{"id":9134,"date":"2024-06-16T08:26:13","date_gmt":"2024-06-16T11:26:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9134"},"modified":"2024-06-16T08:26:13","modified_gmt":"2024-06-16T11:26:13","slug":"nas-entrelinhas-o-trauma-do-aborto-e-um-segredo-das-familias-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-trauma-do-aborto-e-um-segredo-das-familias-brasileiras\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: O trauma do aborto \u00e9 um segredo das fam\u00edlias brasileiras"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Foi imediata a rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da opini\u00e3o p\u00fablica, pelas redes sociais e nas ruas, \u00e0 tentativa de criminalizar o aborto de crian\u00e7as v\u00edtimas de estupro com penas de at\u00e9 20 anos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2022, recebido aos 82 anos, a escritora francesa Annie Ernaux tinha 23 anos, em 1963, quando engravidou do namorado. Um relacionamento recente, sem muitas expectativas. Jovem universit\u00e1ria, de repente sua vida virou de ponta-cabe\u00e7a. Sem poder contar para sua fam\u00edlia, que vivia numa pequena cidade conservadora do interior da Fran\u00e7a, tomou a dram\u00e1tica decis\u00e3o de fazer um aborto. Seu livro O acontecimento (F\u00f3sforo Editora), tradu\u00e7\u00e3o de Isadora de Ara\u00fajo Pontes, relata sua dif\u00edcil e solit\u00e1ria trajet\u00f3ria em busca de um aborto, que \u00e0 \u00e9poca era ilegal na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Annie Ernaux levou 30 anos para relatar essa hist\u00f3ria, j\u00e1 escritora consagrada, com uma obra liter\u00e1ria toda pautada por forte conte\u00fado autobiogr\u00e1fico. &#8220;Faz uma semana que comecei esta narrativa, sem nenhuma certeza de continu\u00e1-la. S\u00f3 queria testar meu desejo de escrever sobre isso&#8221;, registrou em seu di\u00e1rio. O peso do dom\u00ednio masculino sobre o corpo feminino transborda no texto, que todo homem deveria ler. &#8220;Se eu n\u00e3o relatar essa experi\u00eancia at\u00e9 o fim, estarei contribuindo para obscurecer a realidade das mulheres e me acomodando do lado da domina\u00e7\u00e3o masculina do mundo&#8221;.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos tentaram dissuadi-la da decis\u00e3o. Enfrentou o moralismo at\u00e9 mesmo entre as amigas. Seu texto \u00e9 direto e chocante: &#8220;Tornou-se uma coisa sem forma que avan\u00e7ava dentro de mim e era preciso destruir a todo custo&#8221;. Ela narra, detalhadamente, seu encontro com a &#8220;fazedora de anjos&#8221; e a dram\u00e1tica passagem por um hospital, com risco de morte, ap\u00f3s o aborto clandestino, onde houve viol\u00eancia m\u00e9dica e o julgamento moral por sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa resenha minimalista do livro de Ernaux tem a ver com a vota\u00e7\u00e3o sobre a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto por crian\u00e7as v\u00edtimas de estupro, ap\u00f3s 22 semanas, cuja urg\u00eancia foi aprovada pela C\u00e2mara, na semana passada. Conduzida pelo presidente da Casa, deputado Arthur Lira (PP-AL), em acordo com os deputados de extrema direita e evang\u00e9licos, durou apenas 24s. Na vota\u00e7\u00e3o, houve muita hipocrisia e covardia, que s\u00e3o caracter\u00edsticas do machismo.<\/p>\n<p><strong>Vida privada<\/strong><\/p>\n<p>Foi imediata a rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da opini\u00e3o p\u00fablica, pelas redes sociais, \u00e0 tentativa de criminalizar o aborto de crian\u00e7as v\u00edtimas de estupro com penas de at\u00e9 20 anos, o dobro da prevista para o estuprador. No dia seguinte, milhares de mulheres protestaram nas ruas e Lira foi &#8220;demonizado&#8221;. O presidente da C\u00e2mara n\u00e3o levou em conta, assim como seus aliados, que o aborto \u00e9 um assunto da vida privada, segredo guardado a sete chaves, al\u00e9m de um problema de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00c9 rara a fam\u00edlia que n\u00e3o tenha passado por esse trauma. O aborto substituiu a virgindade como tabu no ide\u00e1rio crist\u00e3o da fam\u00edlia unicelular patriarcal, que se sente amea\u00e7ada pela revolu\u00e7\u00e3o dos costumes, principalmente da liberdade sexual \u2014 por\u00e9m, mesmo assim, \u00e9 praticado quando necess\u00e1rio. Atualmente, a legisla\u00e7\u00e3o permite o aborto ou a interrup\u00e7\u00e3o de gravidez em casos em que a gesta\u00e7\u00e3o decorre de estupro, coloca em risco a vida da m\u00e3e e de beb\u00eas anencef\u00e1licos. N\u00e3o est\u00e1 previsto um tempo m\u00e1ximo para a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa legisla\u00e7\u00e3o protege as mulheres de mais baixa renda, que recorrem aos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica quando cometem aborto induzido e correm risco de vida. A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) de 2021 mostra que uma em cada sete mulheres, com idade pr\u00f3xima aos 40 anos, j\u00e1 fez pelo menos um aborto no Brasil. O levantamento foi realizado em novembro de 2021, ouviu 2 mil mulheres em 125 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Mais da metade (52%) do total de mulheres que abortou tinha 19 anos de idade ou menos, quando fez seu primeiro aborto. Desse contingente (abaixo de 19 anos), 46% eram adolescentes entre 16 e 19 anos, e 6% meninas entre 12 e 14 anos. Pela legisla\u00e7\u00e3o, praticar sexo ou atos libidinosos com menor de 14 anos \u00e9 considerado crime de estupro de vulner\u00e1vel, independentemente de haver consentimento da crian\u00e7a, sob pena de pris\u00e3o de oito a 15 anos.<\/p>\n<p>Em 2021, 21% das mulheres que abortaram realizaram um segundo procedimento, chamado aborto de repeti\u00e7\u00e3o. Entre elas, est\u00e3o predominantemente as mulheres negras. Parte das entrevistadas (39%) usou medicamento para interromper a gesta\u00e7\u00e3o. A pesquisa cita que o medicamento mais usado \u00e9 indicado para preven\u00e7\u00e3o e tratamento da \u00falcera g\u00e1strica; e 43% das mulheres foram hospitalizadas para finalizar o aborto. Entretanto, o uso de misoprostal, cuja venda \u00e9 proibida sem receita m\u00e9dica, reduziu os casos de mortalidade nos abortos induzidos.<\/p>\n<p>&#8220;Temos relatos traum\u00e1ticos de persegui\u00e7\u00e3o, convoca\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, mulheres algemadas nos hospitais. Ent\u00e3o, h\u00e1 impacto na sa\u00fade p\u00fablica pela ocupa\u00e7\u00e3o de leitos, na sa\u00fade das mulheres porque, por alguma raz\u00e3o, utilizaram medicamentos inseguros, indevidos ou foram para a clandestinidade em cl\u00ednicas inseguras, ou porque n\u00e3o t\u00eam a informa\u00e7\u00e3o sobre como \u00e9 um aborto. Por isso, procuram os hospitais&#8221;, explica D\u00e9bora Diniz, antrop\u00f3loga e uma das autoras do estudo.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi imediata a rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da opini\u00e3o p\u00fablica, pelas redes sociais e nas ruas, \u00e0 tentativa de criminalizar o aborto de crian\u00e7as v\u00edtimas de estupro com penas de at\u00e9 20 anos Pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2022, recebido aos 82 anos, a escritora francesa Annie Ernaux tinha 23 anos, em 1963, quando engravidou do namorado. 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