{"id":904,"date":"2016-10-09T07:14:17","date_gmt":"2016-10-09T10:14:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=904"},"modified":"2016-10-09T07:14:17","modified_gmt":"2016-10-09T10:14:17","slug":"nas-entrelinhas-o-colapso-do-petismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-colapso-do-petismo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas; O colapso do petismo"},"content":{"rendered":"<p>A velha cultura nacional-desenvolvimentista, esquerdista e voluntarista, continua sendo um ref\u00fagio ideol\u00f3gico<\/p>\n<p>A c\u00fapula do PT ainda est\u00e1 atordoada com o resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais, como aquele lutador de boxe que foi \u00e0 lona e levanta dando socos no ar, completamente grogue, sem se dar conta de que foi a nocaute. Acredita que a narrativa do golpe varrer\u00e1 para debaixo do tapete tudo o que aconteceu. O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva se comporta da mesma maneira, como se fosse poss\u00edvel separar o fracasso do governo Dilma Rousseff dos seus dois mandatos e escapar da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, embora os dois principais art\u00edfices de sua ascens\u00e3o ao poder, os ex-ministros Jos\u00e9 Dirceu e Ant\u00f4nio Palocci, estejam presos. Mesmo que matem no peito o esc\u00e2ndalo da Petrobras, como fizeram Del\u00fabio Soares e Jo\u00e3o Vaccari Netto, o cerco est\u00e1 se fechando.<\/p>\n<p>Como veterano l\u00edder sindical, o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva sabe que a vida de um metal\u00fargico no ch\u00e3o da f\u00e1brica \u00e9 muito mais dura do que a de um m\u00e9dico, banc\u00e1rio ou professor, sobretudo quando se trata da defesa de seus direitos e reivindica\u00e7\u00f5es. Um l\u00edder sindical deixa de ser metal\u00fargico quando perde uma elei\u00e7\u00e3o e estabilidade no emprego, porque a rea\u00e7\u00e3o patronal costuma ser implac\u00e1vel e dificilmente outra empresa lhe oferecer\u00e1 trabalho. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os dirigentes sindicais se encastelam nos sindicados e fazem o diabo para neles permanecerem. Um balan\u00e7o da dire\u00e7\u00e3o nacional do PT concluiu que 50 mil militantes do partido ser\u00e3o desalojados de seus cargos em raz\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es municipais, nas quais sofreram uma derrota arrasadora, a come\u00e7ar por S\u00e3o Paulo e S\u00e3o Bernardo. Provavelmente, poucos abandonar\u00e3o a luta pol\u00edtica; por\u00e9m, com certeza, muitos deixar\u00e3o de ser petistas, uns por oportunismo, para manter os cargos, outros porque o desemprego os far\u00e1 refletir mais seriamente sobre o colapso do petismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil refletir sobre o pr\u00f3prio fracasso. No caso da derrota petista, h\u00e1 dois aspectos combinados: o primeiro \u00e9 o envolvimento do partido no esc\u00e2ndalo da Petrobras, que vem sendo desnudado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Essa \u00e9 a parte mais f\u00e1cil do diagn\u00f3stico, pelo menos para os que n\u00e3o se beneficiaram diretamente do esquema, embora seja muito dif\u00edcil reconstruir a imagem da legenda. A parte mais dif\u00edcil \u00e9 reconhecer que o projeto pol\u00edtico deu errado, porque a velha cultura nacional-desenvolvimentista, esquerdista e voluntarista, continua sendo um ref\u00fagio ideol\u00f3gico, ao empolgar uma parcela da juventude e possibilitar ao PT a realiza\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as \u00e0 esquerda contra o governo Temer.<\/p>\n<p>O verdadeiro fracasso, por\u00e9m, est\u00e1 no esgotamento de um modelo que mistura capitalismo de Estado e populismo, que surgiu na transi\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds agr\u00e1rio e rural para uma civiliza\u00e7\u00e3o urbano-industrial, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o de 30. Lula patrocinou a recidiva desse modelo, numa nova fase do capitalismo brasileiro e da globaliza\u00e7\u00e3o. O colapso do populismo no Brasil ocorreu com a ultrapassagem do modelo de Vargas, caracterizado pela atua\u00e7\u00e3o conservadora do Estado e pelo nacionalismo, pelo reformismo dinamizador de Juscelino, que n\u00e3o conseguiu eliminar as desigualdades e distor\u00e7\u00f5es estruturais do pa\u00eds. A tentativa de reverter essa ultrapassagem, no governo Jango, resultou na crise de 1964 e na substitui\u00e7\u00e3o, pelo regime militar, do projeto nacional desenvolvimentista pela ideologia da moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dilemas<br \/>\nCom a democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, por\u00e9m, a coopera\u00e7\u00e3o e a competi\u00e7\u00e3o externas passaram a ser vari\u00e1veis naturais do nosso desenvolvimento e objeto de desejo das elites e das camadas m\u00e9dias urbanas, o que ficou demonstrado na elei\u00e7\u00e3o de Collor de Mello e, depois, nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Com a elei\u00e7\u00e3o de Lula (gra\u00e7as ao novo protagonismo de sindicatos e movimentos sociais na pol\u00edtica nacional, diga-se de passagem, proporcionado pela cr\u00edtica ao populismo e pela estabiliza\u00e7\u00e3o da economia), o eixo do modelo se deslocou da ideologia da moderniza\u00e7\u00e3o para a ideologia do consumo, o ingrediente principal do neopopulismo lulista. Al\u00e9m disso, a chamada \u201cnova matriz econ\u00f4mica\u201d, que garantiu a reelei\u00e7\u00e3o de Lula e, depois, a elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, nada mais foi do que a retomada do velho modelo de capitalismo de Estado nacional desenvolvimentista, num ambiente internacional que lhe era hostil, tanto do ponto de vista econ\u00f4mico como pol\u00edtico. Vem da\u00ed o colapso do petismo.<\/p>\n<p>No livro A quarta revolu\u00e7\u00e3o, a corrida mundial para reinventar o Estado, os jornalistas brit\u00e2nicos John Mickethwait e Adrian Wooldridge (Portf\u00f3lio\/Penguin) registram que os governos de todos os matizes, dos Estados Unidos \u00e0 China, se deparam com tr\u00eas dilemas: \u201cprimeiro, n\u00e3o mais vender bens e servi\u00e7os que n\u00e3o s\u00e3o de sua compet\u00eancia, revivendo, portanto, os programas de privatiza\u00e7\u00e3o, velha causa da direita; segundo, cortar subs\u00eddios que afluem para os ricos e bem relacionados, a velha causa da esquerda; terceiro, reformar os direitos sociais para garantir que sejam direcionados para quem realmente precisa deles e que sejam sustent\u00e1veis no longo prazo, velha causa dos que se importam com a sa\u00fade do Estado.\u201d Com a crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e \u00e9tica, os tr\u00eas dilemas tamb\u00e9m est\u00e3o na ordem do dia aqui no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A velha cultura nacional-desenvolvimentista, esquerdista e voluntarista, continua sendo um ref\u00fagio ideol\u00f3gico A c\u00fapula do PT ainda est\u00e1 atordoada com o resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais, como aquele lutador de boxe que foi \u00e0 lona e levanta dando socos no ar, completamente grogue, sem se dar conta de que foi a nocaute. 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