{"id":8859,"date":"2024-03-31T07:53:24","date_gmt":"2024-03-31T10:53:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8859"},"modified":"2024-03-31T08:29:02","modified_gmt":"2024-03-31T11:29:02","slug":"nas-entrelinhas-por-quem-os-sinos-dobram-neste-31-de-marco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-por-quem-os-sinos-dobram-neste-31-de-marco\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Por quem os sinos dobram neste 31 de mar\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>H\u00e1 um pacto de sil\u00eancio entre Lula e os comandantes militares, que proibiram as comemora\u00e7\u00f5es nos quart\u00e9is do golpe de 1964, enquanto golpistas prestam contas \u00e0 Justi\u00e7a<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso fugir ao senso comum e ao passado imagin\u00e1rio para ter um novo olhar sobre o dia 31 de mar\u00e7o de 1964. O regime militar que ali se instalou somente se encerrou com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, em 1985, e a bem-sucedida transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia presidida por Jos\u00e9 Sarney, cujo coroamento foi a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Desde ent\u00e3o, temos uma democracia representativa de massas, de car\u00e1ter social-liberal. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa a preservar.<\/p>\n<p>Um velho amigo, o soci\u00f3logo Caetano Ara\u00fajo, consultor do Senado, a prop\u00f3sito da pol\u00eamica sobre se o governo Lula deveria comemorar ou n\u00e3o o golpe de 1964, fez uma sensata separa\u00e7\u00e3o entre a verdade e a Justi\u00e7a, que n\u00e3o s\u00e3o mesma coisa, embora devam caminhar juntas. \u00c9 verdade que os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a cometeram crimes hediondos, sobretudo no caso dos desaparecidos, mas a aprovac\u00e3o da anistia em 1979, que n\u00e3o foi exatamente como os militares queriam, foi o grande pacto entre o governo e a oposi\u00e7\u00e3o que deu in\u00edcio efetivo \u00e0 ultrapassagem pac\u00edfica do regime autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Era a justi\u00e7a poss\u00edvel, como correu em outras transi\u00e7\u00f5es complexas da \u00e9poca. O Chile at\u00e9 hoje convive com uma constitucionalidade herdada do governo de Augusto Pinochet. O Uruguai promoveu um plebiscito que anistiou os militares. A Argentina puniu seus ditadores, depois do desastre das Malvinas, mas tamb\u00e9m motoneros e militantes do ERP envolvidos em crimes de sangue. Na \u00c1frica do Sul, sob lideran\u00e7a de Nelson Mandela, a Comiss\u00e3o da Verdade promoveu uma reflex\u00e3o para que o passado do apartheid n\u00e3o se repetisse, n\u00e3o teve papel criminal.<\/p>\n<p>Seguiram o rastro da Espanha, profundamente dividida desde a d\u00e9cada de 1930. Ap\u00f3s a morte de Franco, em meio \u00e0 crise econ\u00f4mica e social, sem a m\u00ednima estrutura democr\u00e1tica, com apoio do rei Juan Carlos I, Adolfo Suarez abriu o di\u00e1logo entre esquerda, centro e direita. No Pal\u00e1cio la Moncloa, em 1977, em Madri, todos os partidos assinaram um pacto no qual predominava a preocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas que abarcava previd\u00eancia, trabalho, liberdade, direito, energia, defesa e educa\u00e7\u00e3o. A Espanha tornou-se uma democracia s\u00f3lida, que sobreviveu \u00e0 tentativa de golpe militar de 1981.<\/p>\n<p>\u201cPor quem os sinos dobram\u201d (Bertrand Brasil), de Ernest Hemingway, que lutou como volunt\u00e1rio nas Brigadas Internacionais, \u00e9 uma grande hist\u00f3ria de amor, tendo por refer\u00eancia a experi\u00eancia pessoal do escritor na Guerra Civil Espanhola. Entretanto, narra a extrema viol\u00eancia das tropas de ambos os lados: os nacionalistas, auxiliados pelo governo italiano e nazista alem\u00e3o, e os republicanos, apoiados pelas brigadas e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O livro \u00e9 inspirado no poema \u201cMedita\u00e7\u00f5es\u201d, do pastor e poeta John Donne: \u201cQuando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade\u201d. Empresta o t\u00edtulo \u00e0 coluna.<\/p>\n<p><strong>Mortos e desaparecidos<\/strong><br \/>\nSim, os sinos hoje dobram por 434 mortos e desaparecidos, v\u00edtimas do regime militar, a maioria dos quais na tortura ou executados em confrontos simulados com os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Mas tamb\u00e9m dobram por cerca de 119 mortos pelos grupos armados que se opuseram \u00e0 ditadura. E quatro militantes de esquerda que foram executados pelos pr\u00f3prios companheiros. N\u00e3o eram \u201ccachorros\u201d. Qualquer tentativa de ajuste de contas punitivo com esse passado \u00e9 um equ\u00edvoco. Isso n\u00e3o significa confinar essa mem\u00f3ria ao culto dom\u00e9stico dos familiares de mortos e desaparecidos.<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que antecedeu o golpe de 1964 dividiu profundamente a sociedade, inclusive as classes sociais e as fam\u00edlias. Nem tudo foi fruto da \u201cguerra fria\u201d. Havia, como h\u00e1 ainda, um ambiente de iniquidade social prop\u00edcio. E tamb\u00e9m uma vis\u00e3o de ambos os lados de que as coisas se resolveriam pela for\u00e7a bruta do Estado e n\u00e3o pela sociedade, por via democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A esquerda deveria se perguntar: por que Juscelino Kubitscheck e Ulyssses Guimar\u00e3es apoiaram o golpe? A resposta \u00e9 simples: foram empurrados para os bra\u00e7os de Carlos Lacerda e Magalh\u00e3es Pinto, que empunharam a bandeira da democracia contra o radicalismo de esquerda. Os militares deveriam tamb\u00e9m se perguntar: por que Juscelino e Ulysses passaram \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, logo ap\u00f3s o golpe de 1964? Outra resposta simples: o regime cancelou as elei\u00e7\u00f5es e derivou para uma ditadura sanguin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Existe um fio de hist\u00f3ria que liga os acontecimentos de 1964 aos dias atuais, que passa pelas reformas de base na marra, a luta armada, o voto nulo, o n\u00e3o apoio a Tancredo Neves, a rejei\u00e7\u00e3o ao Plano Real e o fracasso do governo Dilma Rousseff: o voluntarismo e a frustra\u00e7\u00e3o de esquerda porque a queda da ditadura n\u00e3o se confundiu com a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fio de hist\u00f3ria liga a frustra\u00e7\u00e3o dos militares que ingressaram na carreira quando era uma via de ascens\u00e3o ao poder pol\u00edtico, cuja recidiva se deu no governo Bolsonaro, \u00e0 tentativa de golpe de 8 de janeiro da extrema direita bolsonarista, inspirada no passado imagin\u00e1rio do regime militar: a mentalidade de que \u00e0s For\u00e7as Armadas cabe tutelar a na\u00e7\u00e3o, por representar \u201co povo em armas\u201d.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica sobre a decis\u00e3o do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva de n\u00e3o relembrar oficialmente o golpe militar de 31 de mar\u00e7o de 1964 \u00e9 fruto dessas vicissitudes hist\u00f3ricas. De fato, h\u00e1 um pacto de sil\u00eancio entre Lula e os comandantes militares, que proibiram as comemora\u00e7\u00f5es nos quart\u00e9is, enquanto generais e outros oficiais golpistas prestam contas \u00e0 Justi\u00e7a comum, fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entretanto, a sociedade n\u00e3o est\u00e1 proibida de reverenciar seus mortos, como fizeram os professores da Faculdade de Direito de Niter\u00f3i (UFF), ao propor o t\u00edtulo de Doutor Honoris Causa ao seu ex-aluno Fernando Santa Cruz, sequestrado e assassinato em 1974, depois de diplom\u00e1-lo bacharel post mortem.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um pacto de sil\u00eancio entre Lula e os comandantes militares, que proibiram as comemora\u00e7\u00f5es nos quart\u00e9is do golpe de 1964, enquanto golpistas prestam contas \u00e0 Justi\u00e7a \u00c9 preciso fugir ao senso comum e ao passado imagin\u00e1rio para ter um novo olhar sobre o dia 31 de mar\u00e7o de 1964. 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