{"id":9010,"date":"2024-05-12T08:24:24","date_gmt":"2024-05-12T11:24:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9010"},"modified":"2024-05-12T08:28:44","modified_gmt":"2024-05-12T11:28:44","slug":"nas-entrelinhas-a-cosmovisao-da-floresta-e-o-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-cosmovisao-da-floresta-e-o-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A cosmovis\u00e3o da floresta e o fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Uma \u00e1rvore derrubada na Amaz\u00f4nia, como num efeito borboleta, impacta o clima dos pampas. H\u00e1 consenso cient\u00edfico sobre isso<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Num pa\u00eds democr\u00e1tico e multi\u00e9tnico como nosso, coexistem diferentes formas de pensar e de viver, embora nem sempre em harmonia. Uma delas merece cada vez mais aten\u00e7\u00e3o, pela contribui\u00e7\u00e3o que pode dar ao planeta, sobretudo \u00e0 ci\u00eancia, nesse momento de emerg\u00eancia clim\u00e1tica: a cosmologia ind\u00edgena. Diante da destrui\u00e7\u00e3o das florestas e consequente aquecimento global, da frequ\u00eancia e escala crescentes dos desastres naturais, os saberes ind\u00edgenas ancestrais come\u00e7am a ganhar cora\u00e7\u00f5es e mentes na sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata mais de um debate sobre modelos de desenvolvimento, pura e simplesmente. Trata-se da dram\u00e1tica condi\u00e7\u00e3o humana que emerge nos \u201cdesastres naturais\u201d, como a que estamos vivendo no Rio Grande do Sul. A capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as, hoje focada nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e na inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, precisa voltar ao leito da rela\u00e7\u00e3o evolutiva dos seres humanos com a natureza, porque p\u00f5e em xeque a nossa capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as ambientais, sobretudo clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A vida e os saberes ind\u00edgenas consideram o universo em sua totalidade e inserem o ser humano em uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es, que envolve o natural e sobrenatural. Embora violentamente agredidos pelos interesses de mercado e a moderniza\u00e7\u00e3o permanente das atividades econ\u00f4micas, esse conhecimento n\u00e3o est\u00e1 subordinados \u00e0 l\u00f3gica dos interesses de mercado. Historicamente, cederam lugar \u00e0 raz\u00e3o e a ci\u00eancia, mas os fatos mostram que ainda temos muito a aprender com nossos 350 povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Assim como estamos aprendendo e ensinando, simultaneamente, o manejo e aproveitamento dos recursos naturais de maneira a n\u00e3o esgotar suas possibilidades \u00e0s comunidades tradicionais. Quilombolas, pescadores artesanais, as quebradeiras de baba\u00e7u, seringueiros, castanheiros, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, sertanejos, pantaneiros, geraizeiros e caatingueiros, entre outros, ficaram \u00e0 margem da moderniza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, herdaram e\/ou desenvolveram saberes que garantem sua sobreviv\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es muito desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p>Precisamos dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s vozes dissonantes desses setores, como a de A\u00edrton Krenac, o fil\u00f3sofo ind\u00edgena, rec\u00e9m-empossado na Academia Brasileira Letras (ABL). Ativista do movimento socioambiental, Doutor honoris causa pela Universidade Federal de Minas Gerais e pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Krenak nasceu na regi\u00e3o do vale do rio Doce, Minas Gerais. Exerceu um papel crucial na organiza\u00e7\u00e3o e conquista dos Direitos Ind\u00edgenas na Constituinte de 1988.<\/p>\n<p>O nome Krenak significa cabe\u00e7a (kre) da terra (nak). Os Krenak ou Borun s\u00e3o os \u00fatimos \u201cBotocudos do Leste\u201d, nome atribu\u00eddo pelos portugueses no fim do s\u00e9culo 18 aos grupos que usavam botoques auriculares ou labiais. S\u00e3o conhecidos tamb\u00e9m por Aimor\u00e9s e se auto-denominam Gr\u00e9n ou Kr\u00e9n. Em 2015, a cat\u00e1strofe de Mariana (MG), devastou toda a fauna e vegeta\u00e7\u00e3o do Rio Doce, atingindo a principal fonte de subsist\u00eancia dos Krenak, representados por pouco mais de 600 sobreviventes que ainda ocupam a regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Desastres naturais<\/strong><\/p>\n<p>Lan\u00e7ado em 2019 pela Companhia das Letras,<em> Ideias para adiar o fim do mundo<\/em> \u00e9 o livro mais famoso de Krenak. A obra critica a ideia de humanidade como um conceito separado da natureza. Essa premissa seria baseada no desastre socioambiental da nossa era, o Antropoceno. Somente atrav\u00e9s do reconhecimento da diversidade e da recusa da ideia do humano como superior aos outros seres, \u00e9 poss\u00edvel dar outro significado \u00e0s nossas exist\u00eancias e frear a caminhada para o colapso ambiental.<\/p>\n<p>Sua obra filos\u00f3fica sustenta-se na cosmologia ind\u00edgena.<em> O amanh\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 a venda,<\/em> de abril de 2020, sobre como a pandemia de Covid 19, nos fez refletir sobre o que \u00e9 a \u201cnormalidade\u201d e o que significaria voltar para esse status ap\u00f3s a crise social, econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria. Publicado no final de 2020, <em>A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil<\/em> \u00e9 um di\u00e1logo sobre o cen\u00e1rio pand\u00eamico, no qual aponta as tend\u00eancias destrutivas da civiliza\u00e7\u00e3o, durante um governo negacionista de extrema-direita.<\/p>\n<p>Mais recente, seu livro <em>Futuro ancestral<\/em> confronta o senso comum ao explorar a ideia de futuro: \u201cOs rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, s\u00e3o quem me sugerem que, se h\u00e1 futuro a ser cogitado, esse futuro \u00e9 ancestral, porque j\u00e1 estava aqui.\u201d Esse racioc\u00ednio nos remete \u00e0 trag\u00e9dia do Rio Rio Grande do Sul. Uma \u00e1rvore derrubada na Amaz\u00f4nia, como num efeito borboleta, impacta o clima dos pampas. Esse entendimento j\u00e1 tem um consenso cient\u00edfico, mas n\u00e3o tem a devida tradu\u00e7\u00e3o nas pol\u00edticas p\u00fablicas, que v\u00e3o na contram\u00e3o.<\/p>\n<p>O Congresso derrubou o veto do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva a itens da Lei dos Agrot\u00f3xicos que deram ao Minist\u00e9rio da Agricultura compet\u00eancia exclusiva para registrar agrot\u00f3xicos, esvaziando Ibama e Anvisa. Outros 25 projetos est\u00e3o prontos para vota\u00e7\u00e3o com objetivo de enfraquecer a legisla\u00e7\u00e3o ambiental e \u201cpassar a boiada\u201d. Os deputados Lucas Redecker (PSDB-RS) e Jer\u00f4nimo Goergen (PP-RS), al\u00e9m do senador licenciado Luis Carlos Heinze (PP-RS), ga\u00fachos, est\u00e3o entre os autores de leis favor\u00e1veis a flexibiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), promoveu cortes no or\u00e7amento da Defesa Civil e nos projetos de resposta a desastres ambientais. Em 2019, prop\u00f4s um projeto que alterou 480 pontos do C\u00f3digo Florestal estadual. A prefeitura de Porto Alegre nada investiu nenhum na preven\u00e7\u00e3o contra enchentes em 2023. Em mar\u00e7o, a Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara aprovou, com 38 votos a favor e 18 contra, um projeto que permite devastar campos nativos do tamanho do Rio Grande do Sul e do Paran\u00e1 juntos.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma \u00e1rvore derrubada na Amaz\u00f4nia, como num efeito borboleta, impacta o clima dos pampas. H\u00e1 consenso cient\u00edfico sobre isso Num pa\u00eds democr\u00e1tico e multi\u00e9tnico como nosso, coexistem diferentes formas de pensar e de viver, embora nem sempre em harmonia. 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