{"id":915,"date":"2016-10-13T07:48:24","date_gmt":"2016-10-13T10:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=915"},"modified":"2016-10-13T07:48:25","modified_gmt":"2016-10-13T10:48:25","slug":"nas-entrelinhas-os-lacos-da-perdicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-lacos-da-perdicao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os la\u00e7os da perdi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Pela primeira vez, a esquerda no poder promoveu uma pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o de capital nunca vista, com os chamados &#8220;campe\u00f5es nacionais&#8221;<\/em><\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre capitalismo de la\u00e7os no Brasil n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, assim como a tentativa de reinventar o capitalismo de Estado. Por R$ 100 \u00e9 poss\u00edvel comprar pela internet dois livros de S\u00e9rgio Lazzarini sobre o assunto. Professor do Insper, o economista \u00e9 um estudioso das imbricadas rela\u00e7\u00f5es empresa-Estado no Brasil e do modelo pol\u00edtico adotado pelo PT e que entrou em colapso com o esc\u00e2ndalo da Petrobras, uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es il\u00edcitas envolvendo empres\u00e1rios, gestores p\u00fablicos e pol\u00edticos investigados pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato com os mecanismos de interven\u00e7\u00e3o do governo na economia, durante os mandatos de Lula e de Dilma.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode atribuir ao PT tudo o que aconteceu, at\u00e9 porque as estruturas do Estado e do capitalismo brasileiros foram historicamente constitu\u00eddas. O problema \u00e9 que, ao assumir o poder, o partido foi abduzido pelos la\u00e7os perversos do sistema, ao conquistar a chave do cofre e assumir as redes da pol\u00edtica. O transformismo petista, por\u00e9m, \u00e9 mascarado pela ret\u00f3rica neopopulista de amplos setores da esquerda, na qual o nacional desenvolvimentismo ainda serve de biombo ideol\u00f3gico. Encaixa-se como luva na velha doutrina dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional durante a guerra fria: alian\u00e7a com a burguesia nacional contra o imperialismo, num esquema em que a emerg\u00eancia da China na economia globalizada e o jogo duro da R\u00fassia de Putin contra os Estados Unidos na Ucr\u00e2nia e no Oriente M\u00e9dio substitu\u00edram a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os ex-aliados da Cortina de Ferro. Os sindicatos e a esquerda europeia se encarregaram de dar resson\u00e2ncia internacional ao projeto.<\/p>\n<p>Lazzarini notou que, nos processos de licita\u00e7\u00e3o, formavam-se cons\u00f3rcios com atores conhecidos, com a participa\u00e7\u00e3o do governo e seus agentes, mesmo depois do per\u00edodo de privatiza\u00e7\u00f5es. O Estado j\u00e1 n\u00e3o tinha controle total sobre grandes empresas, com exce\u00e7\u00e3o das Petrobras; havia dilu\u00eddo sua participa\u00e7\u00e3o em algumas empresas (privatizadas ou n\u00e3o) para atuar em uma rede muito maior de organiza\u00e7\u00f5es. Com isso, ao lado da ofertas p\u00fablicas de a\u00e7\u00f5es (IPOs \u2013 Initial Public Offerings) nas empresas estatais a novos investidores nacionais e internacionais, o Estado permanecia forte e presente em muitos setores.<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o se afastou de atividades econ\u00f4micas por meio da privatiza\u00e7\u00e3o e da abertura econ\u00f4mica. Pelo contr\u00e1rio, adotou um modelo de maior capilaridade, aumentando o n\u00famero de empresas que contam com a participa\u00e7\u00e3o do BNDES e dos fundos de pens\u00e3o de estatais, que t\u00eam la\u00e7os pol\u00edticos com o governo. E essa ramifica\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 t\u00e3o ou talvez mais poderosa do que o modelo anterior, concentrado em grandes empresas. Al\u00e9m disso, os mesmos propriet\u00e1rios e grupos, com la\u00e7os cruzados, estavam em muitas empresas. Com isso, grupos privilegiados pelo governo, em troca de propina, passaram a ter uma grande presen\u00e7a transversal na economia.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, a esquerda no poder promoveu uma pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o de capital nunca vista, os chamados \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d, cuja consequ\u00eancia foi a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente econ\u00f4mico degenerado e pouco competitivo. Ao contr\u00e1rio do que apregoa o discurso de defesa da \u201cengenharia nacional\u201d e da reserva de mercado para a inova\u00e7\u00e3o e tecnologia nacionais, quando as empreiteiras formaram o cartel que controlava todos os grandes projetos do governo, da constru\u00e7\u00e3o de plataformas de petr\u00f3leo a est\u00e1dios de futebol, puxaram para baixo a competitividade, a inova\u00e7\u00e3o, a qualidade e a produtividade no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Caso de pol\u00edcia<\/strong><\/p>\n<p>As conex\u00f5es internacionais do modelo s\u00e3o parte de um esquema de reprodu\u00e7\u00e3o do projeto de poder, no qual o BNDES entrava como fonte financiadora. A maioria dos empr\u00e9stimos camaradas tem prazo em torno de 12 a 15 anos, embora alguns contratos com Cuba destoem por terem at\u00e9 25 anos. As taxas de juros est\u00e3o entre 3% e 6% ao ano, em d\u00f3lar. O financiamento desses contratos se d\u00e1 via Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que recebe, nesses casos, remunera\u00e7\u00e3o atrelada a taxas internacionais. Mas essas s\u00e3o muito mais baixas do que o custo que o pr\u00f3prio governo consegue captar, aqui ou no exterior. E o pr\u00f3prio Tesouro tem coberto rombos no FAT.<\/p>\n<p>Pois bem, quando um dos maiores fornecedores da Petrobras, com contratos no valor de R$ 25 bilh\u00f5es, o estaleiro Keppel Fels, reconhece na Bolsa de Cingapura, onde fica a sua sede, que os pagamentos feitos a seu representante no Brasil \u201cpodem ser suspeitos\u201d, desnuda os la\u00e7os mais perversos &nbsp;e conex\u00f5es internacionais desse modelo, que virou caso de pol\u00edcia. Seu representante no Brasil \u00e9 o lobista e engenheiro Zwi Skornicki, preso pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que j\u00e1 disse que pagou US$ 4,5 milh\u00f5es (R$ 14,4 milh\u00f5es, em valores atuais) ao marqueteiro Jo\u00e3o Santana, que cuidou das campanhas de Lula (2006) e de Dilma Rousseff (2010 e 2014). A mulher e s\u00f3cia de Santana, M\u00f4nica Moura, confessou que recebeu os US$ 4,5 milh\u00f5es numa conta na Su\u00ed\u00e7a, uma d\u00edvida da campanha de 2010. Os ataques ao juiz federal S\u00e9rgio Moro, de Curitiba, n\u00e3o salvar\u00e3o o modelo fracassado. A crise fiscal do pa\u00eds exige do Estado e da sociedade uma mudan\u00e7a de paradigma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela primeira vez, a esquerda no poder promoveu uma pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o de capital nunca vista, com os chamados &#8220;campe\u00f5es nacionais&#8221; A discuss\u00e3o sobre capitalismo de la\u00e7os no Brasil n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, assim como a tentativa de reinventar o capitalismo de Estado. 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