{"id":8982,"date":"2024-05-05T07:32:33","date_gmt":"2024-05-05T10:32:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=8982"},"modified":"2024-05-05T07:32:33","modified_gmt":"2024-05-05T10:32:33","slug":"nas-entrelinhas-brasil-safado-de-madonna-e-negacao-do-conservadorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-brasil-safado-de-madonna-e-negacao-do-conservadorismo\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: Brasil safado de Madonna \u00e9 nega\u00e7\u00e3o do conservadorismo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>F\u00e3s revelam uma identidade coletiva na qual representam a persona que quiserem. E tudo no bairro, que \u00e9 o mais cantado do mundo, preferido por Bolsonaro para realizar seus atos golpistas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mitos e s\u00edmbolos s\u00e3o semelhantes em todas as culturas ao longo do tempo. O inconsciente individual existe sobre uma camada mais profunda, o inconsciente coletivo. O sucesso de Madonna, no Rio de Janeiro, com um show gratuito, patrocinado com recursos p\u00fablicos (n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis), merece uma reflex\u00e3o sobre o outro lado de um pa\u00eds que parece regredir no tempo, quando olhamos para a pol\u00edtica. Mas que passou por mudan\u00e7as de comportamento humano que n\u00e3o t\u00eam mais volta.<\/p>\n<p>Podia-se afirmar que \u00e9 um fen\u00f4meno do Rio de Janeiro, que busca no entretenimento e na transgress\u00e3o cultural uma esp\u00e9cie de reden\u00e7\u00e3o de suas mazelas pol\u00edticas e iniquidades sociais. Mas, n\u00e3o. Foi gente do pa\u00eds inteiro, de todas as classes sociais e g\u00eaneros sexuais, que viajou para o ver o show de Madonna no Rio de Janeiro. Poderia ser no sentido inverso, para S\u00e3o Paulo, Salvador ou Belo Horizonte, o sucesso seria o mesmo. Entretanto, que astro pop resiste ao fasc\u00ednio de Copacabana?<\/p>\n<p>O bairro bo\u00eamio preferido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para realizar seus atos golpistas \u00e9 o mais cantado do mundo. A &#8220;princesinha do mar&#8221;, como foi chamada no samba de Alberto Ribeiro e Jo\u00e3o de Barro, o Braguinha, gravado originalmente em 1946, na voz inconfund\u00edvel de Dick Farney, foi cantada at\u00e9 por Sarah Vaughan.<\/p>\n<p>Dorival Caymmi viveu quase tanto em Copa quanto na Bahia. Na d\u00e9cada de 50, com Carlos Guinle, comp\u00f4s S\u00e1bado em Copacabana, gravada em 1951 por L\u00facio Alves.<\/p>\n<p>Billy Blanco comp\u00f4s a censurada N\u00e3o vou pra Bras\u00edlia, gravada em 1957, pelo grupo Os Cariocas: N\u00e3o vou, n\u00e3o vou pra Bras\u00edlia\/ Nem eu nem minha fam\u00edlia\/ Mesmo que seja\/ pra ficar cheio de grana\/ A vida n\u00e3o se compara\/ mesmo dif\u00edcil e t\u00e3o cara\/ Quero ser pobre\/ Sem deixar Copacabana. Caetano Veloso, Joyce, Eduardo Dusek, Gilberto Gil, Roberto Frejat, Paulo Leminski e Tom Jobim tamb\u00e9m se renderam \u00e0 superbacana.<\/p>\n<p>Para o mundo, Copacabana \u00e9 um arqu\u00e9tipo de para\u00edso tropical, embora seja &#8220;maravilha e purgat\u00f3rio da beleza e do caos&#8221;, como diriam Fausto Fawcett e Fernanda Abreu. Madonna n\u00e3o resistiu ao charme das suas cal\u00e7adas e ao ic\u00f4nico glamour do velho Copacabana Palace, frequentado pelas estrelas de Hollywood, astros do mundo pop e a nobreza europeia.<\/p>\n<p>&#8220;Safada is coming to Rio&#8221; (A safada est\u00e1 chegando ao Rio), anunciou Madonna em suas redes sociais, um m\u00eas antes do show, tempo suficiente para que as confec\u00e7\u00f5es fluminenses entrassem em produ\u00e7\u00e3o, com destaque para a camiseta preta dos peitinhos dourados, que provocou a forma\u00e7\u00e3o de filas nas lojas da Saara (o bairro comercial \u00e1rabe-judeu do Rio de Janeiro, cuja conviv\u00eancia deveria servir de exemplo para Israel e a Palestina).<\/p>\n<p><strong>Os arqu\u00e9tipos<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e3s se aglomeraram dia e noite \u00e0 porta de Copacabana e nas imedia\u00e7\u00f5es do local onde foi realizado o show, desde quando Madonna chegou ao Rio. Havia todo tipo de gente. Madonna \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da &#8220;alma imoral&#8221; e sua persona, um arqu\u00e9tipo social universal. A palavra latina &#8220;archetypum&#8221; pode ser traduzida por &#8220;primeiro modelo&#8221;. S\u00e3o mem\u00f3rias de nossos antepassados, que utilizamos para compreender a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. Na psicologia, o &#8220;ego&#8221; \u00e9 a mente consciente, o inconsciente pessoal re\u00fane a mem\u00f3ria do indiv\u00edduo. O inconsciente coletivo \u00e9 a parte da psique que abriga os arqu\u00e9tipos.<\/p>\n<p>&#8220;O velho s\u00e1bio&#8221;, &#8220;A grande m\u00e3e, &#8220;A deusa, &#8220;O her\u00f3i&#8221; e &#8220;A madona&#8221; s\u00e3o os arqu\u00e9tipos mais conhecidos. Com o nome art\u00edstico nos diz, Madonna representa uma persona da p\u00f3s-modernidade, que tamb\u00e9m re\u00fane os arqu\u00e9tipos da hero\u00edna revolucion\u00e1ria e da deusa devoradora dos homens \u2014 e at\u00e9 de mulheres. Sua imagem p\u00fablica foi moldada para ser uma persona que n\u00e3o esconde o &#8220;animus&#8221; masculino da personalidade feminina. Ao seu lado no palco, Pabblo Vittar foi a tradu\u00e7\u00e3o escancarada da &#8220;anima&#8221;, os atributos femininos da psique masculina.<\/p>\n<p>A psicologia social e a antropologia explicam muito mais certos fen\u00f4menos pol\u00edticos do que a sociologia e a ci\u00eancia pol\u00edtica propriamente ditas. Enquanto os ga\u00fachos, que hoje representam a parcela da popula\u00e7\u00e3o mais conservadora do pa\u00eds, enfrentam um momento dram\u00e1tico, em raz\u00e3o das chuvas, a multid\u00e3o em \u00eaxtase com a presen\u00e7a de Madonna no Rio de Janeiro vivia uma outra realidade, muito mais espiritual do que f\u00edsica.<\/p>\n<p>Como nos ritos de passagem das comunidades mais primitivas, os f\u00e3s de Madonna adquiriram uma segunda identidade, contestadora, transgressora, livre, na qual cada um pode representar a persona que gostaria realmente de ser.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, Madonna passou pelos Estados Unidos, Europa e M\u00e9xico com o show The Celebration Tour, que se encerrou nesta madrugada. Louise Ciccone, seu nome verdadeiro, dan\u00e7a e canta h\u00e1 mais de 50 anos, desde que deixou Michigan para iniciar sua carreira art\u00edstica em Nova York.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo dia 16 de agosto, completar\u00e1 66 anos, 40 dos quais como pop star \u00e0 frente do seu tempo. Suas m\u00fasicas, performances e discursos p\u00fablicos sempre promoveram a emancipa\u00e7\u00e3o feminina e a defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e3s revelam uma identidade coletiva na qual representam a persona que quiserem. E tudo no bairro, que \u00e9 o mais cantado do mundo, preferido por Bolsonaro para realizar seus atos golpistas Mitos e s\u00edmbolos s\u00e3o semelhantes em todas as culturas ao longo do tempo. 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