{"id":9038,"date":"2024-05-21T07:56:52","date_gmt":"2024-05-21T10:56:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9038"},"modified":"2024-05-21T07:56:52","modified_gmt":"2024-05-21T10:56:52","slug":"nas-entrelinhas-o-diluvio-as-vesperas-das-eleicoes-gauchas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-diluvio-as-vesperas-das-eleicoes-gauchas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O dil\u00favio \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es ga\u00fachas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O governador Eduardo Leite prop\u00f5e adiar as elei\u00e7\u00f5es municipais para n\u00e3o perder o foco na reconstru\u00e7\u00e3o do estado. N\u00e3o \u00e9 uma ideia sem sentido<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Na quarta semana de dil\u00favio no Rio Grande do Sul, que deixou 461 dos 497 munic\u00edpios ga\u00fachos debaixo d&#8217;\u00e1gua, um mar de lama e montanhas de entulhos tomam conta das cidades ga\u00fachas onde as \u00e1guas j\u00e1 baixaram. N\u00e3o se sabe ainda quanto ser\u00e1 o custo total nem o tempo necess\u00e1rio para reconstru\u00e7\u00e3o do estado. Enquanto as \u00e1guas do Gua\u00edba, acima da cota de inunda\u00e7\u00e3o, descem muito lentamente, a Lagoa dos Patos ainda sobe e amea\u00e7a cidades vizinhas, entre as quais, Pelotas.<\/p>\n<p>A imagem faz todo sentido. O Dil\u00favio \u00e9 o nome do evento b\u00edblico (G\u00eanesis 7 e 8), que come\u00e7ou no ano de 2516 a.C. e continuou por 12 meses lunares e 10 dias, ou exatamente um ano solar. Segundo a B\u00edblia, foi um castigo divino provocado pela corrup\u00e7\u00e3o e pela viol\u00eancia, na nona gera\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o. Deus, ent\u00e3o, decidiu purificar a Terra. Havia apenas uma fam\u00edlia fiel a Deus, a de No\u00e9, &#8220;um homem justo e \u00edntegro&#8221;.<\/p>\n<p>Ao comando divino, No\u00e9 fez uma arca de 133 metros de comprimento, 23 de largura e 14 de altura. Deus ordenaria a No\u00e9 que entrasse na arca, levando com ele sua esposa e tr\u00eas filhos, com suas respectivas esposas, e os animais que pudesse. A chuva come\u00e7a no 17\u00ba dia do segundo m\u00eas; quando para, as \u00e1guas predominam, 15 metros acima, por meses. A arca s\u00f3 repousa em uma das montanhas de Ararate, 150 dias depois do in\u00edcio do Dil\u00favio. O solo s\u00f3 fica seco no primeiro dia do novo ano (G\u00eanesis 8:13).<\/p>\n<p>Segundo a narrativa b\u00edblica, o Dil\u00favio foi universal e eliminou todos os homens, exceto No\u00e9 e sua fam\u00edlia, que foram preservados na arca; ou seja, ser\u00edamos seus descendentes. Toda religi\u00e3o busca uma explica\u00e7\u00e3o para os fen\u00f4menos que fogem \u00e0 constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. Desde os tempos mais primitivos, os seres humanos t\u00eam necessidade de explicar fen\u00f4menos naturais como chuva, vento, eclipses etc. Buscam respostas metaf\u00edsicas, ou seja, al\u00e9m daquilo que se consegue ver e tocar.<\/p>\n<p>O drama do Rio Grande do Sul tem dimens\u00f5es b\u00edblicas, por\u00e9m as explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o cient\u00edficas. A subjetividade n\u00e3o est\u00e1 nos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos, que j\u00e1 estavam sendo previstos, mas na pol\u00edtica e no comportamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza. As chuvas agora se estendem a Santa Catarina, com oito munic\u00edpios, onde a trag\u00e9dia se repete, em estado de emerg\u00eancia: Passo de Torres, Sombrio, S\u00e3o Jo\u00e3o do Sul, Balne\u00e1rio Gaivota, Jacinto Machado, Maracaj\u00e1, Ararangu\u00e1, Rio do Sul.<\/p>\n<p>Nunca o Sul do pa\u00eds viveu tamanha trag\u00e9dia. Mais chuvas est\u00e3o previstas. A economia ga\u00facha entrou em colapso, com lavouras destru\u00eddas e ind\u00fastrias paralisadas, com perda de grande parte dos equipamentos; o com\u00e9rcio foi igualmente arrasado, com a destrui\u00e7\u00e3o de grande estoque de mercadorias. Em muitos lugares, \u00e9 imposs\u00edvel reconstruir moradias e\/ou imprudente voltar \u00e0s que restaram.<\/p>\n<p><strong>Foco na reconstru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nunca se viu tamanha destrui\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea, embora trag\u00e9dias provocadas por deslizamentos e enchentes, al\u00e9m de inc\u00faria e interven\u00e7\u00f5es humanas desastrosas, sejam frequentes. Em todas as regi\u00f5es, eventos clim\u00e1ticos e ocupa\u00e7\u00e3o inadequada de v\u00e1rzeas e encostas registram ocorr\u00eancias que devem servir de alerta para os governantes e a sociedade. Com o aquecimento global, todo o clima mudou, os oceanos subiram, as chuvas e as secas ser\u00e3o mais severas.<\/p>\n<p>No caso do Rio Grande do Sul, h\u00e1 evid\u00eancia de que os ga\u00fachos n\u00e3o t\u00eam os recursos materiais, econ\u00f4micos e f\u00edsicos para enfrentar o problema, embora lhes sobrem energia e vontade pol\u00edtica. O governador Eduardo Leite (PSDB) prop\u00f5e adiar as elei\u00e7\u00f5es municipais para n\u00e3o perder o foco na reconstru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma ideia sem sentido, embora favore\u00e7a prefeitos que n\u00e3o seriam reeleitos e prejudiquem os candidatos mais competitivos. O debate eleitoral passa necessariamente pela reconstru\u00e7\u00e3o do estado. Cabe \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral decidir o que fazer diante da realidade.<\/p>\n<p>Quando as \u00e1guas baixarem, uma eternidade b\u00edblica para 540 mil desabrigados, ser\u00e1 a vez de Uni\u00e3o, estado e munic\u00edpios, que se desdobraram no socorro aos flagelados e abastecimento da popula\u00e7\u00e3o (\u00e1gua, comida e roupas secas), se organizarem para um planejamento racional, que leve em conta a experi\u00eancia vivida por todos, as limita\u00e7\u00f5es dos recursos dispon\u00edveis e a necessidade de repensar o modo de reconstruir as cidades.<\/p>\n<p>Cerca de 28% do investimento produtivo anual do Rio Grande do Sul (constru\u00e7\u00e3o residencial, m\u00e1quinas e equipamentos e infraestrutura), estimado em R$ 28,6 bilh\u00f5es, foram perdidos. Quase metade (48%) das escolas estaduais foram destru\u00eddas ou estavam inundadas. Muitos hospitais e postos de sa\u00fade foram inutilizados. Mais de 90 trechos em 51 rodovias estaduais foram bloqueados. O principal aeroporto do pa\u00eds, o Salgado Filho, em Porto Alegre, dificilmente entrar\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o novamente antes de setembro.<\/p>\n<p>Estima-se que a arrecada\u00e7\u00e3o do governo ga\u00facho cair\u00e1 R$ 14 bilh\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro suficiente para voltar \u00e0 vida normal a curto prazo, mesmo com toda a ajuda da Uni\u00e3o. Os ga\u00fachos passam mesmo por uma trag\u00e9dia diluviana.<\/p>\n<p><em>Colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governador Eduardo Leite prop\u00f5e adiar as elei\u00e7\u00f5es municipais para n\u00e3o perder o foco na reconstru\u00e7\u00e3o do estado. 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