00e3o parte de um fen\u00f4meno que surge do agravamento das desigualdades, das mudan\u00e7as nas estruturas de produ\u00e7\u00e3o, da crise de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos partidos, da velocidade, desregulamenta\u00e7\u00e3o e horizontalidade das redes sociais, sem grandes reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Tanto liberais como a esquerda t\u00eam dificuldades para enfrentar essas quest\u00f5es. O avan\u00e7o das novas tecnologias n\u00e3o pede licen\u00e7a. Transforma a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, j\u00e1 \u00e9 diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes. Diante de sua imprevisibilidade, a rea\u00e7\u00e3o mais natural \u00e9 se agarrar ao que j\u00e1 existe, ou seja, a tomada de atitudes conservadoras. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 o n\u00f3 da conjuntura pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"texto\">Reformas aprovadas pelo Congresso para atender os agentes econ\u00f4micos n\u00e3o equacionam os problemas pol\u00edticos e sociais do pa\u00eds. H\u00e1 um div\u00f3rcio entre as for\u00e7as pol\u00edticas que protagonizam essas mudan\u00e7as e a maioria da sociedade, que n\u00e3o compreende direito o que est\u00e1 acontecendo e repudia as pr\u00e1ticas pol\u00edticas dominantes. E o custo social dessa mudan\u00e7a, objetivamente, n\u00e3o pode ser revertido a curto prazo, o que alimenta a insatisfa\u00e7\u00e3o social e as solu\u00e7\u00f5es populistas.<\/p>\n<h3>Modelo ultrapassado<\/h3>\n<p class=\"texto\">Nesse ambiente, as for\u00e7as liberais n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar respostas imediatas \u00e0s demandas da sociedade, e a tend\u00eancia da esquerda \u00e9 retroalimentar a polariza\u00e7\u00e3o, sem oferecer solu\u00e7\u00f5es novas. Tece o seu fracasso ao buscar no pr\u00f3prio passado alternativas derrotadas em raz\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas desfavor\u00e1vel, mas que hoje, mesmo que fosse favor\u00e1vel, levariam ao fracasso, porque suas propostas j\u00e1 s\u00e3o ultrapassadas. Com sinal trocado, tamb\u00e9m s\u00e3o mentes naufragadas.<\/p>\n<div id=\"cb-publicidade-teads-inread-1x1\">\n<div id=\"google_ads_iframe_6887\/portal-correioweb\/correiobraziliense-com-br\/teads-inread-1x1_0__container__\">O slogan do governo Lula, Uni\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o, subliminarmente reproduz o ambiente de radicaliza\u00e7\u00e3o e sugere uma volta ao passado. Que passado \u00e9 esse? O dos nosso capitalismo de la\u00e7os, que j\u00e1 produziu a pol\u00edtica de &#8220;campe\u00f5es nacionais&#8221; e a chamada &#8220;nova matriz econ\u00f4mica? Esgotaram-se os efeitos do boom das commodities e do b\u00f4nus demogr\u00e1fico (a redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de dependentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa), que alimentaram as altas taxas de crescimento no segundo mandato de Lula. A realidade \u00e9 outra.<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\">A redu\u00e7\u00e3o de ritmo de crescimento da China e a nova guerra fria, que virou guerra quente na Ucr\u00e2nia e em Gaza, encerraram a grande onda de expans\u00e3o da economia global e provocaram uma crise nas cadeias de valor do com\u00e9rcio mundial, que est\u00e3o sendo reestruturadas. Essa foi uma vari\u00e1vel do fracasso da pol\u00edtica de capitalismo de Estado do governo Dilma Rousseff, que o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ensaia retomar. A tentativa de adensamento da cadeia produtiva nacional, em vez de sua transnacionaliza\u00e7\u00e3o, serviu muito mais \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de cart\u00f3rios e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica do que \u00e0 salva\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria nacional.<\/p>\n<p class=\"texto\">O nacional desenvolvimentismo n\u00e3o morreu nos cora\u00e7\u00f5es e mentes de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira, assim como o milagre econ\u00f4mico do regime militar. Os dois projetos foram ancorados no capitalismo de Estado e numa economia aut\u00e1rquica. O resultado \u00e9 que a industria nacional entrou em decad\u00eancia e ficou fora das cadeias de valor, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de commodities de alimentos e min\u00e9rios, uma voca\u00e7\u00e3o natural do Brasil na divis\u00e3o internacional do trabalho, deslocou o eixo de nossas rela\u00e7\u00f5es comerciais dos Estados Unidos para a China.<\/p>\n<p class=\"texto\">A chave para o Brasil \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o \u00e0s novas cadeias de valor, que est\u00e3o se regionalizando, sob a lideran\u00e7a dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia, mas isso somente ser\u00e1 poss\u00edvel com uma economia aberta e competitiva. Fatos e declara\u00e7\u00f5es recentes do presidente Lula e seus ministros sinalizam a dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As for\u00e7as liberais n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar respostas imediatas \u00e0s demandas da sociedade, e a tend\u00eancia da esquerda \u00e9 retroalimentar a polariza\u00e7\u00e3o, sem oferecer solu\u00e7\u00f5es novas O esp\u00edrito reacion\u00e1rio difere muito do conservador. 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