{"id":9170,"date":"2024-06-27T08:29:04","date_gmt":"2024-06-27T11:29:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9170"},"modified":"2024-06-27T08:55:43","modified_gmt":"2024-06-27T11:55:43","slug":"nas-entrelinhas-pode-apertar-mas-ainda-nao-pode-acender-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-pode-apertar-mas-ainda-nao-pode-acender-agora\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Pode apertar, mas ainda n\u00e3o pode acender agora"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O samba de Bezerra da Silva continua atual, porque o Supremo apartou traficantes de usu\u00e1rios de drogas, mas o consumo de maconha continua sendo il\u00edcito e proibido em locais p\u00fablicos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Caso ainda fosse vivo, o cantor e compositor pernambucano Jos\u00e9 Bezerra da Silva (1938-2005) estaria cantando um dos seus sambas que falam da maconha, talvez at\u00e9 tivesse feito uma nova can\u00e7\u00e3o, para comemorar o resultado final do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu descriminalizar o porte de at\u00e9 40 gramas de maconha para o uso pessoal, encerrado nesta quarta-feira, ap\u00f3s nove anos de discuss\u00e3o na Corte.<\/p>\n<p>Para fugir da fome, Bezerra saiu do Recife (PE) aos 15 anos, apenas com a roupa do corpo, embarcado num navio que transportava a\u00e7\u00facar para o Rio de Janeiro. Como outros sambistas, foi trabalhar na constru\u00e7\u00e3o civil, como pintor de paredes. Ex\u00edmio ritmista (tamborim, surdo e outros instrumentos), come\u00e7ou a carreira de m\u00fasico na R\u00e1dio Clube, com Jackson do Pandeiro, para quem comp\u00f4s suas primeiras m\u00fasicas: O Pregui\u00e7oso e Meu veneno. Em 1969, pela gravadora Copacabana, lan\u00e7ou seu primeiro compacto. Depois de estudar oito anos de viol\u00e3o e harmonia, passou a fazer parte da Orquestra da Globo. Mas ficou famoso e ganhou dinheiro como o inventor do chamado sambandido, assim denominado porque seus sambas faziam muito sucesso nos pres\u00eddios.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o fumo maconha, n\u00e3o cheiro coca\u00edna, n\u00e3o bebo cacha\u00e7a, n\u00e3o vou a pagode nem a futebol e tenho alergia a cigarro. Sou mangueirense, mas n\u00e3o vou \u00e0 Mangueira. Quando a mar\u00e9 est\u00e1 legal, o m\u00e1ximo que fa\u00e7o \u00e9 dar um passeio com a patroa&#8221;, dizia Bezerra. Sua &#8220;transgress\u00e3o&#8221; foi fazer a cr\u00f4nica da realidade social dos morros, dos sub\u00farbios e das cadeias. &#8220;Dizem que sou malandro, cantor de bandido e at\u00e9 revoltado\/ Porque canto a realidade de um povo faminto e marginalizado&#8221;, se apresentou, em Partideiro Sem N\u00f3 na Garganta, do disco Presidente Ca\u00f4 Ca\u00f4.<\/p>\n<p>No mesmo LP, no samba V\u00edtima da Sociedade, cantou: &#8220;Se voc\u00eas est\u00e3o a fim de prender o ladr\u00e3o\/ Podem voltar pelo mesmo caminho\/O ladr\u00e3o est\u00e1 escondido l\u00e1 embaixo\/Atr\u00e1s da gravata e do colarinho&#8221;. Seus parceiros s\u00e3o desconhecidos do grande p\u00fablico: Barbeirinho do Jacar\u00e9, Baianinho, Em Cima da Hora, Embratel do Pandeiro, Trambique, Z\u00e9 Ded\u00e3o, Popular P., Pedro Butina, Sim\u00e3o PQD, Wilsinho Sarav\u00e1, Rubens da Mangueira, Pinga, Dunga da Coroa, Jorge Laureano, Adelzo Nilto, Edson Show, entre outros.<\/p>\n<p>Nas letras desses compositores, os conflitos sociais emergem como quem ri da pr\u00f3pria desgra\u00e7a, de forma ir\u00f4nica ou \u00e1spera. Bezerra n\u00e3o gostava que o chamassem de pagodeiro: &#8220;Quando a m\u00fasica \u00e9 feita por pobre, analfabeto ou crioulo, eles dizem que \u00e9 pagode. Eu n\u00e3o aceito isso!&#8221;. Filho de Ogum, ass\u00edduo frequentador do terreiro do Pai Nilo, em Belfort Roxo, Bezerra da Silva passou a ser cantado por compositores de rock e MPB, quando queriam defender a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha. Marcelo D2 gravou um \u00e1lbum s\u00f3 para ele.<\/p>\n<p><strong>Discrimina\u00e7\u00e3o e hipocrisia<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uns 10 sambas de Bezerra muitos conhecidos, um dos quais inspira a coluna: &#8220;Vou apertar\/Mas n\u00e3o vou acender agora (s&#8217;eimbora gente) \/ Vou apertar\/ Mas n\u00e3o vou acender agora\/ E se segura malandro\/ Pra fazer a cabe\u00e7a tem hora&#8221;, diz a letra de Malandragem d\u00e1 um tempo. A rigor, a letra dessa m\u00fasica continua atual, porque o STF estabeleceu regras para separar traficantes de usu\u00e1rios de drogas, mas o consumo de maconha continua sendo il\u00edcito e proibido em locais p\u00fablicos. A diferen\u00e7a \u00e9 que o usu\u00e1rio flagrado pela pol\u00edcia ser\u00e1 autuado, ter\u00e1 a maconha apreendida e sofrer\u00e1 san\u00e7\u00f5es administrativas, mas n\u00e3o pode ser preso e processado criminalmente.<\/p>\n<p>Ao limitar o porte para uso pessoal a 40 gramas, a Corte estabeleceu um crit\u00e9rio objetivo, que beneficiar\u00e1 os jovens pretos, pardos e pobres, que s\u00e3o tratados como criminosos, enquanto jovens brancos de classe m\u00e9dia ou alta, portando a mesma quantidade ou mais de maconha, v\u00e3o embora para casa e n\u00e3o s\u00e3o sequer autuados. H\u00e1 muito preconceito, discrimina\u00e7\u00e3o e hipocrisia.<\/p>\n<p>O Brasil gasta R$ 591,6 milh\u00f5es ao ano para manter na pris\u00e3o pessoas condenadas por portar at\u00e9 100 gramas de maconha, de acordo com estimativa feita pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea). S\u00e3o 19.348 presos nessa condi\u00e7\u00e3o. A pesquisa apurou tamb\u00e9m que 8.591 presos portavam menos 25 gramas de maconha; custa R$ 262,7 milh\u00f5es mant\u00ea-los na pris\u00e3o, R$ 30.580 para cada preso. O Brasil tem 852 mil presidi\u00e1rios, sendo 650 mil em regime fechado.<\/p>\n<p>O c\u00e2nhamo chegou ao Brasil nas velas e nos cordames das caravelas. A Diamba (maconha) passou a ser cultivada a partir de 1549, trazida pelos escravos, como &#8220;fumo de Angola&#8221;. A Coroa portuguesa incentivava sua exporta\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole e a rainha Carlota Joaquina, esposa do Rei D. Jo\u00e3o VI, aqui adquiriu o h\u00e1bito de tomar ch\u00e1 de maconha. Somente em 1889, com a Rep\u00fablica e a proibi\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da capoeira, o governo passou a combater sistematicamente os cultos de origem africana e o uso da cannabis.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a maconha passou a ser reprimida intensamente, principalmente durante o regime militar. Em 1976, quando Bezerra lan\u00e7ava seu segundo disco, Rita Lee e Gilberto Gil, que ainda fuma todo dia, foram presos em Florian\u00f3polis, na excurs\u00e3o dos Doces B\u00e1rbaros, flagrados com alguns baseados nos seus quartos de hotel. Foi nesse contexto que Bezerra come\u00e7ou a cantar a maconha. Seu nome foi associado \u00e0 defesa da legaliza\u00e7\u00e3o dessa erva: &#8220;N\u00e3o tem flagrante porque a fuma\u00e7a j\u00e1 subiu pra cuca, diz a\u00ed&#8221;. O samba A fuma\u00e7a j\u00e1 subiu pra cuca foi premonit\u00f3rio: &#8220;Se quiser me levar eu vou, nesse flagrante forjado eu vou\/ Mas na frente do homem que bate o martelo, \/ \u00e9 que a gente vai saber quem foi que errou&#8221;.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n<div class=\"sharedaddy sd-sharing-enabled\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O samba de Bezerra da Silva continua atual, porque o Supremo apartou traficantes de usu\u00e1rios de drogas, mas o consumo de maconha continua sendo il\u00edcito e proibido em locais p\u00fablicos Caso ainda fosse vivo, o cantor e compositor pernambucano Jos\u00e9 Bezerra da Silva (1938-2005) estaria cantando um dos seus sambas que falam da maconha, talvez at\u00e9 tivesse feito uma nova [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[291,1223,722,1135,277,161,437,9,73,71,68],"tags":[404,564,533,1520,79,1718],"class_list":["post-9170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-argentina","category-brasilia","category-ciencia","category-inglaterra","category-israel","category-may","category-merkel","category-politica-2","category-presidios","category-saude","category-violencia","tag-bezerra","tag-jovens","tag-maconha","tag-presidios","tag-supremo","tag-descriminalizacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9170"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9170\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9181,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9170\/revisions\/9181"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}