{"id":9087,"date":"2024-06-02T16:25:19","date_gmt":"2024-06-02T19:25:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9087"},"modified":"2024-06-04T07:54:45","modified_gmt":"2024-06-04T10:54:45","slug":"nas-entrelinhas-para-nossos-jovens-a-elite-politica-fracassou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-para-nossos-jovens-a-elite-politica-fracassou\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: Para nossos jovens, a elite pol\u00edtica fracassou"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Em grande parte, o desinteresse dos jovens pela escola \u00e9 resultado da m\u00e1 qualidade do ensino, fen\u00f4meno que chegou \u00e0s universidades federais, com altos \u00edndices de evas\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds em propor\u00e7\u00e3o de jovens entre 18 e 24 anos que n\u00e3o estudam nem trabalham, atr\u00e1s apenas da \u00c1frica do Sul, num total de 37 pa\u00edses analisados. Os motivos desses jovens estarem sem estudar e sem trabalhar variam conforme a renda familiar, por\u00e9m, se encontram nessa condi\u00e7\u00e3o principalmente os mais pobres. Jovens que n\u00e3o estudam, n\u00e3o trabalham e nem procuram emprego majoritariamente moram nas periferias das cidades brasileiras.<\/p>\n<p>A Subsecretaria de Estat\u00edsticas e Estudos do Trabalho, do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, avalia que dos 207 milh\u00f5es de habitantes do Brasil, 17% s\u00e3o jovens de 14 a 24 anos, dos quais 5,2 milh\u00f5es est\u00e3o desempregados. Ou seja, s\u00e3o 55% das pessoas que procuram emprego e n\u00e3o acham, num universo de 9,4 milh\u00f5es, dos quais 52% s\u00e3o mulheres e 66% s\u00e3o pretos e pardos. Aqueles que nem trabalham nem estudam e nem procuram emprego \u2014 os chamados nem-nem \u2014 somam 7,1 milh\u00f5es, sendo que 60% s\u00e3o mulheres, a maioria com filhos pequenos, e 68% s\u00e3o pretos e pardos.<\/p>\n<p>Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal e ex-reitor da Universidade de Bras\u00edlia, em sua prega\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o de qualidade para todos, atribui boa parte da desocupa\u00e7\u00e3o dos jovens \u00e0s distor\u00e7\u00f5es do nosso sistema de ensino. Uma delas \u00e9 o fato de que damos mais import\u00e2ncia ao ensino universit\u00e1rio do que \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u2014 isto \u00e9, os ensinos infantil, fundamental e m\u00e9dio. Diz que o Brasil s\u00f3 vai resolver o problema da desigualdade social quando o filho do pobre tiver uma escola t\u00e3o boa quanto a do filho do rico, de prefer\u00eancia estudando juntos.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos consensual a conclus\u00e3o de que, em grande parte, o desinteresse dos jovens pela escola \u00e9 resultado da m\u00e1 qualidade do ensino, um fen\u00f4meno que agora tamb\u00e9m chegou \u00e0s universidades, com altos \u00edndices de evas\u00e3o. As mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e seus impactos no mercado de trabalho, com a precariza\u00e7\u00e3o de muitas profiss\u00f5es e o surgimento de novas atividades profissionais ou oportunidades de neg\u00f3cios, ligados \u00e0s redes sociais e novas tecnologias digitais, fazem com que o desinteresse pela escola cres\u00e7a entre os jovens, inclusive os de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Diante disso, chega a ser pat\u00e9tico o que est\u00e1 acontecendo com as universidades federais, que deveriam ser a vanguarda da educa\u00e7\u00e3o voltada para esses novos tempos, com as aulas paralisadas por mais de 60 dias em raz\u00e3o de uma greve de professores e funcion\u00e1rios. Reivindica-se vantagens corporativas sem se dispor a discutir o papel que deveriam ocupar diante da nova realidade, para aumentar a qualidade do ensino, a produtividade cient\u00edfica e a integra\u00e7\u00e3o \u00e0s atividades econ\u00f4micas e \u00e0 realidade social do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Fracasso pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deve se surpreender: a ultrapassagem da sociedade industrial e sua estrutura de classes faz com que um n\u00famero crescente de jovens deseje mudan\u00e7as numa dire\u00e7\u00e3o radicalmente inversa \u00e0quela que pautou a segunda metade do s\u00e9culo passado. As utopias de esquerda j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam o mesmo apelo. Na Fran\u00e7a, 36% dos jovens de 18 a 24 anos apoiam o Rally Nacional (RN), de Marine Le Pen, enquanto 31% apoiam o Partido da Liberdade (PVV), de Geert Wilders, nos Pa\u00edses Baixos.<\/p>\n<p>Crises econ\u00f4micas, como a de 2008 e a pandemia, podem ter colaborado para isso, mas \u00e9 preciso buscar causas mais profundas da apatia e do desengajamento da juventude. O fracasso da escola diante das mudan\u00e7as que ocorrem nas estruturas produtivas e nas formas de relacionamento social \u00e9 uma delas. Se a escola e a democracia n\u00e3o oferecem um caminho para o futuro desejado, surgem outras vias atraentes.<\/p>\n<p>O reacionarismo, que se baseia num passado imagin\u00e1rio, oferece solu\u00e7\u00f5es simplificadas e a velha ordem. No nosso caso, nada mais ultrapassado do que a escola c\u00edvico-militar, que acaba de ser adotada tamb\u00e9m pelo governo de S\u00e3o Paulo. Quando jovens n\u00e3o querem estudar, parte dos eleitores sonha com a volta da r\u00e9gua e da palmat\u00f3ria, al\u00e9m de outras formas de castigo para que os jovens rebeldes, lentos ou dispersivos garantam o futuro.<\/p>\n<p>Jovens universit\u00e1rios norte-americanos e de outros pa\u00edses que protestam contra as a\u00e7\u00f5es de Israel em Gaza s\u00e3o uma esperan\u00e7a de que nem tudo est\u00e1 perdido. Mas ser\u00e1 que tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o com a cabe\u00e7a no passado e, por isso, n\u00e3o representam a maioria? Nos Estados Unidos, um pa\u00eds de oportunidades e liberdade de escolhas, \u00e9 um espanto a emerg\u00eancia da xenofobia contra os imigrantes e o supremacismo racial, que d\u00e3o resili\u00eancia a Donald Trump, agora condenado por um tribunal de Nova York.<\/p>\n<p>O novo estilo de vida oferecido aos jovens nas redes sociais \u00e9 pautado pelo sucesso individual, via empreendedorismo, e na lei do mais forte. Nesse darwinismo social, somente sobreviver\u00e1 quem se adaptar \u00e0 nova realidade por esfor\u00e7o pr\u00f3prio. Num pa\u00eds como o Brasil, isso significa aprofundar nossas desigualdades sociais.<\/p>\n<p>A ordem democr\u00e1tica em que vivemos \u00e9 resultado do encontro de duas gera\u00e7\u00f5es: a que viveu o golpe militar de 1964 e aquela que protagonizou a democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, liderada por pol\u00edticos que constru\u00edram essa ponte \u2014 como Ulysses Guimar\u00e3es, Tancredo Neves, Jos\u00e9 Sarney, Leonel Brizola e Miguel Arraes. Entretanto, para os nossos jovens, a atual elite pol\u00edtica fracassou.<\/p>\n<p>O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que est\u00e1 no terceiro mandato, \u00e9 s\u00f3cio desse fracasso. Entretanto, ainda tem tempo para pensar fora da caixinha e apostar na educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a via de combate \u00e0s desigualdades e ao obscurantismo.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em grande parte, o desinteresse dos jovens pela escola \u00e9 resultado da m\u00e1 qualidade do ensino, fen\u00f4meno que chegou \u00e0s universidades federais, com altos \u00edndices de evas\u00e3o Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds em propor\u00e7\u00e3o de jovens entre 18 e 24 anos que n\u00e3o estudam nem trabalham, atr\u00e1s apenas da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":9093,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,176,677,28,38,589,4,32,972,8,9,3,323,48,39],"tags":[],"class_list":["post-9087","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-cidades","category-comunicacao","category-cultura","category-educacao","category-eua","category-governo","category-juventude","category-memoria","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-sao-paulo","category-trabalho","category-universidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9087"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9098,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions\/9098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}